Radar da Economia: O mercado e suas incertezas

Uma das leis de Murphy diz que “nada é tão ruim que não possa piorar”. Se há aproximadamente duas semanas o Radar da Economia começasse com essa frase, provavelmente seríamos taxados de pessimistas. Agora, certamente, cerramos fileira entre os realistas.

O motivo são os acontecimentos desde o Carnaval. Eles impressionam, até mesmo para quem viu a crise financeira de 2008 ocorrer. Até porque, lá atrás, o motivo era concreto. Agora, parece um medo injustificado.

Por quê? É o que vamos explicar nesta coluna. Aqui, vamos sinalizar o motivo pelo qual achamos os movimentos de mercado exagerados, principalmente aqui no Brasil, e o que poderemos esperar daqui para a frente. Acompanhe!

Os fatos que interferem no mercado

Desde que o recesso carnavalesco iniciou, o índice Standard & Poor’s (S&P) da bolsa americana já perdeu 11,5% e o Ibovespa, 12,8%. Os números são realmente expressivos. Porém, o que chamou a atenção foi a rapidez com que os resultados pioraram.

Um estudo feito pelo Deutsche Bank mostrou que a bolsa americana precisou de apenas 6 dias para cair 10% do seu pico prévio — um recorde. A queda mais rápida até agora havia ocorrido em fevereiro de 2018, quando levou 10 dias.

Por sua vez, em um dos maiores crashes da bolsa de valores americana, em outubro de 1987, demorou cerca de 40 dias para chegar ao mesmo nível de prejuízo. No período, o real acumula queda de 6%, mais do que todo o ano de 2017, quando foi acumulada uma perda de 4,4%.

Os resultados implicados

Após os fatos, vamos aos motivos que levam a esses resultados. Já falamos várias vezes em textos anteriores que a falta de parâmetros para a formação de preços é o que os mercados mais odeiam.

Quando os critérios faltam, há disfuncionalidade, uma vez que não se consegue precificar de forma adequada o valor dos ativos. Na dúvida, eles vão para o que são consideradas “reservas de valor”, como o ouro, por exemplo, que já subiu 9% desde o início de fevereiro de 2020.

Portanto, a pergunta “a desvalorização do real está exagerada?” ou “a bolsa não caiu demais?” não faz sentido neste momento. Seguindo os fundamentos, diríamos que sim. No entanto, olhando para a aversão ao risco externo, podemos prever que deve piorar ainda mais antes de melhorar. O que causa todo esse medo? Explicamos em seguida.

Coronavírus

Na China, origem do problema, os novos casos de coronavírus já estão quase reduzidos a zero. Inclusive, os números de pacientes recuperados já superam aqueles que ainda apresentam sintomas da doença. O resultado é o começo da retomada da produção chinesa, que deverá ser totalmente recuperada até o final de março de 2020.

Isso confirma a ideia de que o coronavírus tem as mesmas características de doenças respiratórias comuns, com o seu impacto econômico sendo amplificado pela importância atual da China nas cadeias produtivas mundiais. Além disso, é acrescida a questão da saúde pública, devido ao aumento da participação da população chinesa na movimentação de pessoas ao redor do mundo.

Entretanto, isso não parece aliviar o movimento atual de aversão ao risco. O problema, que era chinês, acabou se tornando mundial pelos motivos já citados. Nesse ponto, temos duas questões relevantes.

A primeira é que, ao contrário da China, o surgimento de novos casos ao redor do mundo continua em crescimento. Na verdade, estamos agora passando pelo momento que os chineses atravessaram em meados de fevereiro de 2020. A diferença importante é a impossibilidade de replicar as medidas de contenção feitas na China em países europeus ou nos Estados Unidos.

Afinal, ninguém espera que a ilha de Manhattan seja fechada para conter a proliferação do coronavírus, como foi feito em Wuhan. Nos Estados Unidos, em particular, a fraqueza da rede de saúde pública alavanca o medo de que o crescimento da doença seja mais rápido do que em outros países desenvolvidos.

Por isso, o que deveremos monitorar, considerando o desenvolvimento da doença, será o surgimento de novos casos na Europa e nos Estados Unidos. Esses são os pontos-chave para determinar o impacto da doença sobre a economia mundial — e isso é o que importa para os mercados, no final das contas.

Paralisações da produção

Com a interrupção das fábricas, seja para evitar a proliferação do vírus, seja devido a problemas na cadeira de suprimentos, o crescimento global é afetado. No Brasil, a incerteza também é total.

Apesar da produção da China já estar se recuperando, os impactos sobre a cadeia de suprimentos ainda são incertos. Um dos motivos é que, além de retomar a produção, o país asiático terá que recuperar sua cadeia logística, que ficou parada durante o período crítico da proliferação do coronavírus.

Assim, deverá ser distribuído primeiro o que ficou parado para, só depois, começar a escoar novos produtos. Isso é particularmente sensível no caso dos transportes marítimos. Um navio demora, em média, 45 dias para ser embarcado na China e desembarcado no Brasil, por exemplo.

Ou seja, estamos falando que, após a paralisação das fábricas na China, poderemos ver problemas na produção de diversos países por falta de matérias-primas. Para piorar essa questão, com a disseminação rápida da doença, as interrupções podem ocorrer, especialmente para evitar o contágio.

Impactos da paralisação das fábricas

Para reduzir os efeitos negativos, trabalhar de casa é uma opção para algumas atividades ligadas ao setor de serviços, mas não no industrial. Qual será o impacto disso sobre a economia mundial? Ainda é impossível de ser mensurado por duas questões.

A primeira é intuitiva e tem a ver com o nível de estoques de cada fábrica. Como essa informação é estratégica, ninguém abre muito seu número. O segundo é a própria interligação da cadeia produtiva. Dificilmente temos hoje uma produção verticalizada, com todas as peças sendo produzidas pelo mesmo conglomerado.

O normal é a horizontalidade, na qual a fabricação depende de um grande número de fornecedores. Por exemplo, vamos considerar uma indústria na qual apenas 10% das matérias-primas vêm da China e os estoques são suficientes para um mês de produção.

Talvez seja possível considerar que a probabilidade de interrupção dessa fábrica por falta de matérias-primas seja baixo. Entretanto, se considerarmos que, dos 90% dos fornecedores de fora da China, a média de produtos importados desse país seja de mais de 50%.

Assim, em vez de estar exposta a problemas de entrega de produtos chineses em um nível de apenas 10%, essa fábrica teria relação com esse risco em mais de 55%. Sem contar que estaria sendo subestimado, uma vez que cada produtor também estaria suscetível a outros fornecedores.

Em outras palavras, é formada uma árvore de probabilidade difícil de ser estimada. Além disso, se você usa ao redor de 3.500 peças para fabricar um carro, mesmo que apenas 10% sejam importadas da China, se somente uma faltar, o veículo não poderá ser produzido.

Por fim, apesar da interrupção da produção levar a uma redução de custos variáveis, a empresa continua tendo os gastos fixos. Com isso, há outro problema: o capital de giro. Mais do que a questão da produção em si, podemos ver empresas financeiramente estranguladas, caso o funcionamento não seja retomado com rapidez. Essa é outra incerteza para o mercado, que as odeia.

As respostas do mercado aos problemas

Detectada a origem do medo que assola o mercado, vamos à resposta que os governos dão a esse problema. Para isso, obviamente, começamos com o que o Banco Central americano, o FED, fez. Essa foi a senha para uma esperada rodada de afrouxamento monetário ao redor do mundo.

Quando falamos de atuação do FED, partimos já para a reunião extraordinária feita no dia 3 de março de 2020. Entretanto, o pontapé inicial desse movimento começou no dia 28 de fevereiro de 2020. Nessa data, o BC americano soltou um comunicado e apontou que, em vez da esperada manutenção dos juros na reunião do dia 18 de março, ele estaria disposto a reduzi-los novamente.

Esse foi o primeiro passo de um movimento global, porque o FED é como um farol para os demais BCs. Isso acontece porque suas decisões têm o poder de alterar as condições de liquidez em todo o sistema.

Decisões seguintes

Foi exatamente isso que aconteceu. O primeiro BC a ter uma reunião marcada após o dia 28 de fevereiro foi o Royal Bank of Australia (RBA). Ele baixou suas taxas em 0,25 ponto percentual.

Fazia sentido dado que a previsão é de baixa para o crescimento mundial, independentemente das dúvidas que colocamos a respeito da dimensão do choque que virá na esteira do coronavírus. Contudo, como diria o imperador romano César, “a mulher de César não basta ser virtuosa, tem que parecer ser virtuosa”.

Portanto, ao FED é insuficiente estar confiante no desempenho da economia; ele tem que parecer estar. Infelizmente, não foi o que pareceu ao mercado quando foi chamada uma reunião extraordinária e feito um corte de 0,50 ponto percentual. Com isso, indicou que virá mais na reunião regular do dia 18 de março de 2020.

A questão nem é a reunião extraordinária em si, uma vez que o mercado já atribuía alguma chance de ocorrência desse evento. O que importa é o tamanho e a indicação dada. Mesmo considerando que o FED poderia fazer esse encontro extra e cortar os juros, os mercados acreditavam que a magnitude seria de 0,25 ponto percentual, com outro corte do mesmo tamanho em seguida.

Portanto, ao dar mais do que era projetado, foi suscitada a ideia de que o FED via alguma coisa que o mercado não enxergava. Lembrando que a pior situação é a incerteza, a perspectiva de que venha algo surpreendente pela frente foi suficiente para transformar a euforia inicial em mau humor terminal.

Consequências

É a situação gerada que fez o índice S&P da bolsa americana oscilar 5,1% entre a máxima do dia, às 12h03min, e a mínima, às 16h10min. Essa queimada de largada do FED colocou boa parte dos BCs de países emergentes em uma grande “saia justa”.

Apesar da expectativa de uma desaceleração da economia mundial, a desvalorização das moedas desses países pode colocar uma pressão sobre as suas inflações — e isso não se verificará nas economias centrais. Observando o Banco Central do Brasil (BCB) em particular, foi solicitado a soltar uma nota de esclarecimento no próprio dia 3 de março.

Foi indicado que o BCB estava disposto a manter a trajetória de queda dos juros na reunião de março, que ocorre no mesmo dia da reunião do FED, por coincidência. No entanto, afastou a possibilidade de seguir o BC americano e convocar uma reunião extraordinária para fazer esse movimento.

Além disso, o fato posterior da moeda brasileira, na esteira do medo fomentado pelo FED, faz com que a decisão de reduzir os juros começasse a ser colocada em dúvida, ainda que parecesse tranquila.

Usando o mercado como barômetro, no dia 4 de março, os juros futuros indicavam uma probabilidade de 11% do corte ser de 0,5 ponto percentual. Atualmente, temos que a chance de 0,25 ponto percentual está em 84%.

Desvalorização do real

Houve a perda de 3% do valor da moeda brasileira no mesmo período. Se com o dólar a R$4,50, a maior preocupação era o efeito deflacionário da perda de dinamismo da economia, a R$4,64, o impacto inflacionário da desvalorização cambial sobre a inflação precisa ser considerado. Então, o que deve ser feito?

Usando o FED como padrão, se o mercado começa a achar que um corte de 0,25 ponto percentual seria razoável, o BCB deveria aproveitar e seguir o que está no preço para reduzir o impacto da sua decisão sobre os preços. Isso deveria ser feito mesmo que o BC americano venha a reduzir os juros novamente em 0,5 ponto percentual, como esperado.

Além de limitar a volatilidade, a decisão do BCB, mais conservadora que a do FED, poderia ter até um impacto positivo sobre o preço da moeda brasileira. Afinal, em termos relativos, a política monetária por aqui estaria mais apertada do que nos Estados Unidos.

As previsões para os períodos seguintes

A famosa frase do filósofo Sócrates “só sei que nada sei” parece perfeita para o momento atual, mas é importante fazer a análise. O primeiro ponto a salientar é que, apesar de considerarmos tudo exagerado nessa questão do coronavírus, temos que respeitar os movimentos do mercado.

Isso significa dizer que apenas algum evento externo, como a descoberta de uma vacina e/ou a estabilização no número de casos fora da China, poderá trazer de volta o mercado à racionalidade. Enquanto isso, tentar acertar o movimento será caminho aberto para perder dinheiro.

O segundo ponto importante é que, com o FED queimando a largada, devemos ter uma rodada de redução dos juros no mundo. O Brasil está incluído. Porém, se isso pode ser relevante lá na frente, por enquanto, deverá ser inútil para dar sustentação ao mercado.

Finalizando, como diria o samba enredo da União da Ilha do Governador de 1978, “como será o amanhã, responda quem puder”. Nos próximos dias, poderemos desvendar aos poucos os resultados e chegar a conclusões mais apropriadas.

E você, tem alguma ideia do que deverá ocorrer nos próximos meses? Deixe seu comentário!

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