Radar da Economia: Dificuldades da economia: 3 decisões a considerar

No Radar da Economia “O mercado e suas incertezas”, foram feitas duas profecias: “nada é tão ruim que não possa piorar” e “como será o amanhã, responda quem puder”. Infelizmente, elas se confirmaram.

Os números são mais convincentes do que as palavras. Do fechamento do dia 6 de março de 2020 até o dia 12 do mesmo mês, o índice S&P da bolsa americana caiu 16,6%. Por sua vez, o Ibovespa teve uma queda de 26% e o dólar se valorizou em 3,7% frente ao real. No pior cenário, chegou a operar acima de R$5,00, alta de quase 9%.

Além disso, a bolsa brasileira pode até pedir música no Fantástico depois de paralisar quatro vezes o pregão com o acionamento do circuit breaker — dois deles apenas no dia 12 de março. Mais além, também tivemos decisões que colocaram a crise em outro patamar, tanto no âmbito interno quanto no externo.

Por tudo isso, vamos usar este Radar da Economia para fazer uma atualização do problema e tentar inferir qual seria a melhor forma de mitigar os efeitos econômicos no crescimento brasileiro e mundial.

A primeira decisão: Arábia Saudita

Na semana passada, o grupo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo + (OPEP+) se reuniu para montar um plano de redução coordenada da produção das nações. A associação engloba a Rússia, além dos países tradicionais do cartel petrolífero.

O objetivo da iniciativa foi fazer frente à esperada redução da demanda decorrente dos impactos do coronavírus sobre a economia mundial. A notícia da falta de um acordo já havia sido um mau sinal para o mercado no dia 6 de março. Entretanto, o pior ainda estava por vir.

No dia 9 de março, a Arábia Saudita decidiu, de forma unilateral, aumentar a produção em até 3 milhões de barris a partir de abril. Ainda optou por dar descontos nos preços. O motivo foi uma retaliação à Rússia pela falta de um acordo.

O país de Vladimir Putin, por sua vez, avisou que também aumentaria a sua produção. Ou seja, de uma hora para outra, o mercado aumentou a sobreoferta. Se antes o excedente era de aproximadamente 1,5 milhão de barris, depois passou a contar com mais do que o dobro do produto.

Como consequência, apenas no dia 9 de março, o preço da commodity caiu 24%. Essa foi a maior queda diária desde a Guerra do Golfo, em 1991. O problema, aqui, nem é a queda em si, mas as consequências que poderia ter acarretado sobre as empresas de óleo e gás, especialmente nos Estados Unidos.

Efeitos

Com o petróleo em aproximadamente 30 dólares o barril, a indústria de shale gas americano se torna inviável e pode levar várias empresas do setor à falência. O medo foi o primeiro passo rumo ao pânico instalado nos mercados ao longo da semana.

O que esperar sobre esse assunto daqui para a frente? Em princípio, a racionalidade econômica diria que a expectativa é ter um acordo entre Rússia e Arábia Saudita em um prazo curto, uma vez que ninguém espera que se rasgue dinheiro.

Entretanto, a Rússia tem interesses geopolíticos relevantes e espaço econômico suficiente para levar essa guerra de preços durante algum tempo. Enquanto isso, a Arábia Saudita parece reagir mais com o “fígado” do que com o cérebro sempre que desafiada.

Apesar de não ter condições de entrar na batalha, pode tomar essa decisão — basta lembrar do assassinato do dissidente político Jamal Kashoggi na embaixada saudita na Turquia. Em outras palavras, não devemos esperar uma solução para o problema em curto prazo.

A segunda decisão: os Estados Unidos

Na sequência, tivemos a decisão de Donald Trump de proibir todos os voos entre os Estados Unidos e a Europa, com exceção do Reino Unido. Antes disso, o mercado já havia sido atingido pela notícia de que o governo da Itália teria decretado quarentena em todo o território ao redor da região de Milão, o que mais tarde foi ampliado para todo o país.

Então, por que um impacto tão grande referente à decisão de Trump? Existem alguns pontos a considerar.

Situação italiana

Para a Itália, a situação já estava em um estágio avançado de proliferação do vírus. Com isso, a notícia já era, de certa forma, esperada. Além disso, apenas oficializou uma situação já ocorrida na prática.

Situação americana

Por sua vez, a decisão americana foi totalmente inesperada e o golpe de misericórdia em qualquer esperança de que a economia mundial pudesse evitar uma recessão. Aqui, é necessário abrir um mea culpa.

No Radar da Economia “O mercado e suas incertezas” fizemos a consideração: “Afinal, ninguém espera que a ilha de Manhattan seja fechada para conter a proliferação do coronavírus, como foi feito em Wuhan”. Bom, Trump resolveu fechar os Estados Unidos.

A consequência dessa notícia foi vista no dia 12 de março, quando os mercados internacionais simplesmente derreteram. Além de ser vista como uma medida extrema, frustrou o mercado, que esperava o anúncio de algo para ajudar a economia, não atrapalhar.

Ao longo da semana, podemos ter novidades com relação a um pacote de estímulos gestado no Congresso americano, que pode ter um impacto positivo sobre os mercados. Para falar a verdade, boa parte dos governos já está fazendo a “coisa certa” para acalmar os mercados. Isso significa que estão sendo fornecidas:

  • liquidez de curto prazo, para dar um colchão ao sistema em caso de problemas de crédito das empresas;
  • linhas de capital de giro, a fim de que as companhias consigam passar pelos meses de redução das receitas, seja por diminuição das demandas, seja por problemas de oferta de matérias-primas para a produção.

Terceira decisão: o Brasil

O mercado apresentou melhoria em sua abertura, no dia 13 de março. Isso nos leva à atuação do governo brasileiro e ao que deve ser esperado na reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) que ocorrerá nos dias 17 e 18 de março de 2020.

Para fazer essa análise, temos que reconhecer que a situação atual é uma tempestade perfeita. Ela concentra, ao mesmo tempo, um choque de demanda e um de oferta. Para piorar, o primeiro não se refere a um problema combatido por meio de “preço”, ou seja, juros.

Nesse caso, o impacto direto do coronavírus não é sobre a renda — até será, mas isso será um efeito de segunda ordem. O efeito é mais sobre a intenção dos compradores em consumir. Ou seja, os gastos vão diminuir, não por causa da renda, mas por haver menor circulação de pessoas.

Por sua vez, no caso do choque de oferta, existe a chance de uma interrupção temporária da produção por falta de matérias-primas. Essa é uma consequência da desarticulação das cadeias mundiais de suprimento.

Amenização dos problemas

As medidas para minimizar esses problemas, em situações normais, ocorreriam normalmente nos campos monetário, fiscal e parafiscal. Contudo, o Brasil não é para principiante, como diria o maestro Tom Jobim.

Insatisfeitos com a crise externa, resolvemos arrumar uma por aqui mesmo. Enquanto se discutia a questão do coronavírus, o Congresso derrubou o veto do presidente Jair Bolsonaro ao projeto que alterava o nível a partir do qual se teria acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Segundo técnicos do governo, a decisão do Congresso representa um custo adicional de R$20 bilhões ao ano. Mais do que o montante, que representa 27% do que será poupado com a Reforma da Previdência, a preocupação é maior com a sinalização de que a âncora fiscal não é tão firme assim.

A âncora fiscal se baseava na hipótese de que o Congresso estava alinhado à agenda reformista de Paulo Guedes. A consequência dessa “novidade” foi que tanto o espaço fiscal quanto o monetário ficaram limitados. De resto, ficou o parafiscal.

Projeções

A nossa previsão de que o Banco Central do Brasil (BCB) vai reduzir novamente os juros em 0,25 ponto percentual deixa de ser tão importante quanto a projeção de fazer uma nova rodada de liberação dos compulsórios. A hipótese já era considerada desde o dia 6 de março.

Naquele momento, o diretor de Política Monetária, Bruno Serra, ressaltou que o BCB tinha R$380 bilhões em depósitos compulsórios. Eles poderiam ser usados para dar liquidez ao sistema bancário.

Por sua vez, no caso das medidas parafiscais, Paulo Guedes já comentou que os bancos públicos ou com ativos do governo — Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) — teriam algo ao redor de R$200 bilhões para linhas emergenciais. Como citado antes, o momento agora é de dar condições para as empresas passarem por um período de redução de receitas.

Da mesma forma, o mercado precisa absorver as possíveis perdas com o crescimento da inadimplência. Mesmo com essas medidas e a expectativa de uma recuperação da economia mundial no 2º semestre, a elevação no ano já está comprometida.

Ainda não vamos mudar a nossa projeção de 2% de crescimento, porque estamos esperando os dados de confiança da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que serão divulgados em breve. Entretanto, adiantamos que, se por um lado não esperamos dois trimestres seguidos de Produto Interno Bruto (PIB) negativo no Brasil, também não acreditamos que o crescimento em 2020 deve ficar acima de 1,5%.

Em outras palavras, a expectativa não é de uma recessão técnica, categorizada por dois trimestres de PIB negativos. Ainda assim, a previsão deve ficar abaixo do projetado no início do ano. Veja:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,2% em 2020 e 3,75% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,37 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 4% em 2020 e 5,5% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, 2% em 2020 e 2,8% em 2021.

Quando essa confusão vai acabar? Difícil dizer, mas podemos ter uma ideia de até qual momento devemos esperar notícias negativas. Usando o que aconteceu na China e fazendo a simulação para outros países, inclusive o Brasil, podemos dizer que a estabilização ocorreria entre o início de abril (Coreia do Sul) e de maio (Brasil). Esse é o cenário otimista.

Assim, se considerarmos que, por esses cálculos, a Itália só chegaria a esse ponto na segunda semana de abril e os Estados Unidos na terceira, não devemos esperar a redução da volatilidade em curto prazo. A exceção seria no caso da notícia de um avanço considerável na produção de alguma vacina contra o vírus.

Achou interessante esta análise? Compartilhe o conteúdo nas suas redes sociais e debata com outras pessoas quais são as perspectivas para 2020.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.