Radar da Economia: As incertezas ainda rondam a economia do Brasil

Números de atividade, novos documentos do Banco Central do Brasil (BCB) e os mercados descolados da realidade, mas com uma volatilidade maior do que a anterior. Esse é o cenário da semana terminada em 26 de junho.

Apesar de terem passado sete dias, está “tudo como dantes no quartel de Abrantes”. Por isso, vamos usar este Radar da Economia para atualizar nosso cenário com as novas informações. De toda forma, já podemos adiantar que as mudanças são poucas. O que existem são muitas dúvidas e poucas certezas. Vamos entender melhor.

A economia global

No Radar da Economia “O andamento da retomada econômica no Brasil”, destacamos que “pouco adianta reclamar que os preços estão descolados da realidade e que isso gerará bolhas de ativos. Realmente, isso está acontecendo e continuará dessa forma até que a realidade se ajuste aos preços ou a liquidez diminua para os valores se ajustarem”.

Hoje, podemos reproduzir a fala do diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), Tobias Adrian, sobre o tema: “A rápida e sem precedente ação dos Bancos Centrais (BCs) tem restaurado e impulsionado a tomada de risco pelos investidores, incluindo nos mercados emergentes, onde as compras de ativos têm se expandido”.

Ele fez essa declaração ao divulgar o Relatório de Estabilidade Financeira da entidade, publicado um dia depois da revisão do crescimento de vários países. Quando unimos a frase acima com a projeção do FMI de que o mundo deverá contrair 4,9%, os Estados Unidos deverão sofrer uma queda de 8% e a Europa de 10,2%, a conclusão de Adrian sobre a situação atual faz sentido.

Ele disse que “(…) as expectativas sobre a extensão do suporte dos BCs globais podem se revelar excessivamente otimistas, levando os investidores a reavaliar o apetite e a precificação do risco”. Entretanto, apesar do aviso ser válido, principalmente em meio ao nível de volatilidade atual do mercado, ainda acreditamos que prevalecerá o mantra de que “contra fluxo não há argumentos”.

O que deverá acontecer?

Para defender nossa posição, temos dois pontos a considerar sobre a frase de Tobias Adrian. A primeira diz respeito à sua dúvida com relação à “extensão do suporte dos BCs globais”. Se ainda resta algum resquício da teoria das expectativas racionais, ela é aplicável à reação dos BCs às crises financeiras e econômicas ao longo do tempo.

Se compararmos a atuação dessas instituições nas crises de 1929 e 2008, percebemos que o aprendizado foi bastante benéfico para o mundo. A reação foi rápida e contundente frente ao perigo que havia surgido. Da mesma forma, para encarar os impactos da pandemia da COVID-19, os BCs agiram com mais rapidez e de modo mais forte do que em 2008.

Essa atitude mostra a importância da curva de aprendizagem. Se considerarmos que esse processo é contínuo, o próximo passo será evitar a retirada rápida dos estímulos. Tal como o Banco Central Europeu (BCE) fez em 2011 ao começar a subir os juros e quando o Federal Reserve (FED) praticou em 2013 com o famoso “taper tantrum” e o então presidente Ben Bernanke indicou que poderia diminuir o Quantitative Easing (QE).

Portanto, ainda acreditamos que os BCs já colocaram, literalmente, muita grana na mesa para sair do jogo de forma prematura. Do outro lado, parece que os investidores acreditam na curva de aprendizado dos BCs. Por isso, o S&P está a apenas 300 pontos do nível pré-pandemia.

Na crise de 2008, por exemplo, ele demorou pelo menos três anos para chegar próximo a esse patamar. Dessa forma, mantemos nossa ideia de que os preços dos ativos continuarão descolados da realidade devido à excessiva liquidez. Isso se refletirá em maior volatilidade, mas sem que se “perca o chão”.

A economia brasileira

Os Estados Unidos não “fugiram” do “cortador de grama” do FMI e muito menos o Brasil. Ao contrário da projeção de queda de 5,3% na estimativa de abril, a entidade prevê uma redução de 9,1% em 2020. Como a nossa previsão para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro é de uma queda da ordem de 6,5%, achamos essa hipótese exagerada.

O mais importante é que não estamos sozinhos nessa percepção. No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho, o BCB chegou a uma diminuição de 6,4%. Na entrevista que se seguiu à divulgação do relatório, tanto o presidente do BCB, Roberto Campos Neto, quanto seu diretor de política monetária, Fabio Kanczuk, afirmaram que o viés da previsão é de melhora, e não de piora.

Observando os estudos do RTI, a posterior apresentação e os dados de confiança divulgados ao longo da semana, devemos concordar com Campos Neto e Kanczuk. Entenda melhor por quê.

Os dados do RTI

A apresentação realizada logo após a divulgação do RTI trouxe dois gráficos sobre a economia americana. Eles são bastante interessantes e, segundo Campos Neto e Kanczuk, poderão ser replicados no Brasil.

Ambos são complementares e mostram que, ao mesmo tempo em que temos um crescimento da renda pessoal disponível, temos uma redução do consumo individual. O aumento da remuneração é um reflexo das medidas de sustentação de renda e da queda da inflação.

Com esse cenário, a pergunta é: para onde vai essa renda? A resposta está no gráfico seguinte. Nele, a taxa de poupança é colocada com o índice de confiança do consumidor e há uma forte correlação negativa entre as duas séries, especialmente nos últimos meses.

Isso mostra haver uma grande demanda reprimida, que pode alavancar o consumo com mais rapidez do que o esperado. Para isso, é necessário haver a redução da incerteza com a pandemia — talvez com a descoberta de uma vacina.

Outra questão que reforça nossa expectativa de que os números do FMI talvez estejam exagerados é que os índices de confiança continuam a mostrar uma recuperação expressiva em junho. Eles mantêm o movimento de maio e reforçam a ideia de que o fundo do poço ocorreu em abril.

Considerando a média dos índices da Construção, da Indústria e dos Serviços, houve um crescimento de quase 30% dos dados de junho em comparação com os de abril. Além disso, o Brasil está a 22% do índice registrado na virada do ano. No caso do Índice de Confiança do Consumidor, os números são semelhantes.

As possibilidades para o restante de 2020

O nível de crescimento oferece evidências de que a surpresa pode ser positiva. No entanto, devemos admitir que é impossível descartar um cenário como o traçado pelo FMI. Até agora, temos bem mapeado o tamanho do estrago, mas ainda existem muitas dúvidas quanto ao ritmo de recuperação.

O BCB parece estar no mesmo barco. Somente no capítulo 2 do RTI de dezembro de 2019, a palavra “incerteza” foi usada três vezes. Nesse relatório foram delineados os cenários prospectivos para a política monetária. Por sua vez, no de março de 2020, quando já tínhamos a onda se formando, foi utilizada cinco vezes. No de junho, oito vezes.

A perspectiva de uma recuperação econômica mais forte do que a esperada já havia sido exteriorizada pelo BCB no comunicado pós-reunião. Também foi replicada na ata e reforçada no RTI de junho. Isso já indicaria um viés conservador da instituição em relação aos próximos passos da política monetária.

Entretanto, um dos boxes do relatório reforçou ainda mais essa percepção. Um dos argumentos de quem defende que o BCB poderia reduzir os juros para muito abaixo dos 2,25% ao ano atuais é que todas as projeções da inflação estariam abaixo da meta. A afirmação é válida para 2020 e 2021.

Perspectivas para 2020 e 2021

A observação dos dados dos modelos “tradicionais” apresentados no RTI mostra que não podemos ignorar que o argumento acima tem certo apelo. Todos os quatro formatos utilizados usualmente pelo BCB estão abaixo da meta de 3,75% para 2021, com variações que vão de 3% a 3,2%.

Contudo, o BCB já vinha chamando a atenção ao indicar o uso de uma gama de outros modelos além dos divulgados tradicionalmente nos seus relatórios. No RTI mais recente, um deles foi apresentado.

No box intitulado “Cenários alternativos de projeção de inflação”, foi realizada uma simulação de um choque de demanda via um retorno mais lento do grau de incerteza da economia. Ao mesmo tempo, foi feito um choque de oferta, na esteira da elevação do preço do petróleo.

O primeiro só reforçaria a ideia de que a atual crise é deflacionista. Portanto, o que interessa é o último. Nele, o BCB considera que o petróleo do tipo Brent passaria dos atuais níveis ao redor de 40 dólares o barril para 60 dólares o barril, que era o valor de antes da crise.

Isso aconteceria de forma linear até o final de 2021. Nesse cenário, que nos parece possível devido à liquidez da economia, a inflação em 2021 chegaria a 4,1%, acima da meta para o ano. Veja os outros dados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020 e R$ 5,20 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6,5% em 2020 e 3% em 2021.

Portanto, é preciso considerar que o BCB:

  • está com viés de alta para suas projeções de crescimento para 2020;
  • consegue chegar com facilidade a um cenário em que a inflação fica acima da meta em 2021, mesmo com a atual projeção do PIB.

Além disso, as dúvidas com relação à questão fiscal são muitas e não estarão resolvidas antes da reunião de agosto do Comitê de Política Monetária (Copom). Com tudo isso, reforçamos nossa expectativa de que os juros serão reduzidos mais uma vez, mas com o ritmo de 0,25 ponto percentual.

E você, concorda com essa opinião? Deixe seu comentário e coloque qual é sua percepção para o momento!

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