Radar da Economia: As movimentações políticas e as lições aprendidas

As questões locais continuaram a dar o tom dos movimentos no mercado, ao longo da semana finalizada em 1º de maio. A influência serviu tanto para o bem quanto para o mal. A temperatura subiu de maneira significativa em Brasília, ao ponto de nos esquecermos das notícias sobre a COVID-19.

Diante desse contexto, é preciso entender o porquê da montanha-russa dos ativos brasileiros registrada naqueles dias e quais são suas consequências. É o que vamos abordar neste Radar da Economia, além de atualizar o cenário brasileiro diante do novo coronavírus.

Quais são as atualizações sobre a COVID-19?

Foi uma boa ideia os mercados deixarem um pouco de lado as discussões sobre a COVID-19 para entenderem o que acontecia em Brasília. No exterior, as notícias eram positivas, com a estabilização da curva nos Estados Unidos e o afrouxamento do isolamento social em vários países da Europa. No entanto, aqui, não temos nada de reconfortante para noticiar.

No Radar da Economia Previsões para a economia diante da disseminação da COVID-19, atualizamos as projeções para a estabilização da curva e acreditávamos que isso poderia ocorrer na virada de abril para maio. Chegando à data, ainda estamos longe do equilíbrio esperado.

Como podemos ver no gráfico, a curva de casos no Brasil já ultrapassou o que o comportamento chinês indicaria. Além disso, tanto o nosso modelo polinomial (enviado todos os dias) quanto o do STUD Data-Driven Innovation Lab indicam que o pico da pandemia por aqui só deve ocorrer na virada de maio para junho.

Com isso, o governo de São Paulo já declarou que estenderá o isolamento social para além do dia 11 de maio, data da tentativa inicial para começar a flexibilização. O Rio de Janeiro também já prorrogou a sua para, pelo menos, o dia 11 de maio.

Como cada dia a mais significa menos crescimento, acreditamos que, se o mercado desviar o olho de Brasília e passar a projetar a recuperação da economia, o cenário visto será bastante negativo. Entretanto, em termos de crescimento, mantemos nossa projeção de retração do Produto Interno Bruto (PIB) de:

  • 1% no 1º trimestre;
  • 9% no 2º trimestre;
  • 4% no ano todo.

O que aconteceu em Brasília?

Os problemas políticos foram e voltaram nos últimos dias no Brasil, assim como um pêndulo. Após a saída de Sérgio Moro no dia 24 de abril, parecia que o mundo acabaria e o governo de Jair Bolsonaro terminaria antes da conclusão do mandato. Essa sensação continuou no dia 27 de abril, quando o dólar chegou a romper a barreira dos R$ 5,70.

A especulação era de que o processo de impeachment seria inevitável e que o próximo na lista de demissão seria o ministro da Economia, Paulo Guedes, fiador da política liberal do governo. A aproximação de Bolsonaro com o Centrão não ajudava a diminuir os temores de que Guedes estaria perdendo prestígio para a ala mais desenvolvimentista do ministério.

O medo era de que o aumento de gastos em 2020 fosse estendido para os próximos anos, o que inviabilizaria o teto dos gastos. Isso acabaria com a verdadeira âncora fiscal do governo.

A situação do dólar

O dólar é o “farol” dos problemas pela sua visibilidade. No entanto, até onde podemos ver de modo mais claro, a percepção de que a austeridade fiscal para além de 2020 estaria sob pressão está voltada para o mercado de juros. A “parte curta” da curva — ou seja, aquela precificada pela influência da política monetária — ainda se mantinha relativamente bem comportada.

Por outro lado, a “parte longa”, onde o que vale é o prêmio de risco e o medo do desarranjo fiscal pesa mais, as taxas subiram com força. Por exemplo, o índice de 5 anos, importante para o mercado de capitais, passou de 6,4% na abertura do dia 24 de abril para 7,65% no fechamento do dia 27 de abril.

Veja o que dissemos no Radar da Economia Os problemas da economia no mundo e no Brasil a respeito do voluntarismo nos gastos do governo:

Nesse cenário, mesmo que o BCB reduza as taxas básicas, isso não teria impacto sobre o crédito para as empresas. Isso porque a Selic é apenas um norte para o mercado, mas o que interessa mesmo é a formação das taxas na parte intermediária da curva. (…)

O resultado prático de uma redução dos juros, ao mesmo tempo em que o governo tenha que colocar mais títulos no mercado para se financiar, seria apenas de uma maior inclinação da curva.

Isso realmente aconteceu. No entanto, depois de dois dias tensos, os problemas aparentemente desapareceram a partir do dia 28 de abril. O primeiro ponto a ser destacado é que a sensação de fim de governo pareceu se dissipar, seja por uma moderação no discurso de Bolsonaro, seja pelas pesquisas de popularidade do presidente que afastavam a possibilidade de um processo de impeachment.

Nenhum presidente é retirado do poder com 30% de aprovação. Além disso, Guedes voltou à frente na articulação com o Congresso e o projeto de financiamento dos estados e municípios, acordado com o Senado, parece bem mais agradável para as contas públicas do que aquele aprovado na Câmara.

O resultado foram dois dias de valorização expressivas dos ativos brasileiros com a bolsa subindo mais 6% e o real valorizando mais de 5,5%. Voltando à curva de juros, a taxa de 5 anos voltou para 6,69%. Nada como uma racionalidade econômica para colocar “ordem na casa”.

Quais lições foram aprendidas com esse cenário?

Alguns ensinamentos precisam ficar claros nessa montanha-russa de emoções que ocorreram na última semana de abril. A primeira é que a volatilidade ainda é a marca dos mercados. Dois dias horríveis não significam o fim do mundo nem dois dias bons sinalizam o fim da crise.

A segunda lição é que não se brinca com a sustentabilidade fiscal, nem mesmo durante uma pandemia. No melhor exemplo “o que acontece em Vegas, fica em Vegas”, o mercado até aceita um aumento expressivo do rombo fiscal em 2020 para sustentar a economia durante a luta contra a COVID-19, mas não é inviável mexer no teto de gastos.

Tanto que no dia 29 de abril, o secretário do Tesouro, Mansueto de Almeida, admitiu que o déficit primário em 2020 poderia chegar a 8% do PIB, o que equivale a R$ 600 bilhões. O mercado nem tomou conhecimento dessa informação.

Isso significa que qualquer ideia de acabar com ele, flexibilizá-lo para não incluir os investimentos ou financiá-los via créditos extraordinários na intenção de burlar a restrição orçamentária terá efeitos negativos sobre os ativos brasileiros. A consequência é o contrário do desejado por seus formuladores.

Outro exemplo pode ser visto na perspectiva para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que acontece no próximo dia 6 de maio. Antes dessa confusão, o mercado precificava uma queda de, no mínimo, 0,75 ponto percentual. Agora a probabilidade de um corte desse tamanho ocorrer é de apenas 20%.

O terceiro aprendizado é que as incertezas associadas ao impacto da COVID-19 sobre a economia ainda são de tal grau que os preços dos ativos estão longe de refletir os fundamentos, tanto para o bem quanto para o mal. Isso ocorre apesar de já se vislumbrar uma luz no fim do túnel.

No caso do câmbio, por exemplo, os modelos indicam uma taxa ao redor de R$ 4,90 como sendo a justa. Porém, alguém apostaria em uma convergência rápida para esse patamar? Diante disso, veja as projeções deste Radar da Economia:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 2,3% em 2020 e 3,3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,90 em 2020 e R$ 5,10 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2,75% em 2020 e 3,5% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –4% em 2020 e 3% em 2021.

Os eventos da semana terminada em 1º de maio nos lembraram como é frágil a base de sustentação de qualquer movimento de melhoria dos ativos brasileiros nesse momento. Além das dúvidas inerentes ao comportamento da disseminação da COVID-19, o momento político não deve ajudar, como ocorreu com a nomeação do novo diretor-geral da Polícia Federal.

Em meio a esse turbilhão de dúvidas, o Banco Central vai decidir os juros na 4ª feira. Como já citado, as apostas de um corte mais ousado se esvaíram com o crescimento das dúvidas em relação ao futuro das contas públicas. Portanto, vamos reforçar nossa expectativa de que a taxa seja reduzida de 3,75% para 3,25% ao ano.

Por fim, apenas para fortalecer o perigo de achar que, de uma hora para outra, todas as nossas limitações orçamentárias acabaram, vamos usar a advertência de Jean François de Gondi, Cardeal de Retz no reinado de Luís XIV, da França: “A mais conhecida fonte de imprudência é a visão que se tem da possibilidade dos recursos”.

Diante desse contexto, como aplicar seu dinheiro? Conheça as melhores opções de investimentos a curto prazo em 2020 e saiba potencializar sua remuneração nesse cenário.

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