Radar da Economia: Copom deve elevar a Selic para 11,75% em março

Nos dias 15 e 16 de março, acontecerá uma nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Para a decisão do encontro, nossa expectativa é de elevação da taxa básica de juros em 100 pontos-base (bps). Assim, a Selic chegará a 11,75%.

Além disso, o Copom deve indicar a fase final do ciclo de ajuste monetário, que ainda pode se alongar por uma ou mais reuniões. No entanto, ainda em ritmo abaixo do implementado até fevereiro de 2022. Isso por conta da contração monetária efetuada até agora.

Para entender melhor, neste Radar da Economia, abordamos a política monetária doméstica. Nossa base são as leituras mais recentes de inflação e perspectivas. Saiba mais.

Projeções para a reunião do Copom

A contração monetária que ocorre até agora é derivada da piora na dinâmica da inflação — tanto em relação aos dados correntes quanto às projeções do Banco Central (BC) e as expectativas do mercado. Porém, isso tem o potencial de provocar maior desancoragem.

Em relação ao comunicado, em nossa visão, o colegiado deve manter o plural quando se referir à sua estratégia de ação. Ou seja, deverá utilizar “próximos passos” ou “passos futuros”.

Caso implementada, essa sinalização possivelmente dará margem para encerrar o ciclo em junho ou até adiante. Ao mesmo tempo, o BC ganhará tempo para monitorar o grau de perenidade dos choques inflacionários atuais.

Por outro lado, seu comprometimento explícito com ajustes futuros de “menor magnitude” também pode ficar em aberto. Isso porque é mais dependente dos dados.

Em um ambiente em que a precisão dos modelos está sendo frequentemente colocada à prova, a leitura qualitativa do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) corrente tem um peso maior. No entanto, seguiu desfavorável em fevereiro.

Status da inflação corrente

O IPCA registrou alta de 1,01% em fevereiro. Esse resultado é uma aceleração perante o 0,54% verificado no mês anterior. Além disso, ficou acima da nossa expectativa, que era de 0,97%, e do consenso de mercado, que estava em 0,95% na Bloomberg.

Sua aceleração na margem foi resultado, principalmente, da alta na categoria de serviços, com destaque para os reajustes sazonais das mensalidades escolares. Outros itens que tiveram variação acima da observada em janeiro são alimentação no domicílio e preços administrados.

Enquanto isso, bens industriais registaram desaceleração, ainda que com manutenção de taxas elevadas. Isso faz com que, em termos qualitativos, o avanço do índice tenha sido acompanhado por crescimento na média dos núcleos, que foram de 0,87% para 1%.

Ainda houve aumento da difusão, de 73,2% para 74,8%. Todos esses aspectos atestam a continuidade de um quadro inflacionário estrutural preocupante, em nossa avaliação.

IPCA de março/22

O resultado da inflação em março deve ter uma alta de 0,98%, já com a incorporação dos reajustes de combustíveis realizados na semana terminada em 11 de março. Para abril, a expectativa é de 0,92% em nossa avaliação.

Devido à nova conjuntura macroeconômica, revisamos nossa projeção para o IPCA de 2022 de 5,7% para 6,5%. Isso porque há pressões mais expressivas em preços de commodities energéticas, agrícolas e metálicas, com geração de vetores adicionais de alta em administrados, alimentos e bens industriais.

No acumulado de 12 meses até fevereiro de 2022, o IPCA já chega a 10,54%. Porém, seu pico deve ser observado apenas em abril, quando deve atingir 11,37%, de acordo com nosso cenário básico.

Para 2023, projetamos 3,5% para o IPCA. Essa taxa é superior à meta central de 3,25% perseguida pela autoridade monetária. Ainda assim, é uma trajetória de expressiva desaceleração inflacionária.

Ela ainda acrescenta uma hipótese importante sobre a política monetária doméstica: a de que os juros prosseguirão em níveis restritivos por um período prolongado. A seguir, abordaremos essas questões.

Perspectivas para a política monetária brasileira

O quadro externo foi o principal game changer desde a última reunião do Copom, em fevereiro. Isso é evidente. Afinal, houve a eclosão da guerra na Ucrânia e seus efeitos líquidos na economia mundial: mais inflação e menos Produto Interno Bruto (PIB).

Em paralelo, o quadro inflacionário doméstico continua desfavorável, tanto sob a ótica da desancoragem de expectativas quanto nas leituras correntes do IPCA. Nesse ambiente, o recente choque de preços de commodities tende a se materializar e a afetar de maneira adversa a oferta global de matérias-primas, como petróleo, gases nobres, metais e grãos.

Mesmo com a valorização do real, entendemos que há espaço para pioras adicionais nas projeções para o IPCA em 2022 e 2023, tanto em relação aos números do BC quanto do boletim Focus.

Um impacto ao redor de 0,7 ponto percentual (p.p.) no IPCA de 2022 e alta de 0,2 p.p. em 2023 é a sugestão de nossas simulações mais recentes. As projeções do BC tendem a subir para 6,1% em 2022 e 3,4% em 2023, vindo de 5,4% e 3,2%, respectivamente.

Além disso, no quadro externo, o FED (banco central dos Estados Unidos) segue seu plano de aperto monetário. Por sua vez, a China está rumo ao soft landing.

Tudo isso implica condições financeiras mais apertadas para os países emergentes. Quanto à incerteza em torno da sustentabilidade das nossas contas públicas, ela permanece elevada em que pesem os melhores dados na margem.

Ciclo de ajuste da taxa básica de juros

Nesse contexto, entendemos que o ciclo de ajuste da taxa Selic tende a continuar, ainda que em ritmo inferior ao observado em fevereiro. Também está cada vez mais próximo do seu encerramento.

Um alongamento marginal das altas de juros em maio e (até) junho também nos parece razoável por dois motivos. Um devido à piora projetada para o IPCA em 2023. O outro, pela resposta padrão da política monetária requerida.

Assim julgamos que o Copom elevará a taxa básica em 100 bps em março e trará inovações de teor mais hawkish em seu comunicado, mesmo apontando para o fim de ciclo. Em especial, o colegiado deve manter o plural quando se referir à estratégia monetária.

Uma vez implementada, essa sinalização dará margem para encerrar o ciclo em junho ou mais para frente — muito por conta do choque cumulativo de juros já feito. Ao mesmo tempo, o BC ganhará tempo para monitorar o grau de perenidade dos choques inflacionários atuais.

Nesse sentido, o comprometimento do BC com ajustes futuros de “menor magnitude” também pode ficar em aberto, já que depende mais dos dados. Em um ambiente em que a precisão dos modelos está sendo frequentemente posta à prova, a leitura qualitativa do IPCA corrente tem mais peso, mesmo tendo obtido resultado desfavorável em fevereiro.

Em princípio, para a reunião do Copom de maio, esperamos aumento de 50 bps na taxa Selic, chegando a 12,25%. Esse é o nível terminal de juros que já esperávamos anteriormente.

Porém, pode ser revisado para cima, sobretudo se o statement vier ainda mais contundente. Isso ao, eventualmente, abandonar a menção do encerramento do ciclo ou, então, abrir a possibilidade de ajustes de magnitude igual ou superior à praticada no mês.

Nesse caso, avaliamos que a Selic terminal ficaria mais próxima de 13%. Veja como ficam esse e outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 6,5% em 2022 e 3,5% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11% em 2022 e 5% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,57 em 2022 e R$ 5,29 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 12,25% em 2022 e 7,5% em 2023;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,5% em 2022 e 1,5% em 2023.

O embasamento desse “ajuste fino” também parece existir atualmente. Sobretudo, considerando a piora abrupta na dinâmica da inflação corrente e das projeções oficiais, além do maior risco de desancoragem em 2023. Em ambos os cenários, 12,25% ou 13%, ainda assim, o fato é que o juro real doméstico seguirá suficientemente restritivo ao longo de 2022 e de 2023.

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