Radar Economia: Desinflação é desafio para o Banco Central nos próximos meses

A leitura do dado mais recente de inflação trouxe informações relevantes para a atualização do quadro macroeconômico doméstico. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) de abril foi divulgado no dia 27 de abril e trouxe como destaque os combustíveis, novamente.

Em especial, a gasolina. Esse item contribuiu com 0,48 ponto percentual (p.p.) da alta de 1,73% do índice cheio. Grande parte dos analistas — inclusive, nós — esperava uma taxa mais salgada, com muitas projeções acima de 1,8%.

No entanto, essa surpresa positiva ainda mantém a preocupação relacionada à dinâmica futura da inflação. Diante disso, neste Radar da Economia, tratamos do assunto.

A conclusão é a de que, apesar de a taxa acumulada em 12 meses do IPCA estar próxima de atingir o pico, o processo de desinflação rumo às metas do Banco Central (BC) será bastante desafiador. Vamos explicar melhor.

Inflação elevada

O primeiro ponto que vale destacar é a atipicidade de uma taxa de inflação mensal tão elevada. Como podemos observar no gráfico a seguir, o resultado de abril do IPCA-15 foge muito do padrão. A maior leitura para o mês nos 10 anos anteriores foi de 1,07%. Os principais vetores de alta ficam por conta de alimentos e transportes.

Essas pressões de preços, agravadas pelas tensões do conflito entre Rússia e Ucrânia, têm pressionado as cotações de commodities. Ao mesmo tempo, levam a sucessivas revisões de alta nas expectativas do mercado para o IPCA de 2022 e 2023.

Segundo o relatório Focus divulgado no dia 26 de abril, a mediana das estimativas para o IPCA de 2022 subiu para 7,65%. Há quatro semanas, o mercado esperava 6,86%.

Nesse mesmo período, a mediana para 2023 passou de 3,8% para 4%. Esse processo de desancoragem antes as metas do Banco Central — 3,5% para 2022 e 3,25% para 2023 — exige uma postura firme da autoridade monetária. Especialmente, porque a projeção do mercado até para 2024 está em 3,2% e segue acima da meta, que é de 3%.

Ao observar a abertura de preços livres do IPCA-15, temos que 3 componentes seguem em trajetória de alta em 12 meses. Os bens industriais estão próximos de atingir o pico desse processo, que começou em meados de 2020.

Enquanto isso, serviços e alimentação em domicílio devem continuar em alta nos próximos meses. Isso reflete o encarecimento de custos de produção e a demanda permissiva a repasses. Veja no gráfico a seguir.

Quanto a combustíveis, apesar de os preços na bomba já estarem em patamares elevados, os riscos de uma nova alta pela Petrobras aumentaram nos primeiros dias de maio. Tanto é que a defasagem ante o preço internacional atingiu cerca de 14% para a gasolina e 24% para o diesel.

Vale a pena destacar que os preços elevados nas bombas refletem os efeitos do último reajuste na refinaria. Ele foi de 18,7% para a gasolina e 24,9% para o diesel, estando em vigor a partir de 11 de março.

Mudança de cenário

Na nossa avaliação, com as informações que temos até o momento, o processo de desinflação deve começar em maio. Esse mês será beneficiado com a redução nos custos de energia elétrica em função da mudança da bandeira tarifária.

Ela vai passar de escassez hídrica — que adiciona R$ 14,20 a cada 100 kWh — para a verde, que não adiciona custos extras. Os efeitos defasados das altas de juros pelo BC também devem atuar nesse processo ao longo do segundo semestre. Assim, devem levar o IPCA a 7,6% ao final de 2022.

Apesar desse contexto, avaliamos que o balanço de riscos segue assimétrico para o lado de alta. Existe uma probabilidade maior de se concretizar no caso de um aperto das condições financeiras globais. Isso implica mais pressões sobre a taxa de câmbio, cuja volatilidade pode ser agravada pela corrida eleitoral.

Com essas informações, podemos destacar os indicadores econômicos, com seus resultados consolidados e projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 7,6% em 2022, 3,9% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 12,5% em 2022, 5% em 2023; 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,01 em 2022, R$ 4,95 em 2023 e R$ 4,84 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,5% em 2022, 1% em 2023 e 1,5% em 2024.

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