Radar da Economia: Selic deve chegar a 13,25% ainda em 2022

Na reunião de março de 2022, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, pela 9.ª ocasião consecutiva, subir a taxa básica de juros. A alta implementada, de 100 pontos-base (bps), veio alinhada à nossa expectativa, conforme o Radar da Economia “Copom deve elevar a Selic para 11,75% em março”.

Além disso, o consenso de mercado também tinha essa previsão. Com isso, a taxa básica de juros realmente foi para 11,75% ao ano. No entanto, esse ritmo de ajuste foi menor do que o praticado nas três deliberações anteriores, que foram de 150 bps.

A própria autoridade já havia sinalizado isso em fevereiro. Assim, desde a mínima histórica de 2%, durante a pandemia, a taxa Selic já subiu 975 bps. Isso mantém o Banco Central do Brasil (BC) na vanguarda do estreitamento monetário global, especialmente perante os seus pares emergentes (ex-Rússia) e desenvolvidos.

Usamos este Radar da Economia para explicar melhor esse cenário. Acompanhe.

A decisão do Copom

O contexto global proporcionou mudanças relevantes na metodologia de decisão do BC em março de 2022. Isso devido à substancial piora do cenário e à maior volatilidade associada a questões geopolíticas.

As condições financeiras mundiais experimentaram aperto significativo em paralelo à ampliação da incerteza econômica após o início do conflito russo-ucraniano. Sobre esse evento, o BC ressaltou que se trata de um choque adicional de oferta.

Com isso, é capaz de trazer mais pressões altistas sobre os preços em um contexto de inflação global já alta. Inclusive, diferentes instituições internacionais também apresentaram diagnósticos semelhantes sobre a guerra.

Como resultado, além do “cenário de referência” — antigo “cenário básico” — para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) projetado, a autoridade simulou também um “cenário alternativo”. Nele, atribuiu maior probabilidade de materialização.

Talvez essa discreta mudança metodológica explique a relativa demora na publicação do comunicado da reunião de março. Justificável. Aliás, essa modificação foi feita precisamente para mapear o balanço de riscos inflacionários com mais precisão.

De qualquer forma, ambos os cenários simulados chegam à mesma conclusão quanto ao direcionamento futuro para a política monetária. Ou seja, com a taxa Selic subindo para 12,75%, o IPCA projetado tende a ficar ao redor da meta (3,25%) em 2023.

Inclusive, este ano-calendário já é o de maior peso nas decisões do Comitê. Além disso, ganhará ainda mais importância a partir da próxima reunião, que ocorrerá em maio.

IPCA projetado

As simulações oficiais utilizaram o consenso para a Selic no relatório Focus de 11 de março. Ele previa ajustes seguidos de 100 bps em março, 75 bps em maio e 25 bps em junho. Com isso, a taxa básica de juros será levada para 12,75% e permanecerá assim até o final de 2022.

Por sua vez, para 2023, o consenso apontava Selic em 8,75%, em dezembro de 2023. Nesse caso, as reduções paulatinas começariam em fevereiro de 2023, com queda de 25 bps. Além disso, para a taxa de câmbio USDBRL, o BC supôs o patamar inicial de R$ 5,05 em suas simulações. Ainda seguiu a Paridade do Poder de Compra (PPC) daí em diante.

Dadas essas hipóteses, foram publicadas duas curvas para o IPCA projetado. Elas são baseadas em diferentes trajetórias para o preço do petróleo. No “cenário de referência”, a inflação oficial é projetada em 7,1% em 2022 e 3,4% em 2023. Isso com o barril do Brent partindo de 120 dólares, aproximadamente, e se valorizando em 2% ao ano.

A outra curva, do “cenário alternativo”, aponta um IPCA de 6,3% em 2022 e 3,1% em 2023. Nesse contexto, o Brent segue a sua estrutura de preços futuros. Assim, termina 2022 em 100 dólares e cresce 2% ao ano daí para frente.

Em ambos os casos, o IPCA projetado para 2022 supera aquele visto na reunião de fevereiro, que ficava em 5,4%, e o teto da meta inflacionária anual, de 5%. Isso devido à dimensão dos choques incorporados.

Por sua vez, o número para 2023 fica pouco acima do alvo central, que é de 3,25% no “cenário de referência”, que considera 3,4%. No “cenário alternativo”, fica em 3,1%, abaixo disso. É precisamente nesse contexto, com projeções mais brandas para o IPCA 2023, que o BC atribuiu maior peso e julgou-o como o mais apropriado.

A razão disso não foi explicada. Aliás, essa é uma das incógnitas a ser detalhada na ata da reunião, assim como outros sinais díspares do statement. Ainda assim, nessa linha de argumentação, a autoridade confirmou também o seu “plano de voo” futuro.

Perspectivas

Isso porque sinalizou um novo ajuste de 100 bps em maio e a manutenção da taxa básica de juros em 12,75% daí em diante. Ou seja, o BC concentrou (front loading) os ajustes residuais de juros previstos no Focus para maio e junho.

Ao mesmo tempo, deixou explícito que, na sua visão, a Selic em 12,75% é suficiente para promover a convergência do IPCA à trajetória das metas, conforme descrevemos acima. Porém, avaliamos que esse compromisso da autoridade com um último aperto de juros, em maio, não está escrito em pedra.

O próprio BC admitiu que pretende avaliar com serenidade a duração e a magnitude dos atuais choques de preços ocasionais pelo conflito militar na Ucrânia. Esse termo foi cunhado e usado na gestão anterior do BC, sob liderança de Ilan Goldfajn.

Caso o cenário evolua de maneira desfavorável — por exemplo, com o preço do petróleo acima do intervalo simulado —, a estratégia de ajuste monetário poderá ser revisitada. Isso sempre com o foco no cumprimento estrito da meta inflacionária para 2023.

A sinalização do Copom age também no sentido de trazer mais flexibilidade à fase terminal do ciclo da alta de juros. A rigor, será levado para nível ainda mais contracionista adiante. Assim, inibirá estritamente os efeitos de segunda ordem do choque, que serão manifestados nas expectativas inflacionárias em 2023, principalmente.

Em princípio, o Focus de 11 de março mostra um IPCA 2023 de 3,7% na mediana e 3,72% nos últimos 5 dias. Quanto ao nosso cenário básico, trabalhamos com o IPCA encerrado 2022 em 6,5% e recuando para 3,5% em 2023.

Ambas as taxas estão acima das projetadas pelo BC em seu cenário mais provável. Projetamos a inflação corrente em 12 meses com continuidade de elevação no decorrer do 2.º trimestre de 2022. Apenas de agosto em diante tende a ceder com mais intensidade. Assim, consolidará a trajetória de desinflação efetiva almejada pela autoridade monetária.

Quanto às expectativas Focus, na atual conjuntura, apresentarão correlações ainda maiores com os preços do petróleo, cujo viés nos parece de alta. A correspondência também deve se elevar com os movimentos da curva de juros doméstica, vértices mais curtos, principalmente.

Desde o dia 16, a cotação do Brent passou de 98 dólares para 108 dólares no dia 18. Assim, situa-se na “zona de conforto” das simulações oficiais. No entanto, acima da hipótese do “cenário alternativo”.

Dessa forma, antevemos um cenário em que o quadro para a inflação doméstica demora a melhorar. Nesse sentido, o fine tuning da taxa Selic nessa fase do ciclo monetário, alinhado à sinalização do BC, nos parece compatível com um ajuste adicional de 50 bps em junho. Ou seja, ficará em 13,25%.

Esse nível deve ser mantido até o 2.º trimestre de 2023, em nossa visão. Para 2023, revisamos nossa projeção para os juros terminais, de 7,5% para 8,75%. Portanto, serão dois anos com juros reais em patamares elevados. A contrapartida será uma taxa de câmbio mais apreciada, ao redor de R$ 5,37 em 2022 e R$ 5,23 em 2023.

Veja como ficam as projeções para os outros indicadores econômicos, assim como seus dados consolidados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 6,5% em 2022, 3,5% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11,9% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,37 em 2022, R$ 5,23 em 2023 e R$ 5,10 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,3% em 2022, 1,4% em 2023 e 1,7% em 2024.

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