ABC SmartTalks |Edição Geração de Energia

No dia 22 de abril aconteceu a segunda edição do ABC SmartTalks com o tema “como a redução de carga e a sobrecontratação das distribuidoras podem afetar a cadeia do setor elétrico”.

Os palestrantes convidados foram:

  • Carla Primavera – Superintendente da área de Energia do BNDES
  • João Carlos Mello – CEO da Thymos Energia
  • Rui Altieri – Presidente do Conselho de Administração da CCEE
  • Vera Rett – Diretora administrativa e financeira da Sinop Energia

Veja o webinar na íntegra clicando aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Mn_9TUsaiAI&feature=youtu.be, ou confira alguns pontos da conversa abaixo:

 ABC: Como vocês enxergam os impactos setoriais do Covid-19?

Thymos: O setor elétrico é o primeiro termômetro da crise e sente a redução do mercado e da atividade econômica. Os impactos incluem preços caindo e despacho reduzido dos geradores para comportar a redução da carga. Em um cenário moderado, já contamos com um atraso de um ano nas perspectivas de carga no setor elétrico. Mas agora a pauta principal é: Como colocar o setor para andar, com suas receitas percorrendo toda cadeia? 

CCEE: A demanda realmente caiu bastante. Comparando o período anterior ao isolamento social e posterior ao isolamento social, a redução foi de 10% no mercado, sendo 14% no ambiente livre e 9% no mercado regulado. Estimamos que as distribuidoras estejam com 14% de sobrecontratação. É um valor muito alto, com um PLD muito baixo. Em abril, a ANEEL liberou o excedente financeiro de encargos futuros. Foram distribuídos R$ 2 bilhões e isso garantiu o sucesso nas liquidações de abril. Ponto de muita preocupação da CCEE é de como se darão as liquidações para os próximos dois ou três meses. Sobre os contratos livres, não tivemos nenhum problema na CCEE e todos foram validados.

ABC: Qual a visão de vocês sobre as cláusulas de caso fortuito e força maior?

BNDES: As comunicações foram enviadas apenas por cautela, já que todas as operações foram liquidadas na CCEE. Lembrando que as distribuidoras são as maiores arrecadadoras do sistema e que toda a solvência e resiliência do setor perpassa essa arrecadação. É importante lembrar que o setor já passou por duas grandes crises, uma no começo dos anos 2000 com o racionamento de energia e mais recentemente com a crise de 2014. Isso nos fez aprender um pouco quais são os desafios. Esta crise é muito diferente das que eu citei. A maior preocupação de curto prazo do BNDES, como credor, é justamente a solvência. 

Sinop: Em meados de março recebemos cartas de várias distribuidoras indicando que iriam exercer a cláusulas de caso fortuito e força maior, mas sem nenhum passo além disso, apenas notificações. Ficamos muito preocupados. Mas a resposta para todas as cartas que recebemos, por surpresa e acho que pela ação rápida da ANEEL, foi que na verdade as distribuidoras iriam honrar os contratos e que não havia motivos de preocupação. 

ABC: Como vocês avaliam o impacto da crise para os geradores hídricos?

CCEE: No início do ano nossa previsão do PLD era de R$ 180 e agora com os impactos da pandemia a expectativa é de R$ 80, próximo do piso. A mesma reavaliação ocorreu com o GSF, que passou de 82% para 81%. Por que reduziu tão pouco o GSF se a carga caiu tanto? Porque CMO e PLD também reduziram bastante e as térmicas que iriam operar fora da ordem de mérito, tirando o lugar das hidrelétricas, não vão mais operar. Então o cenário é melhor para as hidráulicas porque elas vão ficar com apenas 1% a mais de exposição, mas com o PLD muito mais reduzido do que a expectativa inicial.

Sinop: Concordo. Há uma expectativa muito baixa para o PLD em abril e maio. Por um lado, isso nos traz conforto, caso precisemos recorrer ao mercado de curto prazo. Por outro, sabemos que a razão disso não é positiva.

ABC: Como está a carteira de crédito do BNDES?

BNDES: O banco é o grande credor do setor elétrico. De 2000 a 2020, o BNDES apoiou 73% da adição na capacidade da matriz elétrica, de quase 71 GW. A solvência dos pagamentos regulados é talvez o primeiro tema, dada nossa exposição à geração e ao mercado regulado. Por isso estamos participando do debate e da estruturação de um financiamento para o segmento de distribuição. Não é propriamente um financiamento para as distribuidoras, mas para a solvência do sistema. A segunda questão é o mercado livre. Vínhamos fomentando por termos convicção de que o setor elétrico iria crescer nesse segmento. Não temos visibilidade de quanto a crise vai alterar essa percepção de risco dos preços no mercado livre. O terceiro ponto são os projetos em implantação. Por conta das crises de saúde a gente vem acompanhando esses projetos, especialmente os projetos maiores que têm um desafio de aglomeração nos canteiros. Estamos verificando se esses projetos ainda têm a capacidade de entregar as obras nas datas compactuadas com o regulador. E por último temos os projetos novos. Em um momento de crise o BNDES precisa permanecer resiliente, apoiando novos investimentos no setor elétrico. 

ABC: Como vocês avaliam as comercializadoras?

CCEE: Semana passada foi a data de validação e ajuste de contratos e não observamos nenhuma anormalidade. Se a crise durar entre dois ou três meses, não há nenhuma dificuldade. Se for um cenário mais longo, teremos que reavaliar. Mas para abril, maio e junho não há nenhum problema de liquidez para as comercializadoras. 

ABC: Podem falar sobre o empréstimo às distribuidoras?

CCEE: Nesse novo empréstimo a CCEE também será o veículo que fará os repasses ao setor de distribuição e iremos fazer igual fizemos da última vez, com as mesmas características. Na nossa avaliação as condições são até mais atrativas do que na crise de 2014 e 2015 e temos a nosso favor a experiência de um empréstimo de R$ 20 bilhões que foi muito bem-sucedido, quitado inclusive com sete meses de antecedência. E desta vez é diferente. Não é uma crise de falta de oferta.

BNDES: Temos discutido com a ANEEL, CCEE, MME e demais bancos a estruturação de um empréstimo que tem como premissa a criação de um ativo regulatório que já foi até endereçado no começo de abril pela Medida Provisória 950. É um cenário de serenidade e normalidade pois já passamos por isso em 2014. A gente já embarcou nessa discussão com diversos bancos, para podermos oferecer ao setor as melhores condições possíveis para a estruturação desse empréstimo, que será sindicalizado. É uma solução que pode ser implantada de forma muito rápida.

ABC: Como tem sido a adesão das empresas ao stand still

BNDES: O que temos observado no setor elétrico é que o segmento de distribuição foi o que mais pleiteou o stand still no banco. Diria que esse instrumento tem sido muito eficaz em distribuição. Em geração e transmissão os clientes têm olhado com uma dose de responsabilidade para saber se é pertinente ou não. Há algumas condições. No ano seguinte, quem aderiu não poderá distribuir dividendos.

ABC: O empréstimo às distribuidoras é suficiente para tranquilizar toda a cadeia?

Thymos: Os maiores impactos do setor vão afetar primeiro o fluxo de caixa das distribuidoras, que é a principal porta de entrada de caixa do setor elétrico. Se eu tenho uma preocupação com solvência é ali que eu tenho que resolver. Uma sugestão é que essa injeção de capital contém muita incerteza em termos de volume, então seria mais fácil estimar o montante máximo e liberar em tranches na medida que for necessário. Há várias medidas no sentido de desidratar o volume de empréstimo. 

Sinop: Falando um pouco sobre o setor de geração, como qualquer empresa devemos tomar conta do caixa para cumprir nossas obrigações e sempre postergando os investimentos de médio e longo prazo. É preciso repensar tudo. Segurar o caixa é a melhor decisão que as empresas podem tomar agora. Meu maior receio é sobre a duração da crise.  

ABC: Como está a questão do volume do empréstimo? 

CCEE: O que falta para iniciar os empréstimos é estabelecer o montante que a ANEEL vai reconhecer como ativo relatório.

BNDES: O valor está sendo discutido com ANEEL, MME e ele vai ser fruto da análise objetiva daquilo que realmente se percebe do mercado das distribuidoras, em termos de efeitos. A gente vai trabalhar com o valor indicado pelos reguladores. Um valor expressivo não é um problema. Todos os bancos têm exposição e apetite no setor elétrico e existe muita educação sobre o setor elétrico. Mesmo que seja um volume expressivo a gente não vai encontrar a dificuldade de montar um poolde bancos para fazer frente. 

ABC: Como vocês enxergam a questão dos covenants?

BNDES: Estamos observando cada projeto. Os projetos que estão pedindo stand still estão tendo os covenants liberados para esse ano. E não há nenhuma dificuldade da renegociação de covenants por causa do Covid-19. Evidentemente a interlocução no mercado de capitais e em dívidas pulverizadas é sempre um desafio a mais, mas acho que é perfeitamente possível de ser superado.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.