Radar da Economia: Os dados recentes e a melhoria da economia

Quem olhar simplesmente para o que aconteceu com os ativos mundiais em geral e os brasileiros em particular, acreditará que a crise acabou e todos os problemas foram resolvidos.

Alguns estão bem encaminhados, mas existem outros que estão apenas “hibernando” e ainda há aqueles que esperam o calendário andar para “entrar no jogo”. Com essa diversidade, precisamos discutir o que ocorreu nos últimos dias e o que podemos esperar daqui para a frente. É o que faremos neste Radar da Economia.

Qual é o cenário atual?

O ditado diz que “a beleza está nos olhos de quem a vê”. Isso também pode ser falado sobre o que acontece nos mercados. Observando friamente a situação, as dúvidas ainda são grandes, tanto com relação ao desempenho da economia até sair dessa pandemia quanto no que se refere à chance de haver uma segunda onda de infecções.

Para aumentar ainda mais a confusão, temos uma crise social/racial nos Estados Unidos. Ela se espalha para outros países, como a França. Ainda não sabemos como a economia vai se comportar após o afrouxamento do isolamento social nas principais economias mundiais. Pelo menos, estamos saindo e parece que o pior já passou.

Outra boa notícia é que Donald Trump, às voltas com problemas internos, parece que esqueceu um pouco da China. Para falar a verdade, o que vale mesmo é que o mercado está cheio de liquidez e ninguém quer perder a volta com o dinheiro em caixa.

Até que ponto ser otimista?

O viés positivo pode ir até onde o dinheiro “queimando” na mão dos investidores deixar. Uma boa aposta sobre esse ponto é o momento em que esses ativos voltarem para os níveis pré-crise.

Aqui, não nos referimos à economia, mas sim aos preços. Com a “perda zerada”, o mercado poderia se voltar para os fundamentos e ter uma racionalidade maior. Portanto, observando o lado externo de forma restrita, o rally que vimos nas últimas semanas ainda deve ter uma sobrevida.

Devemos lembrar de que o S&P 500 subiu mais de 13% quase de forma ininterrupta. Isso deve continuar ocorrendo devido às notícias positivas da COVID-19. Com isso, há a reabertura das economias e informações sobre a descoberta de algum tipo de vacina.

Além disso, como os primeiros números assustaram, as projeções econômicas refletiram o cenário mais pessimista. Assim, os dados recentes surpreenderam de modo positivo.

Os dados relevantes

Os números da criação de empregos nos Estados Unidos foram impressionantes. Ainda assim, devemos lembrar de que sempre existe a possibilidade de haver uma segunda onda de infecções.

Mais do que isso, essa briga entre China e Estados Unidos ainda trará muita volatilidade ao mercado — basta as confusões internas no território americano se acalmarem e a eleição presidencial se aproximar. De qualquer forma, com esses dois avisos em mente, o que parece valer agora é a máxima de que “contra o fluxo, não há argumentos”.

Qual o cenário brasileiro?

Vindo para o Brasil, esse será o segundo Radar da Economia em três semanas para explicar o comportamento positivo dos ativos brasileiros. Esse contexto surge mesmo com a perspectiva ruim da evolução da COVID-19 por aqui, da manutenção da tensão política e dos números econômicos negativos.

Então, voltando para o que fizemos no Radar da Economia “O começo das boas notícias no mercado”, vamos observar o que aconteceu com o índice DXY. Assim, podemos isolar do movimento o que está relacionado à moeda americana.

Além disso, veremos a média entre a moeda mexicana e a sul-africana para determinar o que foi um movimento disseminado entre os emergentes. Desse modo, chegamos ao cenário que levou à melhoria do contexto brasileiro propriamente dito.

Valorização da moeda

Começando pelo fim, o real teve uma valorização de 7,1% durante a semana, considerando os dados até às 12h do dia 5 de junho de 2020. Uma parte disso foi derivada da perda da força do dólar, o que levou o DXY a reduzir 1,6%.

Outro motivo foi a melhora geral dos emergentes. A média México e África do Sul subiu 3,2% no mesmo período. Portanto, se não há dúvidas de que o cenário externo mais benigno ajudou, algo aconteceu por aqui que contribuiu para o movimento.

Aí voltamos à questão da “beleza”: a crise institucional entre o Executivo e o Judiciário está pendente, apesar de ter ocorrido uma trégua, aparentemente. Os números da COVID-19 continuam batendo recordes — sendo que os nossos modelos indicam 810 mil casos até o dia 12 de junho. Ainda assim, já começamos a afrouxar o isolamento social.

Sem contar que os números econômicos vieram horríveis, mas ainda melhores do que o esperado. Com relação a esse último item, vale a pena detalharmos melhor.

Resultados econômicos

Era tenebrosa a perspectiva para a Produção Industrial Mensal (PIM) de abril, depois do resultado catastrófico da produção de veículos em abril de 2020. A mediana do mercado projetava uma queda de 30%, em relação ao mês anterior. Entretanto, o dado divulgado pelo IBGE no dia 3 de junho apresentou uma contração de “apenas” 18,8%.

As matérias dos jornais vieram, como esperado, com títulos como “a maior queda da história”, “pior resultado da série” etc. No entanto, para o mercado, o que ficou do resultado foi que a contratação nas fábricas em abril foi quase metade do que se estava esperando. Na semana de 15 de junho, serão divulgados outros números importantes de atividade, como:

  • Pesquisa Mensal do Comércio (PMC);
  • Pesquisa Mensal de Serviços (PMS);
  • Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC–Br).

Todos esses dados se referem ao mês de abril. Caso eles também surpreendam de maneira positiva, como a PIM, poderemos ter uma nova revisão das projeções para o crescimento de 2020. Porém, dessa vez será para melhor.

Por enquanto, mantemos a nossa expectativa de queda de 12% do PIB no 2º trimestre e de 6,5% no ano. Contudo, precisamos admitir que esses resultados já estão com viés de alta. Confira as nossas perspectivas:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,50% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020 e R$ 5,20 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6,5% em 2020 e 3% em 2021.

Como interpretar os últimos resultados?

Mesmo considerando a questão da relatividade da “beleza”, a diferença entre o movimento da moeda brasileira e dos seus pares foi bastante expressiva. Então, o que explica o dólar ter passado de R$ 5,34 para R$ 4,95 em apenas uma semana?

Aqui, entram duas questões. A primeira é que o mercado está com excesso de liquidez a ser remunerada e ninguém quer perder a volta dos ativos. A segunda — diretamente relacionada à primeira — é que a moeda brasileira estava fora do seu valor “justo”.

Pode parecer papo de “engenheiro de obra feita”, mas na conclusão do Radar da Economia já citado, fizemos o seguinte comentário sobre o valor “justo” do real:

Vendo o copo “meio cheio”, temos um espaço grande para a valorização dos ativos. Por exemplo, se o real tivesse acompanhado a desvalorização da dupla emergente, sua cotação seria algo ao redor de R$ 5, em vez dos R$ 5,55 da semana terminada em 22 de maio.

Além disso, os nossos modelos de médio prazo indicam que o valor “justo” seria algo ao redor de R$ 4,90. Daí termos mantido a projeção para a moeda americana para o final de 2020 em R$ 5, mesmo com a brasileira chegando próximo de R$ 6.

Ainda assim, não esperávamos que essa convergência acontecesse tão rapidamente. Então, podemos considerar que a cotação fique por volta desse valor ou até mesmo que ocorra uma sobrevalorização do real?

Infelizmente, não. A volatilidade da nossa moeda vale tanto para cima quanto para baixo. Desse modo, devemos ter outros períodos de perda de valor. Para isso, basta haver uma piora do cenário externa, com a volta da beligerância entre os Estados Unidos e a China, ou uma segunda onda da COVID-19.

Outra fonte de pressão seria uma piora dos fundamentos locais. Nesse caso em particular, é preciso atentar à questão fiscal, principalmente. Parece samba de uma nota só, mas esse é o nome do jogo no caso brasileiro.

Devemos lembrar de que na ata de reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) de março de 2020, o BCB usou a palavra “fiscal” apenas uma vez. Enquanto isso, na versão de maio, fez uso dela 11 vezes. Por isso, a intensificação da discussão sobre quais gastos serão temporários e quais se tornarão permanentes após a pandemia.

Esse debate, inclusive, será determinante para o comportamento do real daqui para frente. Pensando em termos de calendário, o momento-chave será a discussão do orçamento de 2021, que acontecerá entre agosto e setembro de 2020.

Para o mercado, a sinalização importante é que “o que aconteceu em Vegas, fique em Vegas”. Ou seja, o aumento de gastos públicos devido à COVID-19 deve se manter em 2020.

E você, concorda com essa análise? Compartilhe este texto nas suas redes sociais e discuta com outras pessoas quais devem ser os próximos resultados para 2020.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.