Radar da Economia: O raio-X da economia brasileira no pós-pandemia

Conforme os dados econômicos são divulgados, o cenário da adaptação da economia brasileira ao choque da COVID-19 fica mais claro. Ao mesmo tempo, o aumento da temperatura política mantém certa cautela na recuperação dos preços dos ativos brasileiros, mesmo com a melhoria externa.

Com essas informações, chega o momento de fazermos um raio-X da economia do País, tanto pré quanto pós-pandemia. É o que apresentaremos neste Radar da Economia. Confira.

Situação mundial

Nossa expectativa de um fluxo externo de notícias positivas vindas da COVID-19 foi confirmada. Alguns dos aspectos que reforçam essa informação são:

  • reabertura da economia em vários países da Europa;
  • apresentação de dados econômicos melhores do que o esperado;
  • evolução na descoberta de uma vacina para a doença.

Todas essas questões ligadas à pandemia afetaram os mercados de maneira positiva. Por isso, ajudaram na recuperação dos ativos brasileiros ao longo da última semana de maio de 2020.

Entretanto, as tensões entre a China e os Estados Unidos podem se tornar um assunto dominante. Na semana do dia 22 de maio, isso foi apresentado como um contraponto às boas notícias relacionadas ao novo coronavírus. Agora, a ideia continua igual dependendo das medidas a serem anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e da reação chinesa.

Em uma pesquisa recente, foi mostrado que 66% dos americanos têm uma visão negativa do país asiático. Unindo esse dado com a eleição americana, que está bem visível no horizonte, é difícil ter esperança de boas notícias vindas desse front.

Situação no Brasil

Se lá fora as notícias relativas à pandemia são predominantemente positivas, por aqui não podemos fazer a mesma afirmação. Já temos o afrouxamento do isolamento social em vários estados, inclusive São Paulo. No entanto, os dados nacionais consolidados continuam a acelerar.

Como nosso modelo polinomial previa, o número total de casos confirmados no Brasil chegou a 438.238 no dia 28 de maio. Nos próximos sete dias, deverá alcançar 660.000, com 40.000 mortes.

Contudo, olhando de forma isolada, o cenário prospectivo em relação à retomada da economia parece ser mais animador. Como podemos ver no gráfico a seguir, algumas regiões já estariam em condições de relaxar o isolamento social. Estão enquadradas aqui o Sul e o Centro-Oeste, com menos de 80% de ocupação de leitos de UTI.

Por outro lado, o gráfico também mostra que Norte e Nordeste ainda apresentam estatísticas preocupantes. No que se refere a São Paulo, destaque da semana nesse aspecto, a capacidade de incorporar os leitos particulares a esse cálculo ajuda a ficar próximo do limite.

Esses dados reforçam nossa projeção de que a economia brasileira começa a retomar as atividades a partir de 15 de junho. Isso seria aderente à estimativa de queda de 12% do Produto Interno Bruto (PIB) no 2º trimestre e de 6,5% para todo o ano de 2020.

Assim, a divulgação do PIB do 1º trimestre — que sinalizou uma queda de 1,5% em relação ao 4ª trimestre de 2019 — não alterou nossa visão. Na realidade, ela está alinhada às nossas projeções, tanto em sua forma agregada quanto referente às quebras setoriais. Por isso, talvez seja mais interessante falar do futuro do que do passado.

Expectativas para o restante de 2020

Os dados esperados para o PIB do 2º trimestre realmente serão negativos — e é impossível fugir disso. No entanto, alguns números de maio mostram que o pior em termos de revisões das projeções provavelmente já passou. Assim, em um futuro próximo, podemos começar a ver revisões pelo lado positivo.

Para maio, ainda não temos nenhum dos chamados hard data, como as informações de produção e venda. Porém, temos números de confiança, conhecidos por soft data. Eles mostram que o pior momento da crise foi abril, mesmo com a manutenção do isolamento social.

Em números, após uma queda de 34,4% em abril, o índice médio de confiança dos setores econômicos subiu 9,2% em maio, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV). É importante evidenciar que a recuperação ainda é tímida, depois de verificar a grande queda do mês anterior.

Tanto é que, no acumulado do ano, ainda há uma perda de 33,1%. Contudo, o nível atual de confiança está apenas 4,6% abaixo do pior momento desse número, que foi durante a recessão de 2015. Em outras palavras, já saímos do modo “banho de sangue” e entramos em um terreno, pelo menos, já mapeado anteriormente.

Esse cenário ainda pode levar a alguns números ruins, mas deve surpreender de forma positiva daqui para frente. Além do mais, os dados divulgados sobre o mercado de trabalho nos levam a pensar no cenário pós-pandemia. Mais especificamente, o que interessa é o que ficou subentendido, muito mais do que as informações apresentadas.

Cenário pós-pandemia

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) mostrou uma perda líquida de empregos equivalente a 860 mil vagas em abril. Apenas para comparação, de janeiro a outubro de 2015 haviam sido perdidas 898 mil postos de trabalho. Portanto, esse foi o pior mês da série histórica iniciada em 1999. Um valor parecido só foi alcançado após 10 meses de recessão em 2015.

Além desse resultado ruim, podemos ver que as medidas tomadas pelo mercado parecem surtir efeito. A forma de ver isso é que boa parte do fechamento relativo de vagas veio da queda forte na contratação, em vez do aumento expressivo das demissões.

Em comparação com abril de 2019, a redução da contratação chegou a 56,5%. Enquanto isso, as demissões apresentaram uma retração de 17,2%. Entretanto, esses dados valem para o setor de trabalho formal.

Como os dados da PNAD Contínua de abril mostraram, o peso do desemprego recaiu mais sobre o setor informal. Enquanto o emprego entre os informais caiu 5,7% na comparação com agosto, a dos formais sofreu uma redução de 1,2%.

Outra forma de ver o mesmo resultado é verificar que a taxa de informalidade na economia caiu de 40,1% para 39,1%, o menor nível desde 2016. O que também chamou a atenção foi o fato de que, mesmo com o aumento do desemprego, a renda média cresceu.

Como isso é possível? Esse é outro efeito nefasto da crise. O desemprego atingiu de modo mais intenso os trabalhadores com renda mais baixa. Com isso, os que permaneceram empregados ganham mais, na “média”, o que fez a renda no mercado de trabalho aumentar.

Outros dados da PNAD Contínua

O resultado da PNAD Contínua não foi, em si, tão ruim. Em comparação com março, a taxa passou de 12,2% para 12,6% em abril. Isso poderia ser até outra prova de que as medidas do governo funciona. Infelizmente, nesse caso, isso não é verdadeiro. O que está por trás desse índice é o modo como a pesquisa é feita.

Para fazer parte da estatística de desemprego, a pessoa deve ter procurado emprego nos últimos sete dias. Portanto, a chamada taxa de participação, ajustada de forma sazonal, recuou de 60,9% para 59,2%, a menor da série histórica. Entre os fatores que levaram a esse resultado estão:

  • redução da possibilidade de conseguir uma colocação na situação atual;
  • dificuldade de circulação devido ao isolamento social.

Fazendo o contrafactual, caso a taxa de participação se mantivesse, o nível de desemprego seria de 15%. Esse é um bom número para ter em mente, pois parece ser o piso a partir do momento em que o fim do isolamento social for consolidado pelo País.

Essa afirmativa é válida se o restante dos índices se mantiverem constantes. Assim, os dados do ano devem ficar da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% para 2019, 1,5% para 2020 e 3% para 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 para 2019, R$ 5 para 2020 e R$ 5,20 para 2021;
  • Selic: 4,5% para 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6,5% em 2020 e 3% em 2021.

Observação política

Apesar do aumento da temperatura em Brasília, não acreditamos que a aproximação de Jair Bolsonaro com o Centrão seja uma prova cabal de que o equilíbrio fiscal foi adiado. Primeiro, por não existir nenhuma comprovação de que esse grupo seja “fã” de uma política desenvolvimentista.

Devemos lembrar de que não haveria teto de gastos nem Reforma da Previdência, se não fosse o Centrão. O cálculo é político/eleitoral e, não necessariamente, isso está mais atrelado aos gastos no atacado.

Ainda assim, precisamos admitir que, com a taxa de desemprego migrando para números acima de 15%, a tendência é o crescimento do apelo político por mais gastos. Aí sim veremos se o governo será capaz de fazer “do limão uma limonada”.

Se insistir nas premissas fiscais sem espaço para negociações, provavelmente perderá. Se optar pelo diálogo, poderá sair dessa crise relativamente melhor do que entrou. Um exemplo é convencer o Congresso a impedir a prorrogação da desoneração da folha até o final de 2021 apenas para 17 setores. Nesse caso, vale a pena fazer de forma linear para toda a economia no bojo de uma Reforma Tributária.

Outra situação é aceitar a perenidade de algumas medidas temporárias de sustentação da renda. Como contrapartida, tem a abertura de espaço dentro do teto dos gastos com a redução das despesas obrigatórias dentro de uma Reforma Administrativa, por exemplo.

Em resumo, os resultados econômicos da última semana de maio confirmaram os modelos que indicam o tamanho do buraco em que o Brasil está. Eles mostraram a importância de observar os dados com mais cuidado e reforçaram a incerteza de como vamos sair dessa confusão.

Por exemplo: como serão os hábitos de consumo? Como serão as relações de trabalho? Fazendo uma analogia com os filmes de ficção científica, acabamos de entrar no hiperespaço e não sabemos se vamos sair em meio ao deserto do universo ou presos a uma chuva de asteroides.

E você, o que acha? Concorda com as projeções feitas? Deixe sua percepção nos comentários.

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