Radar da Economia : Previsões para a economia diante da disseminação da COVID-19

Os aspectos relacionados à COVID-19 continuam a ser o principal assunto de qualquer texto econômico. Com o desenrolar da pandemia, tanto ao redor do mundo quanto no Brasil, já é possível começar os cálculos a respeito dos seus impactos sobre a economia brasileira.

Esse é o assunto que será discutido neste Radar da Economia. Mostraremos como estão as projeções sobre a disseminação da doença no país e revisaremos as previsões para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2020 e 2021. Acompanhe!

A economia mundial em tempos de COVID-19

Após um período de notícias negativas, as informações sobre a disseminação da COVID-19 ao redor do mundo se tornaram mais equilibradas. Apesar do crescimento contínuo de novos casos nos Estados Unidos — novo epicentro da pandemia —, é possível começar a ver certa estabilização na Europa.

Com isso, a questão do afrouxamento do isolamento social deixou de ser apenas uma discussão teórica. Vários países europeus já estão implementando a ideia. Alguns exemplos são:

  • Alemanha;
  • Dinamarca;
  • Áustria;
  • Espanha;
  • Itália.

Os dois últimos, inclusive, foram os mais atingidos, mas já visualizam um período de calmaria. Mesmo nos Estados Unidos, que ainda está na fase exponencial do crescimento da doença, já se discute sobre como sair do isolamento social com base no programa de três fases divulgado pelo presidente Donald Trump no dia 16 de abril de 2020.

Por fim, as notícias de que alguns remédios mostram resultados promissores para o controle da doença trazem certo otimismo aos mercados. Uma prova disso é que, nas duas primeiras semanas de abril, os resultados líquidos dos ativos foram positivos e a volatilidade foi reduzida.

Variação dos números

Para confirmar essa afirmação, vamos observar o índice de volatilidade do Standard & Poor’s (S&P), o VIX. Ele mostra uma redução contínua desde metade de março de 2020 e passou de 74,64 pontos no período encerrado em 20 de março para 39,60 pontos de média na semana terminada em 17 de abril.

Talvez uma maneira mais intuitiva de ver a mesma questão é comparar as diferenças entre a maior queda e a alta mais expressiva do S&P. Na semana de 20 de março, o recuo chegou a 12%, enquanto a elevação atingiu 6%. Ou seja, uma divergência de 18 pontos percentuais. Por sua vez, na semana encerrada em 17 de abril, a variação foi de apenas 4 pontos percentuais.

Nesse momento, é vislumbrado o fim do isolamento social. Ao mesmo tempo, os dados da economia chinesa parecem ser um indicador antecedente do que acontecerá nas demais economias. Assim, abre-se a possibilidade de fazer cálculos. Isso porque os ativos ficam mais próximos de uma precificação justa, em vez de um “achismo”. Portanto, há menor redução dos preços.

Os resultados do Brasil em relação à COVID-19

A mesma ideia já apresentada vale para o Brasil. Fazendo a mesma comparação realizada para o S&P, percebemos que a diferença entre a maior queda (14%) e a maior alta (4,9%) na semana de 20 de março foi de aproximadamente 19 pontos percentuais. Na semana de 17 de abril, chegou a apenas 3 pontos percentuais.

A questão é: como estamos em relação à curva de disseminação da COVID-19? O primeiro ponto a considerar é a subnotificação e seu impacto sobre a perspectiva de afrouxamento das medidas de isolamento social.

Estudos dos grupos Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS) e COVID-19 Brasil mostram que, ao contrário dos atuais 30.246 casos, o Brasil teria cerca de 300.000 infectados. Para chegar a esses resultados, as pesquisas usaram a Coreia do Sul como comparação.

Por que esse país? Porque lá foi realizada a maior testagem proporcional à população. A partir daí, foi percebida a taxa de mortalidade da Coreia do Sul e feito o cálculo reverso por aqui. Por isso, se a taxa de mortalidade na Coreia do Sul foi X e temos Y de número de mortos, é possível saber qual seria o total de casos compatível com a razão entre essas duas observações.

Realmente, o número chama a atenção e tem um impacto relevante sobre a expectativa de colapso do sistema de saúde. Entretanto, se pensarmos em início do afrouxamento do isolamento social como uma função da “forma” da curva de disseminação, e não da quantidade de infectados, faz pouca diferença ter 30.000 ou 300.000 casos. O motivo é que há apenas um deslocamento para cima da curva, sem que haja uma alteração na sua forma.

A economia brasileira em tempos de COVID-19

Entramos na discussão apresentada até aqui para mostrar que, apesar da clara subnotificação dos casos no Brasil, o acompanhamento da forma como a progressão dos casos ocorre continua válida. Com essa ressalva, percebemos que a trajetória de novos infectados está compatível com a nossa projeção.

Acreditamos que o momento de estabilização da curva de contágio, primeiro sinal para começar o afrouxamento do isolamento social, deverá ocorrer na virada de abril para maio. Mostramos essa previsão no gráfico a seguir.

<<COLOCAR GRÁFICO 1>>

Na perspectiva de fim do isolamento social, vale abrir a possibilidade de fazer cálculos também vale para o Brasil. Ainda que com muita incerteza, começamos a pensar em uma estratégia para prever o impacto do isolamento social sobre a economia brasileira.

O primeiro trimestre já será influenciado pela COVID-19. Apesar de só termos os números concretos de produção e vendas até fevereiro de 2020, os dados dos índices de confiança de março já foram divulgados. Pelo tamanho do impacto apresentado, calculamos que, nos três primeiros meses do ano, a economia brasileira encolheu por volta de 1% em relação aos últimos meses de 2019.

A parte mais complicada é prever o segundo trimestre. Além dos dados ainda estarem indisponíveis, a questão de quanto tempo vai durar o isolamento social será determinante para estimular o tamanho da retração. Pensando nisso, tentamos fazer uma projeção “dinâmica”.

Previsões para o segundo trimestre

Determinar o que seria um PIB “diário” e, a partir da estimativa de quantos dias durará o isolamento social, é a nossa ideia para projetar a perda potencial do período. Um ponto a se considerar é que esse relaxamento não acontecerá de modo uniforme nos estados nem será feito de um dia para outro.

Para o primeiro aspecto, usamos São Paulo como referência, principalmente devido ao peso da economia paulista sobre o PIB brasileiro. Em relação ao retorno, consideramos alguns cenários de percentual e seu resultado médio. Partindo desses pressupostos, projetamos uma queda ao redor de 9% para o PIB do 2º trimestre, quando comparado ao anterior.

Entretanto, devemos admitir que esse número tem um forte viés de baixa, uma vez que leva em consideração o retorno das atividades em maio. No entanto, o governo de São Paulo já estendeu o isolamento até 10 de maio. Isso aumenta a probabilidade de nossa hipótese ser muito otimista.

Previsões para o terceiro trimestre

É ainda mais difícil determinar o que vai acontecer no terceiro trimestre. Primeiro, porque não sabemos qual é a queda do segundo trimestre, que influencia o resultado pelo efeito-base. Em segundo lugar, porque não temos parâmetros para inferir como será o comportamento da sociedade após o relaxamento do isolamento social.

No caso das fábricas, esperamos que tudo volte ao normal com rapidez, como ocorre na China. Porém, como estará o setor de serviços, que tem o maior peso na economia brasileira? Alguns questionamentos precisam ser feitos:

  • as pessoas voltarão a frequentar lugares fechados com a mesma naturalidade de antes?
  • a população viajará de avião?

Para a segunda questão, não temos resposta. Precisamos descobrir com o passar do tempo. Para a primeira, valeria uma interpretação “poética” do dito popular: “o PIB do terceiro trimestre será que nem bolinha de pingue-pongue. Quanto mais forte você jogar o PIB do segundo trimestre para baixo, mais rápido ele vai voltar”. Com essas duas considerações, projetamos que o PIB do terceiro trimestre apresentaria um crescimento de 7% em relação ao segundo trimestre.

Previsões para o quarto trimestre

Ter a economia normalizada no terceiro trimestre levaria a um crescimento de 0,6% para os últimos três meses do ano. Esse era o ritmo esperado para a média trimestral, em 2020 antes da pandemia. Assim, o PIB brasileiro fecharia o ano com uma queda de 4%. É importante ressaltar que todos os “SEs” listados anteriormente deixam essa previsão com um claro viés de baixa.

Previsões para 2021

Retornar ao crescimento mais forte no segundo semestre impacta a projeção de 2021. Considerando que a economia brasileira volte a crescer no ritmo anterior à crise e a diferença do carrego estatístico do cenário anterior, a consequência da alta gera uma projeção de crescimento de 3% do PIB em 2021.

Pode parecer uma previsão otimista, já que a economia brasileira não expande mais do que 1% ao ano desde a recessão de 2014/2015. No entanto, é importante notar que esse resultado nem chega a compensar as perdas de 2020. Assim, teríamos:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 2,5% em 2020 e 3,3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 para 2019, R$ 4,60 para 2020 e R$ 4,80 para 2021;
  • Selic: 4,5% para 2019, 3% em 2020 e 4,5% para 2021;
  • PIB: 1,1% para 2019, –4% para 2020 e 3% para 2021.

As certezas ainda são escassas e as dúvidas, abundantes. Porém, começamos a ter material para precificar as coisas, seja no mercado, seja na economia. Se isso ainda não recuperar o valor dos ativos e a receita perdida, pelo menos temos o condão de reduzir a volatilidade nos preços e nas projeções — e isso já ajuda muito.

O estrago já está feito e a hora agora é de tentar precificar a retomada. No entanto, isso só acontecerá com o relaxamento do isolamento social, que será resultado da estabilização da curva de disseminação da COVID-19. Daí a importância de acompanhar a evolução de novos casos no Brasil.

Se nossos cálculos estiverem corretos, a extensão do isolamento em São Paulo até o dia 10 de maio será a última desse período. Ainda vamos conferir. De resto, fica uma frase de Henry Ford, que serve de incentivo na atual conjuntura: “Quando estiver parecendo que tudo está indo contra você, lembre-se de que o avião decola com o vento contra, e não a favor dele”.

E você, concorda com essas previsões? Deixe seu comentário e destaque seus argumentos.

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