Radar da Economia: Powell admite postura hawkish até 2023

Na coletiva de imprensa após sua decisão monetária de 16 de março, o presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Jerome Powell, deixou claramente aberta a possibilidade de acelerar o ritmo de alta de juros. Antes, é preciso observar que a instituição elevou a FED Funds Rate (FFR) em 25 pontos-base (bps).

Assim, ela subiu para o intervalo entre 0,25% e 0,5% ao ano. Essa foi a primeira alta de juros desde 2018. O FED ainda sinalizou seis ajustes adicionais ao longo de 2022. Com isso, a FFR seria conduzida para o range 1,75%/2% em dezembro de 2022.

Neste Radar da Economia, vamos trazer mais detalhes desse cenário. Acompanhe.

Contexto dos EUA

No atual ambiente de persistência inflacionária elevada, o FED confirmou o compromisso de que fará o necessário para controlar as pressões sobre os preços, sejam decorrentes de choques de oferta, sejam derivadas da demanda. Isso porque a perspectiva é a de que os índices prossigam acima da meta de 2% por algum tempo.

Esse contexto pode impactar a formação de expectativas. Inclusive, em duas ocasiões em março, Powell afirmou que está preparado para implementar um movimento maior que os 25 bps efetivados em meados de março.

De maneira intencional, foi acompanhado verbalmente por outros membros do FED, tanto votantes quanto não votantes. Assim, foi colocado um ajuste de 50 bps na mesa para a próxima reunião, entre 3 e 4 de maio.

Posicionamento favorável de outros membros

Dentre os demais FED speakers que asseguraram que 50 bps é uma opção — desde que confirmada por dados —, destacamos o presidente da unidade de St. Louis, James Bullard. Ele deseja levar os juros básicos acima de 3% ainda em 2022.

Além dele, outro destaque foi a presidente do FED de Cleveland, Loretta Mester. Ela está inclinada a deixar o índice em 2,5%. Por sua vez, o head do FED de Richmond, Thomas Berkin, declarou estar aberto a um movimento mais forte em maio devido à capacidade de a economia do país aguentar o choque monetário.

Sua expectativa quanto aos juros nominais de equilíbrio, segundo citado, é por volta de 2,4%. Outros membros seguiram a mesma linha. Eles são:

  • Patrick Harker, da Filadélfia;
  • Christopher Walker, diretor do FED;
  • Esther George, do Kansas City FED.

Eles estão abertos a uma alta de 50 bps. Em especial, George julga ser apropriado mover a postura monetária de forma rápida para o neutro, em 2,5%. Desse modo, é possível monitorar seu impacto na economia e nas condições financeiras.

Posicionamento contrário

Por sua vez, Raphael Bostic, do FED de Atlanta, mostrou-se a favor de movimentos menos agressivos por ora. Para ele, a alta deve ser de 25 bps devido à atual incerteza geopolítica, cujo impacto inflacionário é lido por ele como transitório. Tratamos disso no Radar da Economia “Cenários externo e interno geram pressões inflacionárias no Brasil”.

Porém, Bostic admitiu que pode ser convencido do contrário pelos dados. O presidente do FED de Chicago, Charles Evans, confessou que pode ser apropriado “ir um pouco mais rápido” do que o previsto em março, caso as circunstâncias indiquem essa necessidade.

Em discurso na Prairie State College Foundation, ele também afirmou que sua trajetória para a FFR está alinhada à mediana do Resumo Trimestral de Projeções Econômicas (SEP). Ou seja, engloba sete aumentos de 25 bps na FFR até o final de 2022 e mais três ajustes de 25 bps em 2023.

Assim, seu cenário básico não contempla 50 bps em maio, a princípio. Aqui, é importante reforçar que, em 2022, Evans tem direito a voto nas decisões do Federal Open Market Committee (FOMC). Isso porque houve mudanças recentes no board do banco devido a questões de compliance.

Altas mais agressivas

Ao mesmo tempo, John Williams, do FED de Nova York, não descartou a possibilidade de uma alta mais agressiva, seja em maio, seja em qualquer uma das demais reuniões. No entanto, é uma opção apenas se for apropriado, ou seja, é dependente dos dados.

Ele ressaltou que os movimentos futuros do FED tendem a ser comunicados de forma clara e cuidadosa para evitar “surtos” de volatilidade. De fato, o Banco Central norte-americano está agindo nessa direção ao emitir, de forma conjunta, sinais claros da trajetória de juros que está propenso a adotar adiante.

Inclusive, é um caminho mais intenso do que o sugerido pelos dot plots divulgados em março. Avaliamos que é nessa direção que as autoridades têm conduzido os mercados e os preços de ativos. As expectativas embutidas nas curvas a termo já indicam isso.

A fundamentação dessa postura mais hawkish por parte dos membros do FOMC é evidente. Basta olhar as taxas reais de juros por lá, ex-post ou ex-ante. Com a inflação corrente e as expectativas rodando em ritmo historicamente elevado, as diversas métricas de juro real seguem um tanto estimulativas. Mostramos isso no Radar da Economia “Com inflação em alta, FED anuncia aumento da taxa de juros nos EUA”.

Isso requer uma reação mais rápida por parte do FED, rumo ao território contracionista. Aliás, o presidente do NY FED também ressaltou esse aspecto em suas falas recentes. Entenda melhor no gráfico a seguir.

Inflação

Quanto às leituras correntes da inflação PCE e Core PCE, avaliamos que ainda não trazem conforto para o FOMC. A alta de preços segue em ritmo elevado e é difusa entre as categorias componentes, além de ser superior à meta inflacionária perseguida pela autoridade, que é de 2% na comparação anual.

Com a exclusão de alimentos e energia, o núcleo do índice PCE acelerou para 5,4% em fevereiro na comparação anual. Esse resultado está alinhado ao esperado e reflete aumentos tanto em bens duráveis (11,4%) quanto em serviços (4,6%).

Por sua vez, o headline PCE acelerou para 6,4% na comparação anual. Os preços de energia aumentaram 25,7% na mesma base, enquanto os de alimentos aceleraram para 8%. Em nosso entendimento, nesse contexto inflacionário, o FED provavelmente já estaria com o “dedo no gatilho” para um aumento de 50 bps em março, se não fosse a guerra na Ucrânia.

Assim, julgamos que o quadro inflacionário corrente e prospectivo tem sido o principal direcionador por trás da indicação mais agressiva das autoridades do FED, que agora é quase consensual. Isso mostra mais convicção em movimentos de 50 bps adiante.

Trata-se de um ajuste total de juros mais intenso do que o antevisto nas projeções do FOMC publicadas em março. Em nossa visão, será quase impossível que o board argumente pela redução no ritmo de altas nas duas ou três reuniões seguintes, caso implemente 50 bps em maio.

Essa redução no ritmo somente ganhará consistência com a efetiva melhoria dos dados de inflação projetados e correntes. Assim, seguirá rumo à trajetória esperada pelo FED, passando de 4,1% para 4,3% para o PCE/Core PCE em 2022.

Avaliamos que essa desaceleração tende a ser observada apenas ao longo do segundo semestre. Aqui, outro aspecto importante diz respeito à redução do balanço da autoridade. Isso exercerá impacto negativo sobre as condições financeiras. Em algum grau, substituirá o ajuste via FFR.

Membros do FED da Filadélfia entendem que uma diminuição no volume de ativos da ordem de 3 trilhões de dólares exerce o mesmo impacto econômico que uma alta de 50 bps nos juros básicos. Julgamos que o início desse processo de Quantitative Tightening (QT) ocorrerá no próximo mês de maio. Por sua vez, a mensuração dos seus efeitos ficará mais clara no segundo semestre de 2022.

No Brasil, os indicadores ficam da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 7% em 2022, 3,6% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11,9% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,17 em 2022, R$ 5,04 em 2023 e R$ 4,91 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023, 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,3% em 2022, 1,4% em 2023 e 1,7% em 2024.

Em resumo, a linha de raciocínio ao longo deste Radar da Economia nos induziu a ajustar a nossa expectativa para a política monetária norte-americana. Ela será mais contracionista do que o antevisto, além de mais rápida.

Agora projetamos altas de 50 bps nas reuniões do FOMC de maio, junho, julho e setembro. A partir daí, confirmada a trajetória de menor pressão inflacionária e o impacto do QT, a FFR deve voltar a subir ao ritmo de 25 bps. Assim, encerrará 2022 no range entre 2,75% e 3%.

Ao longo do primeiro semestre de 2023, esse movimento de contração monetária deve prosseguir também ao ritmo de 25 bps. Ao fim desse processo, a FFR será conduzida para 3,5%/3,75%.

Trata-se de um patamar restritivo. Considerando a inflação PCE projetada pela autoridade (2,7% em 2023), os juros reais nos Estados Unidos rodarão em quase 1% ao ano. Com isso, a inflação global (commodities) deve também inflexionar, já que é um movimento típico de mudanças no ciclo econômico global.

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