Radar da Economia: IPCA-15 sobe 0,95% em março e média da inflação continua pressionada

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) registrou alta de 0,95% em março. Com isso, desacelerou perante a taxa de 0,99% observada em fevereiro. Esse resultado ficou acima da nossa projeção, que era de 0,89%. Também foi superior ao consenso de mercado, que considerava medianas de 0,85% na Bloomberg e 0,86% no Broadcast.

A inflação mensal foi marcada pelas maiores altas em preços administrados, alimentação em domicílio e bens industriais. Enquanto isso, a variação dos preços de serviços mostrou desaceleração, tendo sido puxada pela dissipação dos efeitos dos reajustes sazonais de mensalidades escolares.

Neste Radar da Economia, vamos explicar melhor o contexto em que esses dados nos apresentam para o futuro. Confira.

Dados do IPCA-15

Os dados qualitativos do índice mensal mostram que a média dos núcleos desacelerou na margem, de forma alinhada ao que era esperado. No entanto, ainda segue com taxas muito elevadas no mês anualizado e em 12 meses.

O indicador de difusão avançou entre fevereiro e março e sinalizou altas disseminadas na ponta. Assim, o quadro inflacionário corrente segue desfavorável, com nossa percepção e sob o ponto de vista do Banco Central (BC). Isso ficou expresso na comunicação oficial recente.

Nesse sentido, entendemos que as expectativas inflacionárias para 2022 e 2023 tendem a seguir em alta. Da mesma forma, as projeções oficiais do BC. Em nossa percepção, isso demandará um fine tuning adicional da taxa básica de juros nesse final de ciclo.

O objetivo será combater o efeito secundário dos choques hoje observados na economia. Tratamos disso no Radar da Economia “Selic deve chegar a 13,25% ainda em 2022”. Desse modo, confirmamos nosso call de 13,25% para a taxa Selic terminal em junho. Esse nível tende a permanecer até o segundo trimestre de 2023, no mínimo.

A partir de agora, vamos apresentar os detalhes por subgrupos. Afinal, há vários deles a observar. Veja.

Alimentação no domicílio

O subgrupo alimentação no domicílio acelerou no IPCA-15 de março. Foi de 1,49% para 2,51% no mês e foi puxado por produtos in natura, como:

  • tomate, que passou de 0,2% para 15,46%;
  • frutas, que foram de 1,75% para 6,34%;
  • leite longa vida, que cresceu de 1,04% para 3,41%.

Com isso, em 12 meses, o subgrupo avançou de 9,5% para 12,3% entre fevereiro e março.

Preços administrados

Os preços administrados passaram de 0,09% para 0,65% no mesmo período. Os destaques foram a energia elétrica, que aumentou de -0,82% para 0,37%, e a gasolina, que foi de 0,15% para 0,83%. Em 12 meses, esse subgrupo cedeu de 16,4% para 14,1%.

Bens industriais

A categoria foi de 1,17% para 1,26%. O destaque foi o perfume, que passou de -1,84% para 12,84%. Com isso, gerou a maior contribuição de alta no índice cheio, com alta de 12 pontos-base (bps). Na métrica em 12 meses, os bens industriais subiram de 13% para 13,3%.

Serviços

A inflação mensal de serviços desacelerou de 1,36% para 0,31%. Os destaques foram cursos regulares, que passaram de 6,69% para 0%, e passagem aérea, que foi de -5,05% para -7,55%. Portanto, frente ao mesmo mês do ano anterior, a variação do grupo foi de 6% para 6,2%. Enquanto isso, o IPCA-15 headline acelerou de 10,76% para 10,79%.

Núcleos de inflação

Em relação aos núcleos de inflação, menos afetados pelos componentes voláteis do IPCA-15, sua média continuou pressionada em março. Apesar disso, desacelerou de 0,99% para 0,83% na margem.

Seu acumulado em 12 meses subiu de 8,3% para 8,8%. Por sua vez, o índice de difusão aumentou de 69,48% para 75,48% entre fevereiro e março. Esse nível ficou bastante acima da média dos últimos cinco anos para o mês, que está em 57,62%.

O núcleo subjacente de serviços desacelerou de 0,89% para 0,58% na margem. Ele exclui os subitens relacionados a:

  • turismo;
  • serviços domésticos;
  • cursos;
  • comunicação.

Apesar disso, o núcleo subjacente de serviços seguiu em alta no período de 12 meses. Isso porque passou de 6,8% para 7%.

Projeções

Com base nas inovações trazidas pelo IPCA-15 de março, revisamos nossa projeção para o IPCA fechado do mês. Foi de 1,19% para 1,35%. Para abril, trabalhamos com 1,01%. Em ambos os casos, pesou maior coeficiente de repasse, detectado nas bombas, dos recentes reajustes de combustíveis na refinaria.

Para maio, temos -0,19%, supondo que a bandeira de escassez hídrica se torne amarela no mês. Essa é uma hipótese conservadora. Caso a bandeira seja verde, o IPCA cederia em 0,34% em maio.

Considerando essas informações, alteramos também nossa projeção para o IPCA de 2022 de 6,5% para 7%. Para 2023, deve sair de 3,5% para 3,6%. O motivo é a maior inércia vinda de 2022.

Avaliamos que essas revisões para cima tendem a ser observadas também nas expectativas Focus e nas projeções oficiais do BC. Isso porque elas apontavam para 6,3% em 2022 e 3,1% em 2023, no cenário mais provável.

Os dados correntes seguem mostrando pressões importantes nos núcleos, itens industriais e combustíveis. É em cima desse quadro que o impacto primário dos choques de commodities decorrentes do conflito na Ucrânia ainda não se materializou por completo.

Vale lembrar que os índices correntes de inflação são altamente correlacionados com as expectativas. Estimamos esse impacto primário em até 1,1 ponto percentual (p.p.), conforme destacamos no Radar da Economia “Cenários externo e interno geram pressões inflacionárias no Brasil”.

Por sua vez, seu efeito secundário pode ser aproximado pela dinâmica das expectativas de médio prazo, também em alta. Portanto, são dois vetores que indicam maior inflação adiante. Isso requer uma resposta mais conservadora por parte do BC, acima até do que suas simulações oficiais mais recentes sugerem.

Assim, em nossa percepção, um fine tuning adicional da taxa básica de juros nesse final de ciclo nos parece bastante provável. Confirmamos nosso call de 13,25% para a Selic terminal em junho, sendo que isso deve permanecer até o 2.º trimestre de 2023, no mínimo. Veja as expectativas dos outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 7% em 2022, 3,6% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11,9% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,37% em 2022, R$ 5,23 em 2023 e R$ 5,10 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,3% em 2022, 1,4% em 2023 e 1,7% em 2024.

O Banco ABC não interpreta o conteúdo desta publicação como consultoria jurídica, contábil, fiscal ou de investimento ou como uma recomendação, portanto, nenhum investimento, desinvestimento ou outras ações ou decisões financeiras devem se basear apenas nas informações contidas nesta publicação.

O Banco ABC não faz qualquer representação ou garantia, expressa ou implícita, quanto à exatidão, plenitude e confiabilidade das informações, estimativas ou projeções quanto a eventos que possam ocorrer no futuro. Não há garantia de que quaisquer dessas estimativas ou projeções serão alcançadas. Nada aqui contido é, ou deve ser entendido como, uma promessa ou representação do passado ou do futuro.

O Banco ABC se exonera, expressamente, de toda e qualquer responsabilidade relacionada ou resultante da utilização desta publicação.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.