Radar da Economia: COVID-19 e quarentena: quais serão os impactos na economia?

A probabilidade do que já estava ruim piorar ainda mais parece ter atingido novos patamares na crise gerada pelo COVID-19. Durante boa parte da semana encerrada no dia 20 de março de 2020, foi verificado o derretimento dos ativos e a sensação de que o poço não tinha fundo.

Entretanto, parece que já surge uma luz no fim do túnel. As medidas divulgadas pelos diversos governos do mundo estão cada vez mais concentradas em políticas fiscais e liberação do crédito. Consideramos a abordagem correta, tanto é que já surgem notícias de que um remédio contra a doença pode surgir a qualquer momento.

Enquanto isso, os países radicalizam nas medidas de isolamento para conter o vírus. Sem dúvida, isso colocará o mundo em recessão. Por outro lado, ajuda a conter o avanço da doença. Uma coisa é fato: há muitas informações e poucas certezas.

Portanto, vamos usar este Radar da Economia para avaliar como ocorre o desenvolvimento do COVID-19 no Brasil, haja vista os acontecimentos nos outros países. Ainda abordaremos as opiniões sobre as medidas tomadas pelo governo brasileiro e o impacto esperado dessa doença sobre a economia brasileira. Acompanhe!

O crescimento esperado do coronavírus no Brasil

Para começar a conversa sobre quais cenários vislumbramos para o crescimento do COVID-19 no Brasil, é preciso observar o que ocorreu em outros países. Por isso, vamos comparar o caso de sucesso da Coreia do Sul e o caos estabelecido na Itália.

Como é possível levantar questões de diferenças regionais e culturais entre os dois países, também vamos comparar duas cidades do Norte da Itália: Lodi e Bergamo. O motivo da escolha são seus comportamentos díspares, com resultados também diversos.

Com o objetivo de embasar a análise, usaremos o estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS) chamado de Projeção de Casos de Infecção por COVID-19 até 26 de março. Entenda as projeções do levantamento e as comparações.

Coreia do Sul x Itália

Após o surgimento do COVID-19 na China, o país que mais preocupava no mundo era a Coreia do Sul. Ao final de fevereiro, a nação já tinha 3.150 casos confirmados. No mesmo período, a Itália apresentava 888 pessoas infectadas.

Voltando para a situação atual, a Coreia do Sul chegou a 8.565 casos confirmados, com 1.947 pacientes recuperados e 91 mortes. Por outro lado, a Itálica atingiu 41.035 confirmações, com 4.440 pacientes recuperados e 3.405 mortes.

Em outras palavras, enquanto temos 6.527 casos ativos na Coreia do Sul, o número chega a 33.230 na Itália. O que explica essa diferença? Segundo vários estudos, a resposta está na forma como cada país tratou o evento. Enquanto o país asiático implementou políticas de isolamento no início da pandemia, o outro demorou muito mais tempo para adotar as restrições.

Por exemplo, na Coreia do Sul, a recomendação para que as pessoas evitassem sair de caso foi feita em 20 de fevereiro, quando o número de pessoas infectadas foi de 51 para 104. No país europeu, a primeira medida só foi tomada em 4 de março e se restringiu ao fechamento de escolas e universidades. Nessa data, a quantidade de casos já chegava a 2.502.

Diferenças entre as cidades italianas

Até aqui, apesar da visibilidade dos números, sempre podemos dizer que diferenças culturais e geográficas podem ter facilitado o sucesso das medidas coreanas para a contenção da doença. Entretanto, o argumento não se sustenta quando comparamos a trajetória de duas cidades italianas: Lodi e Bergamo.

Ambas estão no Norte da Itália e são separadas por 44 km. Portanto, é difícil haver diferenças culturais e geográficas marcantes. O que muda, então? A questão básica nesse caso é a ação antecipada.

Enquanto Lodi foi a primeira cidade italiana a adotar a quarentena, ainda em 23 de fevereiro, o governo de Bergamo só tomou a decisão em 8 de março. Assim, os números reforçam a ideia de que medidas restritivas ajudam no controle da doença.

Com isso, até 20 de março de 2020, Lodi apresentava cerca de 1.300 casos de coronavírus, enquanto Bergamo já alcançava 3.500 ocorrências. Apesar da disparidade, em 7 de março, ambas as cidades estavam com 800 pessoas infectadas.

Situação brasileira

Com a comparação entre a Coreia do Sul e a Itália, é possível analisar se o Brasil está no caminho mais próximo do controle da doença ou se estamos rumando ao descontrole. O estudo já citado usa a evolução do COVID-19 em oito países para simular cenários para o comportamento da doença no nosso País. As nações usadas como base são:

  • Irã;
  • Itália;
  • Coreia do Sul;
  • Espanha;
  • França;
  • Alemanha;
  • China;
  • Estados Unidos.

A partir da análise desses países, são traçados três cenários para a evolução do coronavírus até o dia 26 de março. No viés pessimista, essa data terá 4.970 casos confirmados. No médio, chegará a 3.750. No otimista, serão registrados 2.314 infectados.

Comparando essas curvas com as simulações por países, notamos que o caso médio seria o italiano, enquanto o otimista é o coreano. A boa notícia é que o Brasil está, segundo o modelo, seguindo o padrão coreano de evolução.

Para o dia 16 de março, primeiro dia de previsão do modelo, a evolução otimista indicava 228 casos. Tivemos 234 confirmados. No dia 17 de março, a projeção era de 319, mas tivemos 219. No dia 18 de março, os resultados eram de 414 esperados e 428 foram confirmados. No dia 19 de março, 601 projetados e 621 contaminados.

Portanto, ao que parece, estamos mais próximos de apresentarmos um padrão suave de evolução da doença, como a Coreia do Sul, do que um explosivo, de acordo com o que ocorreu com a Itália. Entretanto, para isso, teremos que perseverar na quarentena — e isso certamente terá um custo em termos de crescimento econômico.

Os efeitos da quarentena na economia

As políticas de confinamento que estamos vendo em cidades importantes do País — como São Paulo e Rio de Janeiro — e no território do Distrito Federal não tem precedentes na história. Isso implica a dificuldade de acharmos parâmetros para projetar o que acontecerá no que se refere à perda de crescimento.

Por isso, temos que escolher alguns critérios para delimitar as opções. No caso da duração, vamos observar o que aconteceu na China, onde as medidas mais duras de quarentena começaram no início de fevereiro e a retomada da atividade em março. Os dados indicam que até o final deste mês a produção já tenha voltado ao normal.

Vindo para o Brasil, podemos considerar que os meses mais afetados serão março e abril. O impacto maior será nos números do primeiro e, principalmente, do segundo trimestre. Com a divulgação do Índice de Confiança da Indústria (ICI), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), já temos a possibilidade de fazer uma primeira previsão para o 1º trimestre.

Expectativas

A queda deve ser de 0,2% em relação ao 4º trimestre de 2019. Para o 2º trimestre, a situação é mais complicada. Porém, é possível remediar. Para isso, pensamos em usar a situação recente mais próxima que tivemos de restrições ao movimento de bens e pessoas: a greve dos caminhoneiros de 2017.

Obviamente, é impossível fazer uma comparação direta devido à dimensão material e temporal do que ocorre agora. No entanto, extrapolando o que ocorreu durante uma semana para o mês e adicionando um “sal” nos resultados, chegamos à redução de aproximadamente 1% para o 2º trimestre.

Isso depende de até quando a paralisação da economia continuará. Se for além de abril, a queda será acima disso. Daí para frente, escuridão total. Além de tentar adivinhar até quando vai a interrupção das atividades, temos que inferir se as medidas tomadas até agora darão resultado.

Medidas adotadas

As medidas que tentam sustentar a renda dos trabalhadores são as mais divulgadas, mas são as voltadas para as empresas que têm mais chance de minimizar o impacto do COVID-19 na economia. Entre elas, os principais destaques são:

  • linhas de crédito anunciadas pela Caixa Econômica Federal;
  • carência de 60 dias para os empréstimos de pessoas físicas e jurídicas, inclusive financiamento imobiliário;
  • medidas de afrouxamento de regras prudenciais divulgadas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Manter a renda é importante, até mesmo pelo ponto de vista social e humanitário. Mas a única maneira dos problemas não se agravarem é evitar uma quebradeira geral das companhias.

Redução de juros do Copom

O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou no dia 18 de março a queda da taxa Selic de 4,25% para 3,75%. A iniciativa seguiu as indicações de outras taxas ao redor do mundo. Muito se discutiu e o debate continua.

Uns dizem que a tática foi conservadora demais. Os motivos principais para essa justificativa foram a questão do corte dos juros serem menores do que o mercado esperava e o comunicado pós-reunião, que contava com a informação de que o Banco Central (BCB) estava satisfeito com esse nível das taxas:

O Copom entende que a atual conjuntura prescreve cautela na condução da política monetária, e neste momento vê como adequada a manutenção da taxa Selic em seu novo patamar. No entanto, o Comitê reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e novas informações sobre a conjuntura econômica serão essenciais para definir seus próximos passos. (grifo nosso)

No nosso entendimento, isso é perda de tempo. Primeiro porque 0,25 ponto percentual para cima ou para baixo faz pouca diferença agora. Talvez o BCB tenha até preferido guardar munição para outra oportunidade.

Além disso, a expressão grifada no comunicado acima mostra claramente que as iniciativas para novos cortes não foram fechadas. Com isso, acreditamos que isso acontecerá na reunião de maio.

Aproveitando a expressão “neste momento” do BCB, acreditamos que o mais efetivo será continuar a liberar compulsórios para manter a liquidez do sistema e afrouxar as métricas regulatórias para facilitar a renegociação do crédito.

As expectativas para o restante de 2020

A abundância de medidas que vêm sendo adotadas e a dificuldade em avaliar sua efetividade se reflete na complexidade de prever o que ocorrerá com a economia brasileira a partir do 2º trimestre. Para evitarmos a taxação de pessimistas e de otimistas, projetamos uma ligeira recuperação para o período, com uma média de crescimento de 0,2%.

Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB) de todo o ano é levado para 0%. Com isso, o carrego estatístico também é zerado para 2021 e a projeção para esse ano é diminuída de 2,8% para 2%. Veja os resultados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 2,8% em 2020 e 3,3% em 2021;
  • Câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,21 em 2020 e R$ 4,35 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 3,5% em 2020 e 5% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, 0% em 2020 e 2% em 2021.

Gandhi dizia: “o futuro dependerá daquilo que fazemos no presente”. Portanto, ao mesmo tempo em que a quarentena se mostrou a maneira mais eficaz de conter a disseminação do COVID-19, as medidas de contenção de danos para os consumidores e, principalmente, para as empresas serão determinantes para evitar o naufrágio da economia nos próximos meses.

Aparentemente, o Brasil está na direção certa. Por um lado, se essa é uma boa notícia, por outro indica que ainda veremos um crescimento do número de casos e de mortes, pelo menos, até o final de abril. No mais, “cada dia com a sua agonia”, porque a volatilidade ainda vai demorar para sumir.

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