Radar da Economia: As expectativas pós-pandemia do coronavírus

A semana terminada em 8 de maio de 2020, foi pródiga em informações econômicas. Elas nos ajudam a projetar os movimentos econômicos do futuro, especialmente quando aliadas à derrocada da indústria, à deflação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e à surpreendente redução dos juros por parte do Banco Central (BC).

Essas situações nos levam a fazer projeções mais frequentes do que gostaríamos, inclusive devido às incertezas relacionadas aos desenrolar da COVID-19. Além disso, devemos advertir que estamos na parte ruim do movimento. Portanto, é mais provável que a correções deste Radar da Economia e dos próximos seja para pior.

Então, como deve ficar a situação do Brasil? Vamos discutir as previsões a partir dos acontecimentos da primeira semana de maio.

O comportamento da COVID-19 no Brasil

As previsões negativas estão bastante relacionadas ao comportamento da disseminação da COVID-19 no Brasil. Como destacamos no Radar da Economia da semana anterior (As movimentações políticas e as lições aprendidas), não existem chances de uma estabilização da curva de contágio no Brasil antes de junho.

Essa afirmação é válida tanto pelas projeções do modelo polinomial quanto pelo do STUD Data-Driven Innovation Lab. Atualizando o primeiro — que previa acertadamente que chegaríamos ao final da primeira semana de maio com 130.000 casos confirmados —, devemos chegar ao final da quinzena com 200.000 casos.

Portanto, salvo algumas decisão política, parece mais provável um agravamento das medidas de isolamento social, como já observamos no Maranhão, no Ceará e no Pará. Algum tipo de relaxamento geral está descartada. Considerando que cada dia de quarentena equivale a menos crescimento, há um bom motivo para sermos pessimistas em relação às atualizações referentes ao desempenho da economia.

O desempenho da economia em 2020

Um bom exemplo dos problemas do isolamento social para a economia foi a Pesquisa Mensal da Indústria (PIM), divulgada em 5 de março de 2020 pelo IBGE. A queda de 9,1% na comparação com fevereiro foi muito pior do que a redução de 3,7% esperada pelo mercado.

Apesar de ter como destaque a retração de mais de 20% da indústria automobilística, o colapso foi amplamente espalhado. A surpresa derivada do tamanho do erro da previsão é resultado do ineditismo pelo qual estamos passando.

Ao mesmo tempo que há aspectos de crises anteriores, é impossível classificar o evento em algum deles. Fazendo uma analogia biológica, estamos diante de uma “crise ornitorrinco”. Esse animal, habitante da Austrália, é um mamífero que bota ovo. Por isso, durante muito tempo foi discutido em que classe deveria estar.

No fim, ele foi enquadrado em um grupo dentro dos mamíferos, os monotremados. Essa classe também acolheu outro animal australiano a equidnas, que tem as mesmas características.

Voltando ao problema econômico, percebemos que a crise é como um ornitorrinco. Alguns especialistas tentaram comparar a situação atual com a crise financeira de 2008. Entretanto, apesar de poder gerar uma situação de risco em contrapartida, como ocorreu naquele momento, o evento agora não nasceu no sistema financeiro. Assim, toda a gama de instrumentos de combate precisa ser mais amplo.

Do mesmo modo, a comparação com uma guerra não é pertinente, porque não há destruição de capital físico. Portanto, os planos de recuperação devem ser pensados, mas possivelmente com um foco maior na reconstrução do capital humano — e isso é bastante diferente.

A situação do PIB revisada

A situação atual nos leva de volta às primeiras análises que fazíamos sobre essa crise: quando não existem parâmetros anteriores para balizar os modelos, estamos como em um barco no meio de uma tempestade sem bússola para guiar.

Por isso, o resultado da PIM de março serve para dar humildade aos economistas e a projetar o Produto Interno Bruto (PIB) do 1º trimestre. Sobre esse último ponto, tivemos uma revisão com base nos resultados.

Apesar do PIB desse segmento representar 18% do total, a probabilidade é que haja uma contração de 2% no 1º trimestre. Antes, a previsão era de uma redução de 0,2%. Com essa mudança, a projeção do PIB no período passou de uma queda de algo próximo de 1% para ao redor de 1,5%.

Por sua vez, o PIB de 2020 deve sair de uma retração de 4% para uma diminuição de 4,5%. Na segunda semana de maio, teremos os dados das Pesquisas Mensais do Comércio (PMC) e de Serviços (PMS), ambas de março. Nossas projeções preveem quedas de 10,8% e 9%, respectivamente. A depender desses resultados, novas revisões precisarão ser feitas para o PIB.

A inflação nesse cenário

Um reflexo do nível de atividade recessivo é verificado também na inflação. No dia 8 de maio de 2020, foi divulgado o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril. A deflação foi de 0,31%, apesar da alta de 1,79% no grupo Alimentação e Bebidas. Nesse último caso, a contribuição foi positiva de 0,35 ponto percentual.

Se não fosse isso, a redução seria de 0,66%. Ainda há outros itens que dependem de decisões governamentais que apresentam quedas expressivas. É o caso da gasolina, que chegou a diminuir 9,31%. Apesar disso, o impacto da recessão pode ser visto claramente em outros itens mais sensíveis à demanda. Entre eles:

  • mobiliário, com queda de 2,92%;
  • refrigerador, com diminuição de 4,43%;
  • fogão, com retração de 3,66%;
  • transporte por aplicativo, com redução de 4,5%;
  • aluguel de veículos, com queda de 9,63%.

Uma forma de ver essas questões de forma resumida é olhar a média dos núcleos. Eles apresentaram uma deflação de 0,03% em abril de 2020 e um acumulado de 2,43% em 12 meses. Com isso, a revisão da projeção da inflação para 2020 foi de 2,3% para 1,5%.

Lembremos de que a meta de inflação é de 4% para 2020 e de 3,75% para 2021, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Portanto, enquanto o crescimento for um problema, a inflação não o será, mesmo com a expressiva desvalorização cambial observada hoje.

A reunião do COPOM de maio de 2020

Ao contrário do que a ampla maioria do mercado esperava, o Banco Central foi mais agressivo na redução dos juros. Em vez da diminuição de 0,50 ponto percentual, derrubou a taxa em 0,75 ponto percentual. Com isso, a Selic foi de 3,75% ao ano para 3% ao ano.

Além disso, há duas informações que tornam essa decisão ainda mais dovish — termo que designa uma postura das autoridades de mercado quando opta por taxas de juros baixas e tolerância com a inflação. A primeira foi a de que o BCB espera cortar os juros mais uma vez na próxima reunião. Conforme o comunicado:

Para a próxima reunião, condicional ao cenário fiscal e à conjuntura econômica, o Comitê considera um último ajuste, não maior do que o atual, para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia da COVID-19.

A segunda foi a de que dois membros do colegiado levantaram a hipótese de dar todo o corte de uma vez só. Veja:

Dois membros do Comitê ponderaram que, mesmo com a possibilidade de elevação da taxa de juros estrutural, poderia ser oportuno prover todo o estímulo necessário de imediato, em conjunto com a sinalização de manutenção da taxa básica de juros pelos próximos meses, de modo a reduzir os riscos de não cumprimento da meta para a inflação de 2021.

Quando unimos as duas coisas com o que foi dito anteriormente, fica difícil ignorar a possibilidade de um corte de mais 0,75 ponto percentual na reunião de 17 de junho de 2020. Apesar de ter considerado duas forças em direções opostas, os riscos fiscais e o impacto econômico da COVID-19, o último aspecto deverá ser determinante por uma questão de calendário.

Enquanto a reunião de junho ocorrerá já com dados muito ruins de atividade, o grande perigo para a perspectiva fiscal de 2021 se materializará somente a partir de agosto. A partir disso, começará a discussão a respeito do orçamento de 2021.

A revisão dos dados

Para fazer uma avaliação, é preciso considerar os dados já existentes. As informações relativas à produção de veículos em abril, divulgadas pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram catastróficos.

A queda nas vendas foi de 76% e de 99,4% na produção, ambos em relação ao mesmo mês de 2019. Considerando que a fabricação de veículos tem um peso de, aproximadamente 15% na PIM, é possível imaginar o tamanho do susto do mercado com relação a esse dado de abril.

Portanto, unindo todos os fatores, acreditamos que um corte de 0,75 ponto percentual seja piso para a próxima reunião do COPOM, mesmo com o comprometimento de não ir além, conforme destacado no Comunicado. De mais a mais, como que em uma “maldição”, toda vez que o BCB indicou essa promessa, ele precisou rever seu posicionamento devido aos fatos apresentados.

Por isso, para o final de 2020, revisamos a taxa de juros de 3% ao ano para 2% ao ano, considerando que, mesmo que ele se mantenha firme em 0,75 ponto percentual na próxima reunião, daria mais 0,25 ponto percentual na reunião do COPOM de 5 de agosto.

Obviamente, esse movimento pressionaria ainda mais o câmbio. No entanto, ao que parece, não há preocupação com o seu resultado, principalmente nesse momento em que o repasse para a inflação é praticamente nula devido à recessão.

Portanto, não seria isso que o impediria de testar novos limites para o nível de juros. Veja como acreditamos que as projeções ficarão:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 para 2019, R$ 4,90 em 2020 e R$ 5,10 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –4,5% em 2020 e 3% em 2021.

Como o Brasil tem umas 3 ou 4 semanas de defasagem em relação à disseminação da pandemia nos países do hemisfério Norte, alguns impactos só aparecem agora para nós. Entre eles:

  • o susto com o crescimento exponencial de novos casos;
  • o medo da falta de estrutura hospitalar para evitar um colapso do sistema de saúde;
  • a urgência de regras mais rígidas para o isolamento social;
  • os números econômicos piores do que o esperado;
  • a necessidade de medidas robustas de afrouxamento monetário.

Em bom português, só agora “caiu a ficha” por aqui. Quando o primeiro espécimen empalhado do ornitorrinco foi levado da Austrália para a Inglaterra em 1798, acreditou-se que era fake news. Da mesma forma, apesar de todas as evidências sobre a COVID-19 vindas de fora, os impactos são subestimados por aqui.

O que nos resta é deixar de reclamar da sorte e correr atrás do prejuízo. Como dizia Winston Churchill: “A sorte não existe. Aquilo que chamamos de sorte é o cuidado com os pormenores”.

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