Radar da Economia: Real apresenta bom desempenho e projeção do dólar diminui para 2022 e 2023

O desempenho do real ao longo de 2022 tem sido notável. Tanto em comparação com moedas pares emergentes quanto em frente às principais divisas globais. Isso porque a apreciação superior a 18% acumulada até agora supera bastante a valorização de:

  • rand sul-africano: 8,8%;
  • peso chileno: 4,4%;
  • peso mexicano: 2,5%.

Esses dados são comparados ao mesmo período. Além disso, também chama a atenção frente à cesta do dólar (DXY). Afinal, essa moeda registrou fortalecimento de 4,3% desde o início de 2022. O resultado foi reflexo da normalização da política monetária nos Estados Unidos conjugada com a maior aversão ao risco provocada pelo conflito na Ucrânia.

Discutimos esse cenário dos EUA no Radar da Economia “Powell admite postura hawkish até 2023″. Aliás, esse evento geopolítico propiciou ganhos nas cotações internacionais de diferentes tipos de commodities — aspecto que tem favorecido as divisas de países exportadores líquidos nesses mercados, inclusive o Brasil.

Para entender o cenário em mais detalhes, discutimos essa perspectiva e os riscos associados neste Radar da Economia. Acompanhe.

Comportamento do real

Muito desse cenário é derivado do que já foi explanado. No entanto, fatores locais também têm sido relevantes para explicar o comportamento do real — sobretudo a postura ciclicamente contracionista por parte do Banco Central (BC).

Isso colabora para ampliar o diferencial de juros (local versus externo) a nosso favor devido à tempestividade do ajuste monetário doméstico. Esse também é um dos drivers da melhora expressiva do fluxo cambial para cá desde o início de 2022, em paralelo ao realinhamento global de portfólios.

Por sua vez, as estatísticas históricas apontam que o real tende a mostrar certa volatilidade e tendência à depreciação durante os ciclos eleitorais. Aos olhos atuais, é provável que observemos movimentos semelhantes no decorrer de 2022.

Assim, considerando os aspectos citados, projetamos R$ 5,11 e R$ 4,95 para a taxa de câmbio ao final de 2022 e 2023, respectivamente.

Conjuntura monetária doméstica

Em março, houve uma surpresa desfavorável vinda da inflação. No mês, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) variou 1,62%. Esse resultado foi bem acima do projetado, que era de 1,36% e contou com um repasse maior dos reajustes de combustíveis implementados na refinaria, mas que foi detectado nas bombas.

Além disso, os alimentos in natura se mostraram mais pressionados do que o esperado. Mais importante do que isso, todas as métricas de núcleo inflacionário surpreenderam de forma negativa em termos qualitativos.

Considerando essas inovações, alteramos novamente nossa projeção para o IPCA de 2022, passando de 7% para 7,3%. Para 2023, mantivemos a taxa de 3,6% antes projetada. Porém, com um evidente viés de alta em função da maior inércia vinda de 2022 e do provável comportamento mais adverso das expectativas.

A esse respeito, avaliamos que novas revisões para cima tendem a ser observadas no Focus e nas projeções oficiais do BC. Antes, elas apontavam para 6,3% e 3,1% em 2022 e 2023, respectivamente, no cenário mais provável.

Vale lembrar que os índices correntes de inflação são altamente correlacionados aos futuros. Além disso, o impacto secundário dos atuais choques de preços pode ser aproximado pela dinâmica das expectativas de médio prazo, também em alta.

Portanto, são dois vetores que indicam inflação mais elevada adiante, o que demanda uma resposta mais conservadora por parte da autoridade monetária, acima até do que as suas simulações oficiais mais recentes sugerem.

Assim, confirmamos nossa percepção de que um fine tuning adicional da taxa básica de juros nesse final de ciclo é o mais provável. Reforçamos nosso call de 13,25% para a taxa Selic terminal em junho. Esse nível tende a permanecer até o 2.º trimestre de 2023, no mínimo. Também há viés de alta em torno dessas projeções, cabe ressaltar.

Câmbio

No que se refere à cotação do câmbio, esse cenário de juros elevados no Brasil deve contribuir para a preservação de um diferencial de taxas relevante e positivo. Inclusive, sob cenários distintos (mais restritivos) da FED funds rate nos EUA.

Nossas simulações estatísticas indicam que, mesmo controlando por outros fatores explicativos, a elevação da taxa Selic para 13,25% tende a manter a cotação do dólar ao redor de R$ 4,70. Esse seria um patamar de fair value, nessa métrica.

Outra abordagem interessante para o valor justo da nossa moeda envolve o desalinhamento da taxa de câmbio real efetiva (REER) frente aos pares emergentes e commodity currencies. Aqui, encontramos uma cotação de equilíbrio em torno de R$ 4,80 — aos preços de fevereiro de 2022.

Nesse sentido, avaliamos que as cotações atuais do câmbio têm basicamente orbitado ao redor do seu fair value. Esse movimento é condizente com a perspectiva para os juros domésticos e com o descasamento (antes de maior magnitude) do real frente a moedas pares, sujeitas aos mesmos direcionadores.

Em princípio, sob essa ótica, há pouco potencial para novos solavancos. Ainda assim, olhando adiante, cabe o questionamento a respeito de quais fatores adicionais poderiam impactar esse preço de ativo — que, historicamente, abrange componentes aleatórios.

Eleições

Nesse cenário, um evento interessante a monitorar é o ciclo eleitoral. Ele não é nada aleatório e já detectamos diferenças estatisticamente relevantes nos movimentos mensais da taxa de câmbio em anos eleitorais versus não eleitorais.

Os primeiros exibem tradicionalmente mais volatilidade e tendência à depreciação do real a partir do 2.º trimestre, como mostram as colunas amarelas no gráfico a seguir. Logicamente, isso segue o calendário formal da disputa, em que as convenções, as chapadas e as agendas econômicas começam a ser debatidas publicamente nesse contexto.

Historicamente, há uma reversão à média apenas depois de encerrado pleito, quando refluem também as incertezas a ele associadas. Aos olhos atuais, entendemos que não podemos refutar a ocorrência, em algum grau, de movimentos similares em 2022.

Isso porque também há inúmeras incertezas, em ambos os lados do espectro político, seja em torno da agenda econômica efetiva a ser apregoada, seja devido aos desafios fiscais latentes.

Considerando a nossa expectativa para a taxa Selic, projetamos R$ 5,11 e R$ 4,95 para o câmbio em 2022 e 2023 (fim de período), respectivamente. Esses números também são baseados em algum grau de mais volatilidade durante a corrida eleitoral e o nível de equilíbrio apontado por diferentes modelos.

Aqui, supomos que não haja ruptura na política econômica do próximo governo. Esse é um dos principais pontos a monitorar no cenário pós-eleitoral.

Para outros índices de mercado, fazemos a seguinte projeção:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 7,3% em 2022, 3,6% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11,9% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,11 em 2022, R$ 4,95 em 2023 e R$ 4,83 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,4% em 2022, 1,4% em 2023 e 1,75% em 2024.

E você, concorda com essa análise? Deixe sua opinião no campo de comentários.

O Banco ABC não interpreta o conteúdo desta publicação como consultoria jurídica, contábil, fiscal ou de investimento ou como uma recomendação, portanto, nenhum investimento, desinvestimento ou outras ações ou decisões financeiras devem se basear apenas nas informações contidas nesta publicação.

O Banco ABC não faz qualquer representação ou garantia, expressa ou implícita, quanto à exatidão, plenitude e confiabilidade das informações, estimativas ou projeções quanto a eventos que possam ocorrer no futuro. Não há garantia de que quaisquer dessas estimativas ou projeções serão alcançadas. Nada aqui contido é, ou deve ser entendido como, uma promessa ou representação do passado ou do futuro.

O Banco ABC se exonera, expressamente, de toda e qualquer responsabilidade relacionada ou resultante da utilização desta publicação.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.