Radar da Economia: Mudanças no PIB: qual é a projeção?

As incertezas dominaram a semana que encerrou em 14 de fevereiro de 2020. As contas feitas pelo mercado sobre a progressão do coronavírus foram prejudicadas pela mudança da metodologia de cálculo de novos casos. Além disso, as primárias do Partido Democrata, nos EUA, apresentaram um candidato declarado socialista e outro cujo principal destaque foi o desafio de falar seu sobrenome.

Para completar o quadro, aquele que era encarado como favorito teve desempenho baixo nas duas primeiras prévias. Por sua vez, o “salvador da pátria” dos candidatos de centro nem entrou na disputa. No entanto, o Brasil não passou despercebido — e merece destaque neste Radar da Economia.

Por não sermos infectologistas e ser difícil prever o que vai acontecer nas eleições americanas, achamos mais relevante analisar a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de fevereiro e os dados do nível de atividade divulgados para rever a projeção de crescimento para 2020 e entender como isso pode impactar a política de juros do Banco Central do Brasil (BCB). Acompanhe!

A ata do Copom

No Radar da Economia anterior, após analisar o comunicado da reunião do Copom, concluímos que “parece que o plano do BC é manter os juros por um longo período, com o próximo movimento sendo de alta nas taxas”. Para chegar a esse resultado, a palavra “interrupção” em vez de “pausa” teve um peso decisivo.

Ela parecia mais forte, apesar de ambas serem sinônimas. Entretanto, é possível entender do texto da ata que o BCB não concorda com isso. Portanto, a conclusão a que chegamos antes precisa ser mudada.

Para entender o motivo, devemos primeiro observar que, na ata, o BCB mostrou uma dúvida relacionada ao impacto da política monetária sobre o crescimento e, por consequência, sobre a inflação. Esse questionamento não transparecia no comunicado.

Apesar de manter a questão das defasagens da política monetária e das dúvidas com relação aos mecanismos de transmissão — pontos centrais para a conclusão anterior —, o texto mostrou uma divisão interna surpreendente relativa à ociosidade da economia.

Uma parte do Copom acredita que a ausência dos gastos do governo na recuperação pode levar o mercado a superestimar o tamanho da ociosidade da economia. Nesse caso, a pressão recai sobre o setor privado, ao contrário do que ocorria no passado.

Em contrapartida, outra parte acha que o desempenho dos núcleos de inflação, mesmo com o choque do preço das carnes no final de 2019, é uma prova de que o resultado ainda seria elevado.

Unindo as defasagens da política monetária, as dúvidas referentes aos mecanismos de transmissão e a divisão do Copom em relação ao tamanho do hiato, chegamos à conclusão de que o BCB está diante de uma clássica “prova do pudim”. Ou seja, para saber se é bom ou não, é preciso experimentá-lo.

Assim, apenas após passar as defasagens e ver como os mecanismos de transmissão funcionam na atual estrutura de crédito, o BCB poderá concluir de maneira mais robusta qual é o estado da ociosidade da economia e, por consequência, se o ritmo de crescimento verificado hoje será um desafio para a política monetária daqui para frente.

Como é impossível fazer essa análise em um ou dois meses, o mercado passou a precificar que, provavelmente, nada mudará até a reunião do dia 17 de junho de 2020. O desempenho no 1º semestre do ano deverá ser decisivo para ver o que acontece a partir da reunião de 5 de agosto de 2020.

Caso a economia se recupere, como esperado, e indique um crescimento ao redor de 2% para todo o ano, é provável que o BCB mantenha os juros até o final de 2020. Se ao contrário, os números frustrem as previsões até a reunião de agosto, poderemos ver novas reduções nas taxas.

Essa conclusão parece bastante razoável. Apesar de aumentar a dúvida com relação ao cenário que tínhamos após o comunicado, quando a aposta principal era de manutenção, não deveria causar grande volatilidade nos mercados.

A influência da China

O coronavírus pode embaralhar ainda mais o cenário referente à análise do Copom. Nos nossos cálculos, se as projeções para o crescimento da China dos principais bancos internacionais forem verificadas, o Brasil poderia ter uma redução de 0,4 ponto percentual no 1º trimestre, devido à queda das exportações para o país asiático.

Por isso, havíamos reduzido nossa projeção do Produto Interno Bruto (PIB) para 2020. De 2,5%, aproximadamente, com viés de alta, mudamos para um número no intervalo entre 2% e 2,5%.

Um dos motivos para isso é que, mesmo que a China recupere de modo integral o que perdeu com a pandemia no 1º trimestre de 2020, o PIB em 2020 já seria menor do que o projetado anteriormente por questões estatísticas. Explicando de forma mais clara: para o PIB de 2020, o trimestre mais importante é o primeiro.

A importância diminui com a passagem dos trimestres até chegar ao quarto, quando o impacto o ano corrente é marginal. Portanto, se o principal é o primeiro e a recuperação ocorre no último, o PIB de 2020 ficará menor do que o anteriormente precificado, mesmo que os números sejam iguais.

Essa diferença, obviamente, vai para o ano seguinte. Por isso, quando observamos a redução das projeções para o crescimento brasileiro por causa do coronavírus na China, vemos queda em 2020 e aumento em 2021. No Radar da Economia anterior, havíamos alterado apenas o de 2020, porque a divulgação de dados de atividade decisivos para o fechamento das projeções para o 4º trimestre de 2019 seriam divulgados.

Portanto, com base nesses números, podemos fechar as projeções para os anos de 2019, 2020 e 2021 em sequência. Infelizmente, as notícias são negativas.

As projeções para 2019, 2020 e 2021

Em 2019, os dados divulgados da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) e do Índice de Atividade Econômica do Banco Central — Brasil (IBC-BR) indicaram um desempenho mais fraco do que o esperado no final do ano. A exemplificação foi o resultado do IBC-BR trimestral.

A esperança era de que os números indicassem um PIB ao redor de 1% no 4º trimestre de 2019, quando comparado ao trimestre imediatamente anterior. Porém, com base nos dados, parece mais razoável esperar algo ao redor de 0,5%. Com isso, nossa projeção para o PIB de 2019 caiu de 1,2% para 1,1%, o que não parece muito relevante.

O problema aparece quando observamos o impacto da redução da expectativa de crescimento do final de 2019 sobre o PIB de 2020. Como já citado, o desempenho do último trimestre de um ano tem mais impacto sobre o período seguinte do que sobre o atual. Um bom exemplo é a possível queda de 0,5 ponto percentual na expectativa de alta para o 4º trimestre de 2019, que tirou apenas 0,1 ponto percentual no PIB de 2019.

Para 2020, porém, essa redução levará a uma queda de 0,4 ponto percentual por meio do carrego estatístico. Assim, há uma força quatro vezes maior. Dessa forma, só pelo resultado menor do final de 2019, deveríamos reduzir a projeção.

No entanto, o impacto do coronavírus no 1º trimestre de 2020 também impacta o PIB atual. Considerando os cálculos preliminares vistos no Radar da Economia anterior, esse problema poderá tirar algo em torno de 0,4 ponto percentual do crescimento brasileiro no 1º trimestre de 2020. Com isso, haveria uma queda de 0,5% para 0,1%.

Unindo os dois efeitos baixistas, revisamos o PIB para 2020 de 2,3% para 2%, com viés de baixa. Entretanto, é possível haver notícias positivas. Se as análises preliminares se confirmarem, o principal impacto do coronavírus ocorreria no 1º trimestre, com recuperação nos períodos seguintes — e essa seria mais forte no 2º semestre. Veja como ficam os dados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,2% em 2020 e 3,75% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,37 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 4,25% em 2020 e 5,5% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, 2% em 2020 e 2,8% em 2021.

Com essa configuração de crescimento ao longo de 2020, a estatística, finalmente, joga a favor do crescimento. A nossa projeção inicial de 2,5% para 2021 é revista para 2,8%. É como diz a vinheta da Band News FM, “em 20 minutos, tudo pode mudar”.

É assim que as coisas parecem acontecer desde o início de 2020. Dessa forma, apesar de não gostarmos de alterar nossas projeções, especialmente para o nível de atividade, tivemos que fazê-lo duas vezes nos últimos dois Radares da Economia.

Provavelmente, haverá outras modificações até o final do trimestre devido às incertezas relacionadas às questões ligadas ao coronavírus. Se já é um desafio para os especialistas, ainda mais para o BCB, que precisa decidir a taxa básica de juros da economia.

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