Radar da Economia: Comparação Brasil x China: as projeções econômicas

A pandemia do novo coronavírus tem impactado a economia mundial desde o início deste ano. No Brasil, o mesmo impacto é visto desde março. Pensando no padrão da retomada econômica que podemos observar por aqui após o relaxamento das medidas de confinamento social, faz sentido olhar para os dados chineses da primeira metade do ano.

Essa comparação é o tema deste Radar da Economia. Faremos uma análise para identificar como devem ser os resultados brasileiros e o que devemos esperar para os próximos meses. Continue lendo!

O cenário chinês

A China é importante nessa análise porque o primeiro foco do coronavírus foi a cidade de Wuhan, na província de Hubei. Isso aconteceu ainda no final de dezembro de 2019. A partir daí, a doença ganhou escala em janeiro. Como resultado, medidas sociais bastante restritivas foram implementadas de imediato por lá.

O pico das iniciativas ocorreu em fevereiro, em termos de efeito prejudicial sobre as atividades econômicas. Seu abrandamento aconteceu de forma gradual no decorrer de março. O efeito desses movimentos fica bem evidente nos índices mensais dos gerentes de compras — ou PMIs, na sigla em inglês — dos setores industrial e de serviços na China. Vamos ver melhor.

PMIs

O PMI é um indicador que antecipa tendências econômicas. É um índice de difusão baseado em questionário qualitativo aplicável aos diversos setores da economia. Assim, verifica se as condições de mercado a partir dos gerentes de compras estão em ampliação (mais de 50 pontos), iguais (50) ou em contração (menos de 50).

Nesse sentido, o recuo observado no índice PMI de serviços em fevereiro foi de 25,3 pontos. Ele foi mais intenso do que o mostrado pela indústria, que chegou a uma retração de 10,8 pontos. É importante lembrar de que ambos partiram de níveis próximos.

Muito desse fato é derivado da característica trabalho-intensiva das atividades de serviços, que pressupõem maior risco de aglomeração. Por sua vez, essa ameaça é exatamente o foco das medidas de combate à COVID-19, tanto na China quanto nos demais países e em diferentes fases do ciclo da doença.

A indústria chinesa, com maior intensidade de capital, sofreu menos em fevereiro, em termos relativos. Dessa forma, o índice PMI Composto — que reúne ambos os segmentos, conforme seu peso no Produto Interno Bruto (PIB) — teve queda de 24,4 pontos nesse mês.

Outros dados

Essa diferença de comportamento entre serviços e indústria também foi verificada nos dados oficiais de atividade na China. Em função do Ano Novo Lunar, os números são coletados apenas no bimestre janeiro-fevereiro. Nesse período de 2020, as vendas varejistas tiveram redução de 20,5% na comparação anual. No entanto, em termos reais, a queda chegou a 23,7%. A produção industrial, por outro lado, teve retração de 13,5%.

Ambas cederam bem mais do que o esperado, na época. A diminuição foi de 0,8% e 1,5%, respectivamente. Mais importante, o ritmo dos meses seguintes continua mais acelerado na manufatura do que no varejo.

Os dados referentes a abril mostraram a indústria rodando em 3,9% ao ano contra uma retração de 7,5% ao ano nas vendas varejistas — em abril, o dado real foi de 9,1% a menos. A dinâmica desses índices em maio, inclusive, foi divulgada nesta semana. E o hiato entre indústria (+4,4%) e varejo (-2,8%) persiste.

A comparação com o Brasil

Um paralelo com o caso brasileiro é bastante útil. Para traçá-lo, ainda assim, precisamos entender como está o ciclo da COVID-19 por aqui. Conforme ressaltamos nos Radares da Economia anteriores, a segunda derivada da curva epidêmica no Brasil segue em declínio gradual.

Especialmente na abertura regional, observa-se que o estado de São Paulo — que foi o epicentro brasileiro — apresenta taxas diárias descendentes. A defasagem de tempo entre a curva paulista e a das demais regiões é de aproximadamente 10 dias corridos.

Considerando a convergência observada no contexto internacional e prevista na literatura, é de se esperar que as demais áreas mostrem redução nas suas derivadas em breve. A rigor, ela já foi observada nos dados relativos a:

  • Rio de Janeiro;
  • Minas Gerais;
  • Regiões Norte e Nordeste, de maneira mais discreta.

Com base nos dados até a segunda semana de junho. Por sua vez, as taxas de ocupação dos leitos de UTI demandam alguma cautela. Na margem, houve diminuição nos principais estados. Entretanto, nossas estimativas apontam que, no Sudeste, ainda estão acima do intervalo “confortável” para as autoridades, que fica entre 60% e 80%.

Nas regiões Sul e Centro-Oeste, como contraponto, o quadro continua positivo e favorável à retomada das atividades. De fato, isso tem ocorrido de maneira sistemática. É importante notar que a participação do agronegócio no PIB dessas regiões é representativa frente à média nacional. O PIB da agricultura, inclusive, tem registrado crescimento nos últimos quatro trimestres. E também mantém uma tendência prospectiva favorável em decorrência da boa safra.

Relaxamento do isolamento social

O coronavírus ainda mostra expansão em todo o território nacional em linha com o previsto pelo nosso modelo polinomial. Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, foram 802,8 mil ocorrências até o dia 11 de junho. Esse dado está bem próximo da nossa projeção, que era de 810 mil. Para o dia 19 de junho, a expectativa é de 1 milhão de casos, com crescimento diário implícito de 3,7%. É nesse quadro que as medidas de isolamento social, válidas desde março, têm sido relaxadas nas últimas semanas.

São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — que, juntos, correspondem a mais da metade do PIB nacional — já colocam em prática planos regionais de relaxamento de quarentenas, com segmentação por setor. Todo o planejamento tem se baseado na experiência internacional recente e engloba a continuidade de medidas de prevenção, como:

  • uso de máscaras e álcool gel;
  • práticas do distanciamento social.

Além disso, são aplicados horários de funcionamento mais restritos nos setores com potencial para provocar aglomerações, como shopping e comércio popular. Nesse contexto, nossa expectativa é que o ponto mais baixo do nível de atividade já tenha ficado para trás.

Projeção econômica

A nossa previsão indica que os dados mais negativos ficaram no mês de abril. Portanto, dois meses depois da China. Os dados mensais de atividade por aqui, contudo, são publicados pelo IBGE com defasagem de dois meses. Por isso, apenas na terceira semana de junho teremos o “combo completo” dos dados relativos a abril. Projetamos uma queda de 30% na comparação mensal e de 38% na análise anual para o comércio varejista ampliado. Esse setor tem correlação com os gastos das famílias no PIB.

O volume da produção industrial no mesmo mês já foi divulgado, com variações de –18,8% na base mensal e –27,2% na anual. As duas taxas superaram as expectativas. Para o mês de maio, a perspectiva também aponta para a continuidade desse gap na retomada indústria x varejo no Brasil.

Com o afrouxamento dos lockdowns regionais, os índices desagregados de isolamento social no País diminuem ainda mais. O reflexo dessa “normalização” das atividades diárias já é observável nos dados anteriores de confiança econômica, consumo de eletricidade, transações de pagamento e setores da manufatura.

Conforme nossas simulações, esses números são compatíveis com altas mensais entre 5% e 10% para as vendas varejistas e a produção industrial em maio, respectivamente. É importante mencionar que essas são estimativas preliminares. Ainda assim, seus níveis continuarão baixos frente ao padrão histórico.

De toda forma, a diferença de ritmo nessa fase do ciclo — retomada, partindo de um nível fraco — é notável. Avaliamos que a continuidade da tendência positiva da atividade doméstica nos próximos meses dependerá, essencialmente, da redução da incerteza econômica hoje ainda presente no cenário.

Diante de toda essa análise, veja quais devem ser as projeções dos principais indicadores econômicos:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • Câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020 e R$ 5,20 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6,5% em 2020 e 3% em 2021.

E você, concorda com essas perspectivas? Deixe seu comentário e forneça sua análise.

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