Radar da Economia: Coronavírus e redução da produção chinesa: como afetam o mercado?

O Radar da Economia da semana encerrada no dia 21 de fevereiro pareceu antever o caos que se instalaria no mundo durante o Carnaval. As notícias foram ruins e, nesta coluna, buscamos responder às perguntas que passam pela cabeça de todos neste momento.

  • O que aconteceu para que o mercado piorasse tanto durante as nossas festas de Momo?
  • O movimento foi exagerado ou não?
  • O pior já passou?
  • Qual é o impacto disso tudo na economia brasileira?

Para entender melhor as respostas, vamos explicar cada um dos assuntos a seguir. Confira!

O impacto do coronavírus

O atual surto do coronavírus precisa ser analisado e ter seus dados atualizados. No Radar da Economia “As mudanças nas projeções para 2020” fizemos uma comparação à Severe Acute Respiratory Syndrome (SARS) — e faremos isso novamente.

Apesar de o contágio do surto atual ser muito mais rápido e espalhado pelo mundo, seu ciclo vai seguindo o que esperávamos. No texto já mencionado, concluímos que “se o padrão da SARS for verificado, o declínio desses números deverá acontecer em aproximadamente duas semanas”.

Para a China, essa previsão foi confirmada. Entretanto, a característica do contágio ser mais rápido do que no caso da SARS traz uma consequência, que é o motivo do pânico no período do Carnaval: a disseminação pelo mundo é muito maior agora e ainda está em aceleração.

Quantificando, enquanto a SARS contaminou 8.096 pessoas em 29 países, o surto atual do coronavírus já atingiu 83.732 pessoas em 50 nações. Além disso, a doença chega de forma mais forte em regiões “centrais”, com 650 casos já confirmados na Itália e 2.337 na Coreia do Sul.

Até o final de fevereiro de 2020, o 3º lugar onde houve mais casos confirmados foi o navio Diamond Princess, que ficou atracado no Japão. Somente na embarcação foram 705 casos.

A disseminação rápida do vírus

O fator que ajuda na disseminação do atual coronavírus é o período de incubação, ou seja, no qual o infectado não apresenta sintomas da doença, mas pode transmiti-la. Esse prazo pode levar até 14 dias, contra 7 dias da SARS, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Por outro lado, a taxa de mortalidade é bem menor. O coronavírus tem um índice de 3,4% contra 9,6% da SARS. Ainda é muito menor do que a pandemia da gripe Influenza A, que fica em 21%. Portanto, mantemos nossa análise do início de fevereiro de 2020, quando indicamos que esse novo surto é um evento temporário e que segue o padrão normal de propagação.

Ele começou em meados de dezembro, com a chegada do inverno no hemisfério Norte, e acaba entre abril e maio, com o início da primavera. Então, se o que acontece é normal na história recente, por que o mercado teve a reação verificada nos últimos dias de fevereiro?

Os resultados do mercado financeiro

O primeiro motivo para a reação negativa da B3, a Bolsa de Valores brasileira, é que os ativos estavam “esticados”, principalmente o índice Standard & Poor’s (S&P) da bolsa americana. Isso acontece devido à elevada liquidez nos mercados globais, o que favoreceu os movimentos fortes de correção em momentos de elevação da aversão ao risco.

Outro motivo relevante é a importância da China no atual contexto de interligação das cadeias produtivas. Portanto, qualquer problema com a produção por lá tem efeitos sobre toda a economia mundial. O impacto ocorre tanto pelo menor volume de compra dos chineses quanto pelo gargalo que pode afetar a fabricação ao redor do mundo por falta de matérias-primas.

É importante considerar que esse problema acontece quando várias economias mundiais flertam com a recessão e os Bancos Centrais têm pouco espaço para reduzir os juros para fazer políticas monetárias contracíclicas. Com isso, temos mais um motivo para correção: a expectativa de uma queda nos resultados das empresas em curto prazo.

Dessa forma, o que acontece agora parece mais um ajuste do mercado, que vem de um longo período de valorização, do que uma mudança estrutural de patamar. Entretanto, isso não quer dizer que essa correção já acabou, uma vez que ainda estamos vulneráveis a notícias ruins, principalmente aquelas ligadas à paralisação da produção em outros países, inclusive o Brasil.

O fator para esse resultado foi a falta de matérias-primas vindas da China e/ou o aumento substancial de casos nos Estados Unidos, a próxima fronteira. Com o VIX — índice de volatilidade do S&P, considerado um bom indicador da aversão ao risco — em níveis mais altos desde agosto de 2011, todo cuidado é pouco. Foi nesse período, inclusive, que os EUA tiveram sua nota de crédito reduzida pela S&P de AAA para AA+.

As consequências para o Brasil

Após tentar entender o que ocorre lá fora, vamos nos voltar para a expectativa do impacto dessa confusão associada ao coronavírus no Brasil. O primeiro ponto a destacar é que, apesar do primeiro caso confirmado desse tipo de gripe em terras brasileiras, dificilmente teremos reproduzida a propagação conforme verificado no hemisfério Norte.

O motivo é simples: estamos no verão e o coronavírus é um vírus eminentemente de inverno, como todo tipo de gripe. Ou seja, o maior perigo seria que esse vírus continuasse a se propagar no mundo até o nosso inverno, sem ter sido desenvolvida alguma vacina.

Pensando apenas em saúde pública, o mais importante agora seria se preocupar com doenças de verão, como a dengue. Por exemplo, os casos dessa doença em 2020, até 1º fevereiro, chegaram a 94.149, contra 79.131 no mesmo período de 2019. A alta foi de quase 19%.

Obviamente, a dengue depende de um vetor, o mosquito Aedes aegypti. Com o coronavírus, isso não acontece. Portanto, a primeira doença é mais fácil de controlar do que a última. De qualquer maneira, é importante reforçar que, em termos de saúde pública, a segunda não parece ser uma ameaça de curto prazo, como acontece em países do hemisfério Norte.

Entretanto, se isso é verdade do ponto de vista de saúde pública, a mesma afirmação não pode ser feita em termos econômicos. Vamos entender por quê.

PIB

No Radar da Economia “Mudanças no PIB: qual é a projeção?”, já havíamos reduzido nossa previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2020. A previsão do índice saiu de 2,3% para 2% devido aos efeitos diretos da diminuição das importações de produtos brasileiros por parte da China.

Contudo, ainda não acrescentamos os problemas de fornecimento de matérias-primas derivadas das fábricas chinesas, cuja falta pode paralisar a produção por aqui. Segundo uma reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, uma pesquisa feita pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (ABINEE) apontou que:

  • 57% das empresas brasileiras já apresentam problemas;
  • 4% funcionam com paralisação parcial;
  • 15% projetam interrupções parciais.

O cenário se torna um pouco mais preocupante, porque nos aproximamos do Dia das Mães, que pode comprometer de forma permanente o resultado tanto da indústria quanto do comércio no ano. Essa situação pode se verificar ainda que a ausência de produção seja compensada posteriormente.

Além desse efeito concreto, o maior risco para o desempenho da economia seria a queda na confiança dos agentes econômicos, como aconteceu durante a greve dos caminhoneiros em 2018. A produção pode ser compensada, mas a perda no ímpeto para consumir e investir, não.

Revisões para o crescimento do País

Ante esses fatos, poderá ser necessário fazer uma revisão para o crescimento brasileiro em 2020. No entanto, tudo depende das notícias sobre possíveis interrupções da produção brasileira em decorrência da suspensão da atividade em várias fábricas chinesas durante o mês de fevereiro. Outro fator que interfere é a evolução dos índices de confiança do empresariado e do consumidor.

Na primeira semana de março, teremos a divulgação do PIB do 4º trimestre de 2019. Apesar de ser uma visão da economia pelo retrovisor, o resultado também poderá alterar as perspectivas para o crescimento em 2020. Tenhamos em mente que o número do último trimestre do ano tem um impacto maior no resultado do ano seguinte do que do ano corrente.

Portanto, o PIB a ser divulgado é fundamental para as análises dos resultados de 2020. O mercado está com uma projeção ao redor de 0,6% de crescimento em relação ao trimestre anterior. Esse dado é um pouco inferior à nossa previsão, que é de 0,7%. Assim, os dados ficam da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,2% em 2020 e 3,75% em 2021;
  • Câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,37 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 4,25% em 2020 e 5,5% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, 2% em 2020 e 2,8% em 2021.

A conclusão a que chegamos é que o movimento pode estar exagerado, mas dificilmente será revertido em curto prazo. O momento é de mais dúvidas do que certezas. Com isso, o mercado perde seus parâmetros.

Ainda assim, devemos lembrar de que qualquer gripe tem seu ciclo e ele se encerra com a chegada da primavera no hemisfério Norte. Além disso, sempre temos a possibilidade de uma vacina para o coronavírus ser encontrada.

Com certeza, ela não estará disponível para uma grande campanha de vacinação durante o surto. De toda forma, o simples anúncio da descoberta será suficiente para reverter o atual pessimismo. No Brasil, os efeitos mensuráveis, por enquanto, estão restritos ao impacto direto da redução das exportações de produtos brasileiros para a China.

Por isso, ainda precisamos verificar como a paralisação da produção chinesa impactará a cadeia de suprimentos por aqui e como a agitação dos mercados poderá afetar a confiança dos agentes econômicos na recuperação da economia brasileira.

No mais, o que temos a fazer é seguir o conselho de Winston Churchill. Durante a 2ª Guera Mundial, ele afirmou que “se você está atravessando o inferno, não pare”. É o que deve ser esperado para os próximos meses.

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