ABC SmartTalks |Edição Logística

No dia 21 de maio aconteceu a quarta edição do ABC SmartTalks com o tema “como o setor de logística tem mantido a economia rodando em meio ao isolamento e como será a nova dinâmica das operações em um cenário pós-Covid”.

Os palestrantes convidados foram:

  • Armando Marchesan – Presidente e fundador da Sequoia Logística
  • André Prado – CEO da BBM Logística

Veja o webinar na íntegra clicando aqui (link para o YouTube https://www.youtube.com/watch?v=L3YhvHjHXXc&feature=youtu.be) ou confira alguns pontos da conversa abaixo:

ABC: Como cada segmento da logística tem sido afetado pela pandemia?

BBM: O inbound, que é da matéria prima até a fábrica, não sentiu tanto. Há segmentos como papel e celulose que têm até um impacto positivo de consumo. O farmacêutico também. Alimentício explodiu e depois normalizou. Quando a gente fala de outbound, que vai da indústria até o consumidor final, esse sente mais, porque shoppings e lojas de ruas fecharam. Estamos vendo uma alteração muito grande de estado para estado e de segmento pra segmento. O que podemos falar, respeitando as regras da CVM, é que a gente vê os segmentos melhorando bastante e nossos números gerais têm ficado cada dia melhores.

Sequoia: É difícil dar um diagnóstico único. Você tem que lidar com as questões regionais de forma bastante intensa e mudando a cada dia. Diferente da BBM, a Sequoia é voltada quase exclusivamente para o consumo. A gente lida com todo o processo integrado de supply, mas voltados para o produto que chegará no consumidor, na ponta do consumo. Dito isto, as primeiras semanas da quarentena e do isolamento trouxeram uma queda importante no consumo das famílias, que não estavam adaptadas no início ao e-commerce. A pesquisa da Abralog mostra essa queda perto de 40 a 45% e quando eventualmente você segmenta isso, a logística fracionada em shopping center muito provavelmente caiu de 80% a 90%. Do outro lado, há esse desafio de readequar outra parte da operação aos volumes atuais. Atuamos muito no e-commerce, fazendo a entrega do lastmile. Esse segmento está sendo testado no limite da sua capacidade.

ABC: Até onde vale utilizar a frota alugada em vez de frota própria? 

BBM: Não necessariamente uma operação assetlight é a melhor opção. Por exemplo, na operação inbound, ali a demanda não altera. Então o nível de aproveitamento desse veículo é tão alto que justifica ter o ativo. Outro ponto que tem mudado no mercado nacional é que agora existe a possibilidade de locação, que é algo muito comum nos EUA, e que aqui não era tão comum. 

Sequoia: Depende da modalidade, do cliente, do tipo de operação. Como a Sequoia está voltada para o consumo e outbound fracionado (abastecimento de lojas ou entrega em casa) a demanda é muito variável. Não se tem uma previsibilidade ou um contrato como no modelo da indústria e no modelo do inbound. É muito difícil alocar ativos fixos, a não ser em alguns elos da cadeia, como transferências regulares no eixo Rio-São Paulo. Mas no caso da sequoia, exceto essas questões, a gente é muito assetlight. Olhando para o mercado, a virada dos juros proporciona o novo modelo de locação. Pode ser uma tendência interessante pra frente. De forma geral, o mercado vai passar por uma queda de investimento muito grande. Isso vem do governo para baixo. Todo mundo com o mantra de segurar o caixa. E quando olhamos para o segmento logístico no Brasil, acho que o dado é preocupante e até triste: a maioria das companhias têm pouco caixa e pouco acesso a crédito. São 3 a 4 mil transportadoras no país, mas só 10 a 15 relevantes. A turma está preocupada com a semana que vem.

ABC: Por outro lado, o modelo assetheavy garante contratos e receitas mais previsíveis. Como isso funciona na crise?

BBM: A Covid mostrou exatamente isso, o segmento de assetheavy, que no nosso caso é o DCC (DedicatedContractCarriage), variou muito pouco, garantiu as receitas, garantiu os custos fixos. No segmento de assetlight, que varia mais, nós conseguimos baixar aqueles custos que não usamos no momento. A empresa ficou maravilhosamente bem.  

ABC: Veremos novos players no e-commerce?

Sequoia: O segmento de e-commerce apresenta taxas de crescimento de dois dígitos há duas décadas e meia no Brasil. Mesmo na crise do Lehman Brothers ou no impeachment, quando o e-commerce cresceu pouco, cresceu 12%. É um segmento olhado pela maioria dos operadores. Mas não é um segmento simples. É diferente de operar contratos dedicados. É dinâmico, muito sensível a preço. É um cenário desafiador, ainda mais no Brasil que você tem uma malha muito complexa para fazer o lastmile. A forma de entregar muda. Rio tem todas as questões de segurança e São Paulo tem a questão de trânsito. Então não é simples mudar a companhia de industrial para e-commerce do dia para a noite.

ABC: Como vocês encaram a mudança de hábito com a Covid? 

BBM: Houve um boom do e-commerce, o que é normal. A gente não sabe qual vai ser o futuro, mas temos que estar construindo esse futuro hoje e é o que temos tentado fazer fortemente. Muita coisa que veio para o e-commerce vai voltar para o varejo original, mas uma parte provavelmente vai ficar nesse segmento. Então, você precisa rever seus canais e qual a melhor forma para atender esse novo equilíbrio na demanda.

Sequoia: A gente é craque em querer modelar tudo e já sair falando de novo normal. Mas estamos no meio da pandemia e essa conversa é um pouco precipitada. O que você pode fazer é olhar para países lá fora que estão em estágios diferentes do Brasil, até mesmo para países que já venceram a curva e estão conseguindo reabrir. A gente vê que a retomada é difícil. Não é automática e vai necessitar uma adaptação do varejo físico e de mercados mais afetados, como restaurantes e turismo, para uma nova realidade. Vai haver um empobrecimento da população. O consumo não vai ser mais o mesmo. 

ABC: Como vocês olham a consolidação do mercado?

BBM: Acredito que a consolidação vai ser uma solução do segmento porque muitas empresas já estão sentindo o impacto e realmente algumas delas não vão conseguir se perpetuar. Se você comparar com a greve dos caminhoneiros, o impacto agora é muito maior. Nós não estamos analisando empresas com preço baixo, mas empresas que realmente agreguem valor. Se eu pego uma empresa que está com dificuldade financeira, esse tempo que você tem que fazer o turnaround no negócio te toma tempo de projeto.

Sequoia: Acho que é muito natural a questão da consolidação não só na logística mas em tudo que tiver ativo, que tiver ociosidade. Se você olhar na crise do Lehman Brothers, grandes companhias surgiram de fusões de empresas que precisaram se juntar por questões financeiras. Agora, tem muita empresa pequena que não é organizada, então você não tem tantos cases bons para uma consolidação, principalmente no nosso caso de empresa S.A., auditada, com um nível de compliance e governança elevado. A gente é um consolidador do mercado, mas seguimos fiéis à nossa tese e a gente olha sempre empresas boas voltadas para o consumo e para o abastecimento, com operações de outbond. Tem que fazer algum sentido, de malha, de produto, estratégico. Para dar certo não dá para comprar balanço. E como foi dito, o turnaround de uma companhia de transporte no Brasil toma muito tempo, toma muito dinheiro e nem sempre você é bem sucedido. A gente tem que olhar com muito cuidado. 

ABC: Como vocês veem a verticalização?

Sequoia: Acho que é um movimento natural de qualquer indústria e não vai ser diferente no varejo e no marketplace voltado para o e-commerce. Vai ter indústria hoje olhando a verticalização como oportunidade de redução de custo, assim como vai ter empresa vendendo operação e fazendo spin off para ficar com o balanço um pouco mais leve, acho que não tem uma direção. Todo mundo olha para a Amazon. Ela tem uma operação própria muito forte lá fora, mas no Brasil acho que talvez só faça sentido pra eles nas grandes capitais. Quando você vai para o interior é muito difícil ter essa mesma estratégia dos EUA por conta do desbalanceamento de fluxo.

ABC: Quais as oportunidades e desafios se tivermos uma migração de pessoas para regiões menos adensadas?

BBM: O Brasil tem um fenômeno muito interessante, com o aéreo em determinadas condições muito custoso, e os correios com certa limitação de carga e produto. O LTL (LessThanTruckload), que é o fracionado, ele é muito importante no Brasil, atende todo o interior e consegue atender a um custo de certa forma competitivo. Se essa tendência acontecer, reforça ainda mais o setor de fracionado no brasil, possibilita que esse setor cresça e até decairiam os custos médios. 

Sequoia: Concordo. Torço muito para que a teoria esteja correta. Para nós seria ótimo uma maior interiorização da população e das encomendas porque facilita a logística. Quanto mais volume melhor, vai viabilizar ainda um serviço mais eficiente para essa região. E metrópole é sempre complexo em relação a segurança, trânsito. Tudo é mais difícil.

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