Radar da Economia: Selic já tem forte viés de alta e pode ultrapassar 13,25%

A gestão de expectativas é uma atribuição importante e intrinseca às autoridades monetárias dos países, especialmente, sob o regime de metas inflacionárias. Visto isso, a comunicação oficial exerce um papel fundamental — sendo passível de adaptações e melhorias contínuas.

Nesse sentido, as sinalizações claras dos membros do Federal Reserve (FED) desde o segundo semestre de 2021 foram eficazes. No contexto atual, elas evitam um evento como o taper tantrum visto em 2013. Portanto, percebe-se nítida evolução comunicacional.

A mesma lógica se aplica ao ajuste telegrafado de 50 pontos-base (bps) implementado pelo FED na primeira semana de maio. Já esperávamos esse movimento, conforme o Radar da Economia “Powel admite postura hawkish até 2023″.

No entanto, o presidente do FED, Jerome Powell, também afirmou o descarte de passos mais acelerados de aperto (75 bps) adiante. Ele fez essa confirmação no dia 4 de maio.

No Brasil, no mesmo dia, o statement da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe alterações importantes na forma de comunicação do Banco Central (BC). Apesar disso, a alta de juros de 100 bps implementada estava totalmente alinhada às expectativas. Vamos explicar melhor esse cenário neste Radar da Economia.

Aumento da Selic

Até então, o Comitê antecipava com certo grau de convicção os passos seguintes da política monetária doméstica. Dessa vez, sinalizou uma “provável extensão do ciclo” com “um ajuste de menor magnitude” na próxima reunião, em junho.

Portanto, o forward guidance oficial mostrou menos firmeza, mesmo tendo vindo em consonância com o que esperávamos. Já havíamos tratado disso no Radar da Economia “IPCA-15 sobe 0,95% em março e média da inflação continua pressionada”.

Essa cautela foi justificada, na visão da autoridade, pela incerteza econômica atual. Além disso, o impacto cumulativo dos ajustes de juros já efetuados também foi considerado.

Isso em um ambiente em que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)headline e núcleos — seguiu surpreendendo negativamente na margem. Tratamos disso no Radar da Economia “Desinflação é desafio para o Banco Central nos próximos meses”.

Entendemos que essa conjugação de fatores — especialmente, o quadro inflacionário desfavorável — também pode se repetir nas reuniões seguintes do Copom. Ou seja, para além de junho.

Dessa forma, nosso call para a taxa Selic nessa fase do ciclo segue inalterado em 13,25%. Isso foi confirmado pelas indicações do BC na primeira semana de maio. Porém, conta com inegável viés de alta.

O efeito defasado da política monetária em conjunto com a comunicabilidade mais fluida do BC nos sugerem que eventuais ajustes adicionais tendem a ser feitos em ritmo mais comedido, de 50 bps. Além disso, os comunicados devem ter alguma margem de flexibilidade.

O padrão histórico de alterações em valor absoluto na Selic, sob a atual gestão da autarquia, indica que a frequência relativa de movimentos de 50 bps é igual à de 75 bps, por outro lado.

Expectativas para a Selic

De qualquer forma, esperamos movimentos de juros a conta-gotas adiante. Eles seguirão avançando de maneira significativa em território ainda mais contracionista, caso necessário.

Nesse estágio, trata-se de uma postura dependente de dados. Pelo menos, até que a autoridade monetária tenha mais convicção na desinflação corrente e na ancoragem das expectativas de médio prazo.

Nossas projeções apontam que o pico do IPCA em 12 meses continuará a ser observado na apuração de abril. Ainda assim, sua tendência à desaceleração ficará apenas mais clara ao longo do segundo semestre do ano, como mostra o gráfico anterior.

Até lá, as expectativas de mercado para 2023 — foco principal do BC hoje — devem seguir pressionadas para cima. Elas são correlacionadas com as leituras correntes, especialmente em um quadro de alta volatilidade nas cotações do petróleo.

A depender do timing, também há risco de as expectativas para 2024 começarem a ser afetadas. Por sua vez, avaliamos que esse ano-calendário entrará nas ponderações do Copom a partir do segundo semestre.

Essa conjuntura inflacionária — taxas elevadas, persistentes e pressões disseminadas — pode induzir o Banco Central a seguir nessa postura contracionista por um período até mais alongado do que esperamos. Nossa expectativa atual é de que a taxa Selic comece a ser reduzida apenas a partir do segundo semestre de 2023.

Isso desde que toda a política econômica não seja alterada de forma expressiva pelo próximo governo. Assim, projetamos 13,25% e 8,75% para os juros básicos em 2022 e em 2023, respectivamente. Além disso, ambas as taxas apresentam viés de alta, conforme argumentamos aqui.

Agora, veja como devem ficar as projeções para os indicadores econômicos, além dos dados já efetivados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 10,06% em 2021, 8,4% em 2022, 4,2% em 2023 e 3% em 2024;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,78% em 2021, 12,5% em 2022, 5% em 2023 e 4% em 2024;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,57 em 2021, R$ 5,01 em 2022, R$ 4,95 em 2023 e R$ 4,84 em 2024;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 9,25% em 2021, 13,25% em 2022, 8,75% em 2023 e 7% em 2024;
  • PIB: 1,2% em 2019, -3,9% em 2020, 4,6% em 2021, 0,5% em 2022, 1% em 2023 e 1,5% em 2024.

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