Radar da Economia: Os números negativos da economia e suas projeções futuras

Mais uma semana passou e as notícias ainda não são boas. As confusões políticas continuam a reduzir o preço dos ativos brasileiros. Os números da atividade batem recordes negativos — mesmo sendo referentes a março de 2020. Por fim, não há esperança de que a disseminação da COVID-19 no Brasil diminua no curto prazo.

Diante desse cenário, vamos usar este Radar da Economia para entender se os acontecimentos recentes alteraram, de alguma forma, as projeções para a economia brasileira daqui para a frente. Confira!

COVID-19

Começando pela “mãe” das confusões, a doença gerada pelo novo coronavírus ainda continua em crescimento exponencial de casos no Brasil. Mais uma vez, nosso modelo polinomial foi eficiente ao prever que a semana de 15 de maio terminaria com mais de 200 mil casos confirmados.

Certamente, esse dado está subestimado devido à baixa testagem da população. Ainda assim, é impossível considerar o achatamento da curva de disseminação no curto prazo. Para o final da semana finalizada em 22 de maio, o modelo indica que o número de casos deve chegar a 300 mil, ainda em trajetória exponencial.

Segundo o Barão de Itararé — pseudônimo do jornalista Apparício Torelly —, “de onde não se espera nada é que não vem nada mesmo”. Portanto, realmente não tínhamos muitas esperanças de notícias positivas sobre a COVID-19 no Brasil. Entretanto, a afirmação seria diferente em relação ao resto do mundo.

Com o início do achatamento da curva nos Estados Unidos e o afrouxamento do isolamento social em vários países da Europa, a expectativa era de que as notícias boas fossem mais frequentes do que as más. Infelizmente, foi diferente do que aconteceu. Entre os fatores que inverteram a lógica das expectativas iniciais estão:

  • brigas entre alguns governadores de estados americanos e as autoridades federais de saúde;
  • atitude de Donald Trump — de olho nas eleições do final de 2020 —, de “tocar a harpa e ver Roma pegar fogo”, como um Nero do século 21;
  • medo de uma segunda onda de contaminação, com novos casos surgindo na Coreia do Sul, China e Alemanha.

De qualquer maneira, continuamos a acreditar em um fluxo de notícias sobre a COVID-19 mais positiva do que negativa nos próximos dias.

Resultados econômicos

As situações negativas também devem ser esperadas no que se refere aos resultados econômicos. Os dados de março de 2020 são divulgados e os números são poucos animadores — ainda que apenas parte do mês tenha sido afetada diretamente pelo isolamento social.

As notícias vinculadas às divulgações das Pesquisas Mensais de Serviços (PMS) e do Comércio (PMC), e do IBC–BR vieram sempre associadas à adjetivação “o pior da série histórica”.

Pegando o último indicador como síntese do que aconteceu em março, a queda de 5,9% foi a “pior da série histórica” e confirma a projeção de queda de 1,5% para o Produto Interno Bruto (PIB) no 1º trimestre de 2020, quando comparado ao 4º trimestre de 2019.

Comparada à queda de 3,8% na Zona do Euro, o índice pode até parecer positivo. No entanto, devemos lembrar de que os europeus estão um mês na nossa frente no que se refere ao isolamento social.

Os norte-americanos, no qual essa “vantagem” é de aproximadamente duas semanas, apresentaram uma retração de 1,2%. É importante destacar que esse número foi anualizado. Portanto, o oficialmente divulgado foi de 4,8%.

De qualquer maneira, como ficou provado pelo resultado da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), divulgado na semana terminada em 15 de maio, a situação mais crítica ocorrerá no 2º trimestre. Seu resultado vai depender, quase que exclusivamente, dos cenários traçados para a evolução da pandemia e, por consequência, da flexibilização das medidas de isolamento social no Brasil.

Projeções para o Brasil

A nossa projeção de queda de 9,5% com relação ao 1º trimestre considera uma flexibilização em boa parte do Brasil a partir de 31 de maio. Entretanto, pelo que já falamos anteriormente e pelas notícias vindas do Rio de Janeiro e São Paulo, parece mais fácil seu endurecimento do que seu alívio.

Portanto, decidimos fazer mais dois cenários possíveis para o início da flexibilização. Nesse caso, consideramos as datas de 15 e 30 de junho. Em termos de metodologia, continuamos a considerar o PIB regional e as perdas diárias em termos de crescimento em cada região para chegar ao resultado.

Como prevemos a queda de 1,5% no 1º trimestre e de 9,5% no 2º trimestre, o PIB de 2020 recuaria 4,5%. Assim, vamos começar a simular a perda de crescimento com outras datas de fim de isolamento social. Acompanhe as previsões.

Fim do isolamento em 15 de junho

O início da flexibilização em 15 de junho, em vez de 31 de maio, levaria a uma queda estimada do PIB no 2º trimestre de 11,5%, quando comparado ao 1º trimestre. Com isso, a contratação do Produto Interno Bruto em 2020 chegaria a 6%.

Fim do isolamento em 30 de junho

O isolamento social até o final de junho geraria uma queda no PIB do 2º trimestre de 15%, com o índice do ano em retração de 9%.

Nessas simulações, mantivemos as projeções para o 2º semestre, no qual prevemos um crescimento médio de 3,8%. Assim, a expectativa de crescimento de 3% para 2021 permaneceu.

Além disso, unindo as informações da disseminação da COVID-19 ao impacto do isolamento social sobre a economia, acreditamos que a extensão até o final de junho não é politicamente sustentável, assim como o afrouxamento no dia 31 de maio não terá respaldo nas curvas de contágio.

Portanto, nosso cenário básico passa a ser que a economia volte ao “normal” a partir de 15 de junho, com a nossa projeção para o crescimento do ano passando de uma queda de 4,5% para uma retração de 6%. Assim, o PIB em 2021 é mantido em 3%.

Atuação do Banco Central

Nesse contexto de mais tempo de isolamento social e crescimento fraco, tivemos a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM). Mesmo sem trazer motivos para alterarmos nossa projeção de que os juros vão cair para 2% ao ano, o texto trouxe informações interessantes sobre o que deve ser feito pelo BCB.

O primeiro ponto a ressaltar é a discussão da existência de um “piso” para a taxa básica de juros no Brasil. Enquanto um dos participantes do colegiado acredita que não deve haver, a maioria parte da hipótese que sim. Veja o informe:

O Comitê então discutiu a potencial existência de um limite efetivo mínimo para a taxa básica de juros brasileira. A maioria dos membros ponderou que o limite seria significativamente maior em economias emergentes do que em países desenvolvidos, devido à presença de um prêmio de risco. Foi ressaltado que esse prêmio tende a ser maior no Brasil, dadas a sua relativa fragilidade fiscal e as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva. Nesse contexto, já estaríamos próximos do nível onde reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos mercados financeiros e nos preços de ativos. Por outro lado, um membro argumentou que, em princípio, não há razão para a existência de tal limite mínimo operacional, já que os tradicionais canais da política monetária continuariam operantes, sem descontinuidades, embora, possivelmente, com um aumento do efeito de variações da taxa de juros básica sobre os preços de ativos financeiros.

Como concordamos com a ideia de que um prêmio de risco realmente coloca um piso para a taxa de juros brasileira acima daquela dos países desenvolvidos, não acreditamos que o patamar dos juros nominais no Brasil possa se aproximar de níveis próximos de zero, como nos Estados Unidos.

Usando o gancho da fragilidade fiscal, essa questão seria outro motivo para não acharmos que o BCB pudesse flertar com níveis de juros próximos de zero. Ao compararmos a ata da reunião de março, com aquela do último encontro, a palavra “fiscal” não aparece nenhuma vez na primeira, mas surge 10 vezes na última.

Ou seja, a discussão sobre a existência do tal prêmio de risco está ligada diretamente à crescente preocupação do BCB com a questão fiscal no Brasil. Como as dúvidas com relação à retomada da trajetória fiscal “normal” em 2021 não serão resolvidas no curto prazo, o assunto continuará a ser uma variável relevante nas discussões sobre o patamar em que os juros básicos podem chegar no Brasil.

Novas expectativas para o ano

A ata também reforçou a ideia de que o BCB não está preocupado, por ora, com os níveis da taxa de câmbio. Essa é a linha do ministro da Economia, Paulo Guedes, que está sendo seguida. Assim, o “novo normal” da economia brasileira é de juros baixos e câmbio desvalorizado. Veja:

O Comitê reafirma seu compromisso com a meta para a inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, que sempre foi e segue sendo o principal objetivo da política monetária.

Portanto, é improvável que a possibilidade de uma desvalorização cambial adicional, caso os juros voltem a cair, seja uma variável relevante para impedir o BCB de afrouxar mais a política monetária. Essa questão apenas será importante a partir do momento em que essa desvalorização ameace a inflação. No entanto, como ressaltamos, não é uma preocupação no curto prazo.

Por fim, apesar da decisão de reduzir os juros em 0,75 ponto percentual ter sido unânime, a ata mostrou que dois membros do colegiado achavam melhor usar todo o espaço disponível para baixar os juros de uma só vez. Lembremos de que já constava no comunicado pós-reunião de que o COPOM está preparado para dar “um último ajuste, não maior do que o atual”.

Se juntarmos essas informações, não vemos por que não ir até o limite do “teto” autoimposto. Portanto, considerando os recados da ata, as projeções nada auspiciosas para o crescimento do 2º trimestre e a pouca preocupação externada pelo BCB com os impactos dos seus movimentos na política monetária sobre o câmbio, mantemos nossa projeção de uma nova queda de 0,75 ponto percentual.

Ela deve ocorrer na próxima reunião do COPOM, em 17 de junho de 2020, e levará os juros a 2,25% ao ano. Assim, os dados ficam da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 4,90 em 2020 e R$ 5,10 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6% em 2020 e 3% em 2021.

Em relação à questão fiscal, tantas vezes citadas na última ata, ela continuará a ser uma preocupação. No entanto, uma definição sobre o assunto só começará a acontecer a partir de agosto de 2020, quando haverá as discussões relativas ao orçamento de 2021.

Por isso, o que sobressai nos riscos elencados pelo BCB é a derrubada da economia brasileira, pelo menos, por enquanto. Esse é mais um motivo, inclusive, de projetarmos um corte adicional de 0,25 ponto percentual na reunião do COPOM de 5 de agosto. Assim, a Selic fecha 2020 em 2% ao ano.

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