Radar da Economia: PIB anual deve crescer 0,5%

O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou recentemente os dados setoriais de comércio e serviços. Além disso, há a estimativa do mesmo instituto relativa à produção industrial e ao levantamento da safra de grãos — todos referentes a fevereiro.

Traremos mais detalhes, mas o resultado é a projeção de alta de 0,7% na comparação mensal e de 0,5% na análise anual para o chamado PIB (Produto Interno Bruto) mensal no mês de referência. Ou seja, para o Índice de Atividade Econômica do Brasil (IBC-Br).

Confirmados esses números, o PIB total medido pelo IBGE deve rodar em torno de 0,2% de alta na comparação trimestral, considerando o 1.º trimestre de 2022. O resultado anterior havia sido de 0,5%. Isso é o que nossos modelos apontam.

Portanto, sem mudanças expressivas em nossas projeções de curto prazo para a economia doméstica. Quanto ao PIB anual, o crescimento deve ser de 0,5%. Está projetada alguma aceleração tímida (1%) para 2023. Porém, isso depende de um cenário econômico mais claro após o ciclo eleitoral.

Todos esses detalhes serão debatidos neste Radar da Economia. Acompanhe.

Dados da PMC

A Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) mostrou que as vendas varejistas ampliadas registraram expansão de 2% em fevereiro. Em janeiro, a alta havia sido leve, de apenas 0,2% (revisada de -0,3%).

No conceito restrito, as vendas cresceram 1,1% na margem. Com isso, desaceleraram frente à alta de 2,1% observada no mês imediatamente anterior. Aliás, ela também foi revisada para melhor, vindo de 0,8% antes.

Dessa forma, novamente, ambos os índices vieram acima das nossas expectativas, em 1,1% no ampliado e 0,2% no restrito. Em que pesem as revisões favoráveis nos meses anteriores, as surpresas positivas mostradas pela PMC em fevereiro ocorreram devido à atualização dos modelos e aos fatores de ajuste sazonal.

Havíamos comentado sobre essas mudanças em março, conforme o Radar da Economia “Perspectivas do PIB 2022 cresce e deve ficar entre 0,3% e 0,6%”. Esse cenário ocorre devido às variações interanuais dos índices varejistas, que também vieram mais fortes.

Para ter uma ideia, pontuaram 0,3% na comparação anual no ampliado e 1,3% na mesma base no cenário restrito. No entanto, as projeções foram de -1,5% na comparação anual em ambos os casos.

Segundo o IBGE, foi detectado algum impacto das promoções fora de época no comércio de bens duráveis e semi/não duráveis. Isso após dois meses em que o fluxo de vendas total ficou de lado, como mostram os gráficos a seguir.

Resultados do varejo

O cenário apresentado é um reflexo provável das preocupações com a variante Ômicron de então. Em paralelo, a queda dos preços de combustíveis no período e a majoração das transferências de renda pelo Auxílio Brasil trouxeram certo impacto positivo na dinâmica do varejo em fevereiro.

Vale a pena reforçar que, em fevereiro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) apurou quedas de 0,9% e 3,1% nos preços de combustíveis veiculares no mês e no acumulado de três meses, respectivamente.

Não à toa, as vendas em alguns segmentos tiveram bom desempenho no mês após ajuste sazonal. Esses setores foram:

  • móveis/eletrodomésticos: 2,3%;
  • veículos: 5,2%;
  • tecidos: 2,1%;
  • artigos de uso pessoal/doméstico: 1,6%;
  • livros: 42,8%.

O comércio em supermercados (1,4%) e em postos de combustíveis (5,3%) também registraram alta. Na abertura geográfica, as expansões foram espalhadas. Das 27 unidades da federação pesquisadas, 23 pontuaram crescimento no mês. Os destaques foram os estados do Norte, especialmente Acre e Amapá, e do Centro-Oeste, principalmente Mato Grosso do Sul.

O ponto é que se trata, em sua maioria, de efeitos one-off, pois os eventos promocionais são essencialmente temporários. Além disso, o recente reajuste altista nos preços de combustíveis será bem visível já a partir de março. Ainda estará conjugado com a maior pressão da inflação de alimentos na renda disponível das famílias.

É importante destacar que, no acumulado em 12 meses, a inflação de alimentos em domicílio no IPCA passou de 10,1% para 13,7% entre fevereiro e março, segundo o Sistema Nacional de Índice de Preços do Consumidor (IBGE/SNIPC).

Análise PMC

O cenário nos leva a uma projeção de variações ao redor de zero para os índices da PMC na apuração de março, mostrando algum payback perante os dados positivos de fevereiro. Com a confirmação da estabilidade na ponta, o carregamento estatístico do varejo ampliado no 1.º trimestre de 2022 será de 1,8% na comparação trimestral, vindo de -1,9% no 4.º trimestre de 2021.

Segundo nossas simulações, a variação é compatível com uma alta de 0,9% na comparação trimestral no consumo das famílias no PIB do 1.º trimestre de 2022. No último trimestre de 2021, foi observado um crescimento de 0,7%.

Mais adiante, nossa expectativa é de que os dados varejistas tenham acomodação mais acentuada na segunda metade de 2022. O efeito negativo de condições financeiras restritivas, os níveis elevados de juros e inflação, e alguma cautela eleitoral devem ganhar mais força.

Assim, projetamos alta de 1,5% e 0,6% para as vendas varejistas ampliadas e restritas em 2022. Isso mostra desaceleração frente às taxas apuradas em 2021, que eram de 4,5% e 1,4% nessa ordem.

Dados da PMS

A obviedade é que, além de bens, as famílias demandam igualmente serviços — setor de grande peso relativo nas Contas Nacionais do IBGE. Nesse contexto, os dados da Pesquisa Mensal de Serviços, também publicados na semana da Páscoa, trazem insights menos animadores do que os sugeridos pela PMC.

Especificamente, a receita real do setor de serviços recuou 0,2% na comparação mensal em fevereiro, após queda de 1,8% em janeiro, que havia sido revisada para menor, de -0,1% antes. Esperávamos discreta alta de 0,3% no mês — o consenso de mercado era 0,7%.

Na margem, foram os serviços de informação/comunicação (-1,2%) e outros (-0,9%) que se destacaram no lado negativo em fevereiro. A nova especificação do ajuste sazonal do IBGE também desempenhou algum papel nessa divulgação.

Contudo, o bom desempenho em alguns serviços denota um efeito favorável do avanço na mobilidade vista nos últimos meses. Eles são:

  • transportes: 2%;
  • profissionais/administrativos: 1,4%;
  • famílias: 0,1%.

Ainda há a performance positiva da manufatura no período, que foi de 0,7% na comparação mensal, conforme a Pesquisa Industrial Mensal (PIM). Esses fatores também devem perder fôlego nos próximos trimestres.

Apenas os serviços às famílias prosseguem com um hiato negativo frente ao nível pré-pandemia. Isso deve ser preenchido de forma gradual adiante. Fora esse impulso mecânico positivo, os demais direcionadores do setor de serviços seguem pouco favoráveis — especialmente, a corrosão do poder de compra das famílias e o juro real inibitivo.

Trabalhamos com 2,1% para a PMS em 2022, desacelerando frente ao crescimento de 10,9% apurado em 2021. No 1.º trimestre de 2022, o carregamento estatístico estimado para a PMS é de 0,6% na comparação trimestral, incluindo nossas projeções para março.

Uma vez confirmada, essa taxa é compatível com uma variação de 0,4% na comparação trimestral no PIB de serviços do 1.º trimestre de 2022. O resultado do 4.º trimestre de 2021 foi 0,5%.

Dados da PIM

Quanto à produção industrial, foi registrada uma alta de 0,7% na comparação mensal em fevereiro. Isso está alinhado à nossa projeção, que era de 0,6%, e acima do consenso de mercado, que estava em 0,4%.

O resultado veio após variações mensais revisadas de -2,2% em janeiro de 2022 e 2,7% em dezembro de 2021. Ou seja, é uma trajetória um tanto errática no período.

Tal como notificado pelo IBGE, houve revisão nos modelos de ajuste sazonal das séries da PIM-PF. Ainda foi feita a incorporação de dados novos referentes a fevereiro. Contudo, o efeito prático dessa mudança não foi expressivo na margem.

De qualquer forma, a alta de 0,7% da indústria no mês veio difundida entre todas as categorias de uso. O destaque positivo foi para bens de capital (1,9%) e intermediários (1,6%). Além disso, 16 dos 26 ramos de atividade pesquisados pelo instituto tiveram crescimento na ponta.

Alguns setores vieram no terreno positivo. Eles são:

  • extração: 5,3%;
  • manufatura de alimentos: 2,4%;
  • farmacêuticos: 13%.

Ao mesmo tempo, os segmentos de petróleo (-1,8%) e celulose (-3,4%) tomaram o sentido inverso. Na comparação com o nível pré-COVID-19 — ou seja, fevereiro de 2020 —, a PIM-PF se situa -2,7% abaixo. Porém, esse perfil é um tanto heterogêneo, uma vez que “bens de capital” e “intermediários” se expandiram acima da média no período.

Já os “bens de consumo” e suas subcategorias ficaram abaixo da média geral da indústria. O gráfico a seguir mostra esses dados.

Análise

No 1.º trimestre de 2022, devido à forte queda vista em janeiro, a PIM-PF traz um carregamento estatístico ainda tímido, de 0% na comparação trimestral. O resultado veio de -0,2% na mesma base no 4.º trimestre de 2021.

Para março, detectamos um certo viés de baixa para a indústria, tendo em vista o movimento antecipado pela confiança setorial (FGV). Nossas simulações indicam que o PIB industrial — que representa 20% do total — deve mostrar leve retração de 0,1% no 1.º trimestre de 2022. No 4.º trimestre de 2021, foi registrada uma queda de 1,2%.

Essa trajetória segue compatível com a nossa expectativa para o PIB total no 1.º trimestre de 2022, que fica ao redor de 0,2% na comparação trimestral. Na mesma direção, considerando os índices setoriais de atividade econômica recém-publicados (PMC e PMS), projetamos 0,37% na comparação mensal e 0,5% na anual para o IBC-Br.

Além de PMC e PMS, também levamos em conta o PIM e a safra de grãos estimada pelo IBGE por meio do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA). O índice de março, divulgado em 7 de abril, indicou que o Brasil deve alcançar 258,9 milhões de toneladas em 2022.

Frente à estimativa feita em fevereiro, houve queda de 1% na comparação mensal, o que representou -2,7 milhões de toneladas. Ainda assim, a produção agrícola deve superar em 2,3% o total colhido em 2021 e alcançar outro recorde, superando os números de 2020, que chegaram a 255,4 milhões de toneladas.

Uma expansão de igual magnitude é esperada também no IBC-Br de março. Com isso, faz o PIB total rodar em torno de 0,2% na comparação trimestral no 1.º trimestre de 2022, vindo de 0,5% no 4.º trimestre de 2021. Isso foi apontado pelos nossos modelos. Portanto, sem mudanças expressivas em nossas projeções de curto prazo para a economia doméstica.

Quanto ao PIB anual, o crescimento deve ser por volta de 0,5% em 2022. Uma discreta aceleração de 1% é projetada para 2023. Porém, seguirá um tanto dependente e um cenário econômico mais claro após o ciclo eleitoral.

Diante desse contexto, confira os resultados consolidados e as projeções para os principais índices econômicos:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 7,3% em 2022, 3,6% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 11,9% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,11 em 2022, R$ 4,95 em 2023 e R$ 4,83 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,5% em 2022, 1% em 2023 e 1,5% em 2024.

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