Radar da Economia: A queda da Selic para 4,25%

Como esperado, a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no início de fevereiro levou a mais um corte na taxa Selic. A redução dos juros foi de 0,25 ponto percentual, saindo de 4,5% ao ano para 4,25% ao ano.

A diferença, desta vez, foi o comunicado pós-reunião. O Banco Central (BC) indicou fortemente que o atual ciclo de queda dos juros chegou ao fim. O que essa informação deverá alterar no futuro da economia? Essa realmente deverá ser a última redução de juros em curto prazo? Essas são as perguntas que vamos responder nesta coluna.

A decisão da primeira reunião do Copom de 2020

No Radar da Economia “As mudanças nas projeções para 2020”, destacamos que a expectativa de mais uma redução de juros pelo Copom dependia do crescimento interno e se haveria um viés de baixa devido aos problemas na China com o coronavírus. Parece que o BC achou que a queda é iminente — e isso foi determinante para a diminuição de 0,25 ponto percentual na reunião de fevereiro de 2020.

Apesar de não falar na nova epidemia de forma direta, a possibilidade de crescimento e o aumento das incertezas externas impactam o comunicado. Para ter uma ideia, antes, a elevação era definida como tendo “ganhado tração”. Agora, passa a ser adjetivada como “gradual”.

Por sua vez, o cenário externo continua positivo para os países emergentes. No entanto, em vez de a análise vir acompanhada de uma explicação positiva, veio associada a uma preocupação com as incertezas. Antes, o discurso era: “A provisão de estímulos monetários nas principais economias tem sido capaz de produzir um ambiente relativamente favorável para as economias emergentes”.

Agora, passou a ser: “Apesar do recente aumento de incerteza, o caráter acomodatício da política monetária nas principais economias, ainda tem sido capaz de produzir um ambiente relativamente favorável para as economias emergentes.

Portanto, a combinação de um crescimento “gradual” com o “aumento da incerteza” externa foi a base da explicação do BC para essa redução adicional de juros. A partir de agora, temos apenas explicações de por que não devem ser esperados cortes adicionais, pelo menos, na reunião que ocorrerá em 18 de março de 2020.

Os motivos para a manutenção dos juros em 4,25% ao ano

A principal razão para esperar a manutenção dos juros na próxima reunião vem da seguinte parte do comunicador do BC: Considerando os efeitos defasados do ciclo econômico de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária”.

O trecho está bastante explícito. No entanto, precisamos entender os motivos que levaram a esse cenário. No caso da defasagem política monetária, o texto do comunicado faz uma citação clara — e esse é o fator de maior exposição de qualquer BC.

Segundo os modelos, uma redução dos juros demora entre 6 e 9 meses para alcançar seu impacto máximo sobre a economia. O primeiro corte desse ciclo, que iniciou em 31 de julho de 2019, só está cumprindo seu objetivo agora. Isso nos leva à conclusão de que as diminuições realizadas até a reunião de fevereiro vão gerar impactos relevantes ao longo de todo o ano de 2020.

Juntando isso ao fato de que houve um grande “retrofit” no mercado de crédito por meio da Agenda BC#, é possível entender que existem poucas informações sobre o que vai acontecer daqui para a frente. É preciso ter cautela, mesmo em um cenário em que podem ocorrer mais cortes.

Explicando um pouco mais a questão do “retrofit”, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tem usado uma analogia interessante para explicar o que acontece. Para ele, o impacto da Agenda BC#, junto aos níveis inéditos da própria taxa de juros, seria como a troca do encanamento em uma casa.

Para tornar essa analogia mais clara, podemos considerar que, com canos antigos, sai apenas um filete de água das torneiras. Com isso, demora um tempo enorme para encher totalmente um balde. Assim, durante esse processo, era possível fazer outra coisa, sem risco de inundar o cômodo.

Agora temos um encanamento novo e a água começou a sair do reservatório. Ainda não chegou na torneira. Portanto, a vazão ainda é desconhecida. A partir dessa comparação, não convém abrir a torneira do modo anterior, porque o balde pode encher rápido demais e levar ao derramamento do líquido.

Nesse exemplo, a troca do encanamento representa as transformações na intermediação financeira do comunicado da reunião de dezembro. No texto atual, tornou-se “aumento da potência da política monetária decorrente das transformações na intermediação financeira e no mercado de crédito e capitais”.

As expectativas para o restante do ano

O BC deixou claro que não deve cortar os juros na reunião de 18 de março de 2020. O que deve acontecer depois disso? Existe alguma chance de queda dos juros até o final do ano e que a Selic termine 2020 abaixo de 4,25% ao ano? A possibilidade sempre existe.

Tanto que, mesmo com ênfase na indicação da manutenção dos juros, o BC deixou a oportunidade de novas reduções, conforme indica a prudência. Veja o trecho: “O Comitê enfatiza que seus próximos passos continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação”.

A informação é vaga o suficiente para que, se for retomado o afrouxamento monetário em algum momento até o final do ano, não haja acusação de erro de comunicação. Voltando ao exemplo, como o “problema” está em desconhecer a vazão da água com esse novo encanamento, além da questão da abertura da torneira, temos que saber a quantidade de água que vem da caixa d’água.

Ou seja, uma variável importante para resolver a equipação é o crescimento interno, que representa a quantidade de água que passará pelo novo cano. Nesse caso, a principal incerteza vem dos impactos do atual surto de coronavírus na China sobre o crescimento brasileiro.

No Radar da Economia “As mudanças nas projeções para 2020”, salientamos que as dúvidas com relação ao desenrolar dessa questão ainda são grandes. No entanto, podemos dizer que esse choque certamente deverá reduzir as expectativas de crescimento para a China e o Brasil.

Projeções dos bancos internacionais

Os maiores bancos internacionais esperam uma redução do crescimento chinês de 6% para 4,5% no 1º trimestre de 2020. No 2º semestre deverá haver uma recuperação. Com isso, a queda líquida ao final do ano ficaria entre 0,2 ponto percentual e 0,5 ponto percentual, com relação às projeções anteriores.

Usando os exercícios feitos para a China como base, a participação dela no comércio exterior brasileiro e deste no Produto Interno Bruto (PIB), concluímos que esse problema pode diminuir 0,4 ponto percentual do PIB brasileiro no 1º trimestre e 0,2 ponto percentual no ano todo.

Portanto, em vez do intervalo entre 2,5% e 3% esperado anteriormente, a projeção agora muda para algo entre 2% e 2,5%. Entretanto, essas contas ainda são bastante incertas, porque abordamos os impactos diretos da redução das importações chinesas dos produtos brasileiros e os problemas logísticos que podem prejudicar a indústria do País de forma indireta devido à falta de matérias-primas.

Um estudo da Oxford Economics estressou o mercado no dia 6 de fevereiro de 2020. Isso porque mostrou que o Brasil é um dos países mais expostos a problemas de fornecimento de produtos chineses. A dependência chega a 20%.

Em relação a setores, a Associação Brasileira de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (ABINEE) mostrou em uma pesquisa que 52% dos entrevistados já tiveram algum problema de recebimento de materiais da China. Além disso, 22% afirmaram que poderão suspender a produção em algum momento nas próximas semanas, se nada mudar. Nesse setor, a China fornece 42% das matérias-primas utilizadas.

Por sua vez, a Associação dos Fabricantes de Eletrônicos da Linha Branca (ELETROS) afirmou que as empresas do setor teriam estoques para 15 dias antes de terem problemas na produção. No mercado de carnes, são registradas dificuldades para embarcar os produtos para a China.

O problema não é a demanda, mas a operação precária dos portos. Com isso, as grandes empresas de navegação priorizam o transporte de produtos não perecíveis. Todos esses exemplos evidenciam que qualquer conta feita nesse momento é apenas um “chute qualificado”.

Assim, parece que o plano do BC é manter os juros por um longo período, com o próximo movimento sendo de alta nas taxas. Nas nossas projeções, isso poderia começar no 1º trimestre de 2021. Porém, dentro das coordenadas utilizadas, existe o crescimento da economia brasileira de, pelo menos, 2%.

Em princípio, consideramos que esse dado está correto. No entanto, conforme demonstramos nesta coluna, isso está longe de ser uma certeza. Portanto, apenas com o desenrolar dos fatos e a análise das consequências será possível saber se é necessário afrouxar mais a política monetária até o final de 2020.

Por enquanto, mantemos a nossa projeção de estabilização da situação do coronavírus até o final de fevereiro. A taxa de crescimento dos novos casos já começou a mostrar recuo e o número de mortes mantém-se ao redor de 2%, menor do que o do sarampo e o da influenza. Essas são boas notícias.

Se uma vacina for encontrada logo, o mercado vai procurar outro problema para se preocupar, porque esse ficará ultrapassado. Além disso, temos uma peculiaridade no nosso calendário, que pode evitar mais problemas com a paralisação da produção em alguns setores por falta de matéria-prima: o Carnaval.

Como a atividade fabril já é reduzida até durante a semana no período da festa, existe uma “folga”. Na semana do dia 10 de fevereiro de 2020, o BC vai divulgar a ata da reunião e poderemos saber qual é o posicionamento diante desse cenário.

Todos os bancos centrais ao redor do mundo têm discorrido sobre o tema coronavírus. Veremos o que o brasileiro tem a dizer. Veja como devem ficar os dados, de acordo com nossas projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,5% em 2020 e 3,75% em 2021;
  • Câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,37 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 4,25% em 2020 e 5,5% em 2021;
  • PIB: 1,2% em 2019, 2,3% em 2020 e 2,5% em 2021.

O que achou da última reunião do Copom e das projeções para os próximos meses? Deixe seu comentário e mostre sua opinião!

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