Radar da Economia: As mudanças nas projeções para 2020

No Radar da Economia “A consolidação das projeções para 2020”, destacamos a frase do famoso jogador de beisebol, Yogi Berra: “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”. O primeiro mês do ano chegou e lembrou o quanto essa sentença é verdadeira.

Por definição, eventos aleatórios são aqueles que apresentam resultados imprevisíveis. Portanto, são difíceis de antecipar. Durante o mês de janeiro, dois eventos desse tipo aconteceram: a morte do general iraniano Qasem Soleimani e o surto de um novo coronavírus na China.

Neste Radar da Economia, vamos tentar entender um pouco mais sobre o recente “cisne negro” da economia mundial. Essa teoria foi elaborada por Nassim Taleb. Ele usou como exemplo a descoberta desse animal na Austrália para indicar que eventos inesperados podem mudar a concepção das pessoas sobre conceitos anteriores.

A partir de agora, vamos ver qual impacto isso pode ter nas nossas projeções, principalmente, no que se refere à reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) da primeira semana de fevereiro. Que tal saber mais?

Os resultados do primeiro mês do ano

O início de 2020 foi uma lição de como a frase de Berra pode ser verdadeira — e isso não é um exagero. Com o preço do petróleo como referência, observamos que o pico foi no dia 6 de janeiro, quando chegou a 68,91 dólares. Esse valor alcançou o maior resultado no momento da morte do general iraniano.

Por sua vez, o preço do dia 30 de janeiro fechou em 58,29 dólares. Com o medo do coronavírus, a variação foi de quase 20% em 25 dias. De toda forma, ambos os eventos podem ser classificados como choques, porém, de naturezas diversas.

O primeiro foi um choque de oferta, porque o medo estava relacionado à possível redução do fornecimento de petróleo a partir da escalada nas tensões entre Estados Unidos e China. O último pode representar uma redução da movimentação de bens e pessoas ao redor do mundo. Com isso, há diminuição da demanda e, por consequência, o crescimento mundial.

Assim, em menos de 30 dias, tivemos dois eventos aleatórios que representam choques em direções opostas, mas com algo em comum: o aumento da aversão ao risco. O mercado financeiro só existe porque há a possibilidade de arbitragem e essa depende das incertezas.

Portanto, a questão não é a indefinição, mas seu tamanho, que está diretamente associado à volatilidade — esse é um grande problema. Aqui, é necessário considerar o coronavírus.

É provável que, no final da história, vejamos esse episódio como mais um choque sobre a economia mundial, no qual os preços dos ativos variam muito. No entanto, na média, não saem do lugar. Entretanto, até chegarmos ao final, ainda devemos ter muita emoção. Por isso, é importante saber o que acontece nesse momento.

Os resultados do coronavírus

O vírus que assusta o mundo é da classe chamada coronavírus. Por enquanto, não tem um “apelido”, apenas o nome técnico: 2019-NCov. Outras duas epidemias dessa mesma categoria já foram observadas nos últimos anos:

  • Middle East Respiratory Syndrome (MERS);
  • Severe Acute Respiratory Syndrome (SARS).

Por parecer mais com o SARS, tanto em termos geográficos quanto em características de contágio, os infectologistas e, por consequência, os mercados têm usado o último como padrão de comparação para tentar prever como o 2019-NCov pode evoluir.

O SARS começou no início de dezembro de 2002, também na China. Foi contido, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em julho de 2003. O pico da tendência de contaminação ocorreu em torno de 10 semanas após o começo do contágio.

Sua taxa de transmissão foi de 3, ou seja, cada pessoa infectada passava a doença, em média, para outras 3. Por sua vez, o índice de mortalidade chegou a 9%. Em comparação com o que sabemos do 2019-NCov, esse é menos letal e tem um percentual de mortes por volta de 2%. A taxa de transmissão é similar à do SARS.

Portanto, parece razoável comparar as duas síndromes e, se ela estiver correta, estamos próximos do momento em que o número de novas notificações de novos casos vai começar a cair. Essa notícia é importante, porque é nesse momento que os mercados tendem a se acalmar.

Dados do coronavírus

O crescimento da taxa de notificações, pelo que sabemos até o final do mês, foi significativo: passou de 250 casos por dia na penúltima semana de janeiro para 1.300 na última. Se o padrão da SARS for verificado, o declínio desses números deverá acontecer em aproximadamente duas semanas.

Esse pode ser um bom indicador para antecipar quando o mercado vai parar de acompanhar esse problema e procurar outro. Voltando para 2003, o início da queda do Standard & Poor’s (S&P) aconteceu ao redor de 15 de janeiro, enquanto o nível mais baixo foi o de 11 de março. A partir disso, o índice começou a se recuperar e chegou ao patamar do começo em maio.

Entretanto, é impossível atentar apenas à questão do contágio para saber até onde o mercado pode precificar problemas e, principalmente, qual o impacto disso na economia mundial. Aqui, talvez esteja a grande dúvida, uma vez que a comparação com a SARS pode ser errada por dois motivos.

O primeiro é o momento do ciclo econômico em que o mundo estava. Segundo os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), após crescer 2,4% em 2001, o mundo havia acelerado o ritmo para 3% em 2002 e aumentou 3,9% em 2003, mesmo com a ocorrência da SARS.

Agora a situação é diferente. O Produto Interno Bruto (PIB) mundial elevou apenas 2,9% em 2019, depois de uma alta de 3,6% em 2018. Ou seja, ao contrário da época da SARS, quando havia uma certa “gordura” em termos de perda de dinamismo na economia mundial, hoje não há.

O segundo problema é a atual participação da China na economia mundial diante de 2002. Essa questão é importante, porque tanto no caso da SARS quanto agora no 2019-NCov, esse foi o país mais afetado. Enquanto em 2002 a China representava apenas 4,3% do PIB mundial, atualmente, essa participação alcança 16,3%.

No entanto, isso poderia ser minimizado, caso o país fosse relativamente fechado para o comércio internacional. Obviamente, esse não é o caso da China, que viu sua participação mundial crescer de 3,9% para 8,1% de 2002 a 2019.

Dessa forma, a cada 1 ponto percentual de queda no PIB chinês, o crescimento mundial é reduzido em 0,2 ponto percentual, enquanto em 2003 esse impacto seria de 0,04 ponto percentual. Por enquanto, ninguém trabalha com dados tão catastróficos.

As principais casas projetam que o principal impacto acontecerá no 1º trimestre com o PIB chinês passando de níveis ao redor de 6% no final de 2019 para algo próximo de 4,5%, mas se recuperando posteriormente para fechar o ano em torno de 5,8%.

Por outro lado, nunca se viu a paralisação forçada de uma economia, como o que ocorre nesse momento na China. Afinal, ninguém lembra de algum episódio de “fechamento” de uma cidade de 11 milhões de habitantes sem haver um conflito armado.

Os potenciais efeitos disso tudo podem ser resumidos no comentário da agência de classificação de crédito S&P: “O vírus pode atingir negativamente as atividades de viagem e consumo. Em um cenário de infecção generalizada, isso poderia enfraquecer materialmente o crescimento econômico e as situações fiscais dos governos da Ásia”.

A reunião do COPOM

A reunião do COPOM do dia 5 de fevereiro de 2020 e os impactos do que acontece no exterior precisam ser analisados para verificar o resultado. Inicialmente, a nossa projeção era de que os juros seriam mantidos em 4,5% ao ano. A justificativa apareceu no Radar da Economia nas projeções para 2020:

Isso sustenta a nossa projeção de que os juros ficarão estáveis em 4,5% ao ano durante 2020 e baseia mais nossa previsão de crescimento de 1,1% no quarto trimestre de 2019 e de 2,5% para o próximo. Portanto, o que poderá fazer com que os juros sejam reduzidos ainda mais no início de 2020, ou elevados antes de 2021, será alguma alteração nas projeções de elevação, muito mais do que choques na inflação.

Assim, se o crescimento mundial tem viés de baixa, também precisamos precificar essa tendência. Em outras palavras, se a justificativa para a manutenção dos juros era um crescimento de 2,5% para 2020 com viés de alta e agora temos de baixa para essa projeção, faz sentido esperar que a Selic seja reduzida em 4,25% ao ano — 0,25 ponto percentual.

Outra questão relevante para justificar a mudança de posição referente à próxima reunião é o modus operandi da diretoria atual do Banco Central (BCB). Em situações anteriores, a entidade ajustou seu discurso para adequar o preço. Em outras, manteve o enunciado e validou os valores.

Essas posições foram adotadas nas mesmas condições atuais, ou seja, havia dúvidas com relação ao resultado e os preços no mercado indicavam divergência das projeções dos economistas.

Nessa véspera da reunião, os mercados indicam uma probabilidade de 75% de um corte de 0,25 ponto percentual e o presidente do BCB, Roberto Campos Neto, não ajustou seu discurso para adequar os preços. Assim, existe a sinalização de que ele considera o mercado correto. Portanto, a projeção para os indicadores é de:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,7% em 2020 e 3,75% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,37 em 2021;
  • taxa Selic: 4,5% em 2019, 4,25% em 2020 e 5,5% em 2021;
  • PIB: 1,2% em 2019 e 2,5% em 2020 e 2021.

Começamos o Radar da Economia usando a frase de Yogi Berra sobre a dificuldade de fazer projeções. Com isso, abrimos espaço para fecharmos o texto com a sentença de John Maynard Keynes sobre o impacto da volatilidade dos fatos sobre as mudanças nas projeções: “sempre que a realidade muda, minha convicção acadêmica muda também”. Considerando Keynes um dos maiores economistas da história, parece que estamos bem “justificados”.

O que acha das mudanças nas projeções e a análise feita nesta coluna? Deixe seu comentário!

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