Radar da Economia: A consolidação das projeções para 2020

As últimas semanas de 2019 serviram para discutir as perspectivas para 2020. As mudanças políticas e econômicas, a divulgação do comunicado do Comitê de Política Monetária (COPOM) e outros fatores permearam a análise desta coluna.

Com o começo do novo ano, o que permanece? Quais ideias ganham força? Esses são os temas que vamos discutir hoje. O objetivo é juntar as ideias sugeridas e formalizar nosso cenário para 2020. Acompanhe!

Cenário externo

O cenário externo é o pano de fundo para montarmos as projeções para a economia local — por isso, deve ser analisado em primeiro lugar. Em resumo, acreditamos que o mundo terá um desempenho econômico melhor em 2020, quando comparado a 2019.

Apesar disso, os riscos continuarão altos e, de modo geral, serão os mesmos de 2019, ou seja: Guerra Comercial, Brexit e Argentina. Entretanto, existe um alinhamento a essas ameaças, que nos parece até mais perigoso: as eleições presidenciais americanas.

O motivo para o otimismo com o cenário externo deriva da economia americana. Ela mostra uma resiliência acima do esperado nos últimos meses, ao mesmo tempo que as medidas de afrouxamento monetário, tomadas pelo Banco Central dos EUA (FED) só começarão a afetar de forma concreta a economia daquele país no início de 2020.

Em outras palavras, o pessimismo que se abateu sobre os mercados no segundo semestre de 2019 deverá sumir e a tendência de uma surpresa positiva com o crescimento dos EUA já no começo de 2020. Essa perspectiva vale, em escala menor, para a economia europeia. Por lá, parece que o pior já passou, principalmente no que se refere aos dados alemães, motor da alta na Zona do Euro.

Isso não significa que haverá uma recuperação sólida no Velho Continente, até mesmo porque isso dependeria de uma política fiscal mais agressiva — e essa prática parece estar longe do radar dos dirigentes europeus. Ainda assim, a tendência é de surpresas mais positivas do que negativas.

Por sua vez, a China, como sempre, é um mistério. A expectativa é de que ela continue apresentando desaceleração na sua taxa de crescimento. No entanto, sem seguir para um “pouso forçado”, como vem sendo propagado há, pelo menos, uma década.

Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que a Guerra Comercial com os EUA impacta mais o “Império do Meio” do que o esperado. Esse fato é importante de ser monitorado para definir o que esperar desse embate entre as duas maiores economias mundiais.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o mundo deve crescer 3,4% em 2020, contra 3% em 2019. Entretanto, esses dados foram calculados em outubro, antes dos avanços nas discussões entre China e EUA, e de números melhores que o esperado, tanto para a economia americana quanto para a europeia.

Guerra Comercial entre China e EUA

Esse é o principal risco para a economia mundial em 2020, segundo o mercado. Um dos motivos para esperarmos um desempenho econômico melhor em 2020 é que, ao contrário de 2019, a questão da Guerra Comercial será neutra para a economia mundial.

Os motivos que justificam essa afirmação são dois. O primeiro é que o mundo já se acostumou co a estratégia de “morde e assopra” de Donald Trump. Com isso, ao mesmo tempo em que os avanços são vistos com ceticismo, os recuos são considerados temporários. Isso torna o impacto das idas e vindas nas negociações, na média, neutras para os mercados.

O segundo fator é que não interessa a ninguém um possível recrudescimento das confusões entre os dois países. Isso ficou claro durante as negociações da fase 1 de um potencial acordo.

Trump deseja evitar uma crise econômica às vésperas das eleições presidenciais americanas. Por sua vez, os chineses, surpresos com o impacto da guerra sobre seu crescimento, pretendem impedir a ocorrência de mais problemas nesse momento sensível do país, em que há situações negativas do ponto de vista social, a exemplo de Hong Kong e da província de Xinjiang, de maioria muçulmana.

Por outro lado, é impossível esperar uma solução para esse problema ao longo de 2020 devido à eleição americana. Isso porque Trump vai deixar essa carta na manga para usar durante a campanha. Por sua vez, os chineses vão esperar para ver se haverá um presidente americano mais disposto ao diálogo em 2021.

Brexit

A saída do Reino Unido da União Europeia é como o Dia da Marmota, do filme Um Feitiço do Tempo: os meses passam e parece que sempre voltamos ao início do mesmo dia. É provável que tenha sido por essa sensação que o eleitor britânico concedeu uma vitória histórica ao polêmico primeiro-ministro Boris Johnson (BoJo), nas eleições de 12 de dezembro.

A lógica por trás disso talvez seja que, como ele já tinha um plano de saída aprovado no Parlamento, a solução final estaria mais perto e racional. Tudo foi apenas um engano. Em vez de usar a maioria conquistada para acelerar as negociações com a União Europeia, BoJo aprovou uma lei que impede o Reino Unido de prolongá-las para além de 31 de dezembro de 2020, mesmo que elas não estejam concluídas.

Como especialistas consideram que um ano seja um período muito pequeno para resolver todas as questões pendentes, podemos supor que o Brexit vai continuar a causar sobressaltos ao mercado em 2020.

Eleição presidencial dos EUA

O Brexit e a Guerra Comercial são riscos conhecidos, mas a eleição presidencial americana é a grande novidade que ameaça a economia mundial em 2020. Por incrível que pareça, não é a reeleição de Donald Trump que pode prejudicar a situação.

O problema é a política ao redor do mundo estar tão polarizada — o que não é novidade. A própria eleição de Trump foi gerada a partir desse contexto. Entretanto, o que estamos observando em vários países é que o cenário se estendeu aos partidos.

Assim como no caso do Partido trabalhista no Reino Unido, que foi varrido nas últimas eleições, percebemos uma divisão fratricida no Partido Democrata. De um lado, candidatos como Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

Eles têm um viés de esquerda nunca visto na política americana, a ponto do primeiro ter se declarado socialista, algo impensável nos EUA há apenas alguns anos. De outra parte, candidatos de centro-direita, como Joe Binden e Pete Buttigieg, algo mais próximo de um Barack Obama ou Bill Clinton.

Isso sem contar a grande novidade do final de 2019: a candidatura de Michael Bloomberg. Ele, até por ter sido do Partido Republicano, pode ser considerado mais à direita, tanto de Binden quanto de Buttigieg.

O problema aqui não seria, obviamente, os dois candidatos semelhantes a Obama ou o Democrata-novo, mas os dois radicais de esquerda, Sanders e Warren. Segundo alguns especialistas americanos, a vitória de qualquer um dos dois, na eleição de novembro de 2020, poderia levar o Standard & Poor’s (S&P) a uma queda entre 20% e 30%.

Portanto, se considerarmos que, dada a rejeição de Trump, qualquer candidato democrata tem, pelo menos, uma probabilidade de 40% de vencer o pleito, caso Sanders ou Warren sejam entronados como candidatos nas prévias, é possível supor um potencial de queda na bolsa americana em torno de 10%.

Um movimento dessa proporção pode ser bem absorvido, visto até como uma chance de entrada, caso Trump venha bem nas pesquisas. No entanto, também pode ser o estopim de uma contração econômica que elevaria ainda mais a possibilidade do candidato de esquerda ganhar. Desse modo, geraria um círculo vicioso que não é possível saber onde vai dar.

Obviamente, são muitos “se”, mas acreditamos que esse seria o evento mais perigoso para a economia mundial em 2020. Fazendo um mapa a ser seguido nesse caso, devemos destacar alguns eventos cruciais na escolha do candidato democrata:

  • primeira prévia regional, que ocorrerá no dia 3 de fevereiro, em Iowa;
  • super-terça no dia 3 de março, quando 14 estados fazem as suas primárias e quando os favoritos vão despontar;
  • convenção democrata entre 13 e 16 de julho, quando o nome do candidato do partido à presidência será anunciado. Para um tranquilo, seria bom que um candidato diferente de Sanders ou Warren fosse escolhido.

Argentina

O cenário mais negativo na Argentina já passou. Não acreditamos que o país vai se recuperar em 2020, mas consideramos que a maior parte do estrago já foi feito. Avaliando o total exportado ao final de 2017 — a crise começou lá em maio de 2018 —, a queda até hoje já foi de 45%.

Pode ser maior, mas não muito além disso. Talvez o maior risco sejam as medidas protecionistas, principalmente na parte industrial. Isso já foi feito antes e, a considerar o tamanho das reservas internacionais da Argentina, pode ser executado de novo.

Em conclusão, o cenário internacional tende a ser neutro para a economia brasileira. Isso já seria uma boa notícia, uma vez que, nos últimos anos, tem levado uma parte do nosso crescimento. Entretanto, devemos salientar que, se a questão da eleição americana realmente “entrar no radar” do mercado, poderemos ter um segundo semestre bem mais animado que o primeiro.

Essa advertência final do cenário externo é importante para reforçar que a principal janela de oportunidade para a economia brasileira será no primeiro semestre. Isso porque teremos eleições municipais no segundo semestre — o que deve reduzir o ritmo das votações relevantes no Congresso — e também por ser necessário garantir o crescimento enquanto as condições são favoráveis. Afinal, o maior risco para o crescimento do Brasil é o País ficar estagnado.

Cenário interno

O principal questionamento é: finalmente, vamos crescer de forma decente? A resposta depende do seu referencial. A considerar o tamanho da recessão em que estamos e a anêmica melhoria posterior, não. Para isso, deveríamos discutir níveis de alta acima de 4%.

Porém, se considerarmos os desafios políticos pelos quais passamos, a ausência do Estado como líder da recuperação e os choques externos, podemos dizer que a expectativa de um crescimento entre 2,5% e 3% para 2020 pode ser considerada “decente”.

Nesse momento, cabe outra pergunta: nos últimos três anos, os economistas sempre projetam elevação ao redor de 2,5% e o resultado sempre é mais próximo de 1%, por que seria diferente agora? Para relembrar, vamos reproduzir a conclusão do Opinião do final de 2018:

Em 2018, tínhamos todas as condições de crescer mais de 3%, mas ficamos pelo caminho. Agora, as condições estão novamente dadas e, para não ficarmos, novamente, a ‘ver navios’, teremos que enfrentar o desafio inadiável de resolver a questão da previdência. Caso tenhamos sucesso, a nossa projeção atual de 2,5% de crescimento do PIB para 2019, será piso, não só para esse ano, como para os próximos também.

A resposta à pergunta, então, passa pela parte grifada do texto. Ao contrário dos anos anteriores, em 2020, não teremos eventos que poderiam ser considerados um “divisor de águas”, como foi a Reforma da Previdência em 2017 e 2019, e as eleições de 2018.

Obviamente, temos desafios políticos pela frente, como as reformas tributária e administrativa, mas nenhuma delas tem o sentido de urgência que tinha a da Previdência. Ou seja, não há nenhum evento datado para 2020 que deixará os agentes econômicos sobressaltados. Com isso, os investimentos e o consumo são adiados.

Além disso, alguns dados trazem mais confiança na solidez da recuperação. O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou a criação líquida de quase 100 mil vagas formais em novembro, ao mesmo tempo que a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) indicou uma taxa de desemprego de 11,2%, o menor nível desde maio de 2016.

Da mesma forma, os dados divulgados na última semana de 2019 mostram que as vendas de Natal foram as mais altas desde 2014. Obviamente, sempre haverá a dúvida se isso foi um ponto fora da curva devido à liberação das contas do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), como ocorreu em 2017.

Com relação a isso, só saberemos depois, mas alguns outros dados tornam o movimento mais consistente dessa vez. Entre os destaques estão os índices de confiança. No dia 27 de dezembro, por exemplo, foi divulgado o Índice de Confiança da Indústria (ICI). O indicador geral atingiu 99,5 pontos no mês, um crescimento de 3,2 pontos em relação aos 30 dias anteriores.

Por sua vez, o Indicador da Situação Atual (ISA) chegou a 99,8 pontos. Isso diferencia o que ocorre agora com o que aconteceu, por exemplo, em 2017. Nos episódios de recuperação da confiança anteriores, um dos principais índices antecedentes para o crescimento, os destaque foram as expectativas futuras (IE).

A diferença agora é que ISA e IE estão caminhando juntos, dando mais solidez ao movimento. Por exemplo, em 2017, ao final do período de liberação do FGTS em julho, a diferença entre os dois era de 4 pontos a favor do IE, contra 0,3 ponto a favor do ISA que temos agora.

Portanto, ficamos confortáveis em manter nossa projeção de crescimento de 2,5% do PIB em 2020, sendo que consideramos que o viés para esse número é de alta, principalmente, se o PIB do 4º trimestre de 2019 vier acima do 1,1% de alta com relação ao trimestre anterior que estamos prevendo.

Assim, uma boa parte da nossa discussão sobre o cenário para 2020 foi para o crescimento, porque ele será a variável-chave para as demais previsões. Assim, ele será o “nome do jogo” para o ano que vem.

Câmbio

Nesse quesito, as nossas últimas análises em relação a essa variável ressaltaram a importância do crescimento para determinar o desempenho da moeda brasileira. Com a queda dos juros para 4,5% ao ano, o que atrairá o investidor estrangeiro para o mercado brasileiro deixará de ser o diferencial de juros e passará a ser o diferencial de crescimento.

Portanto, quanto maior for a perspectiva de crescimento do Brasil em 2020, maiores serão as entradas de recursos estrangeiros no mercado brasileiro, com a consequente valorização do real. Esse movimento será, especialmente, importante no primeiro trimestre de 2020, quando a sazonalidade da safra de soja já, naturalmente, colocaria um viés de alta para a moeda brasileira.

Portanto, até março, a expectativa é que o dólar possa operar abaixo de R$ 4 a maior parte do tempo. Daí para frente, ficaremos mais suscetíveis aos humores externos, principalmente com relação às eleições americanas. Como esperamos um segundo semestre mais volátil devido a esse evento, projetamos a moeda dos EUA em torno de R$ 4,20 ao final de 2020.

Uma elevação da nota de crédito do Brasil pode ser esperada ainda no primeiro semestre, mas algo além disso poderá colocar um viés de baixa nessa projeção. Assim como a aprovação no Congresso de algumas medidas fiscais importantes, como a PEC emergencial ou a Reforma Administrativa.

Entretanto, se tivermos que torcer para alguma aprovação em especial, focaríamos a Reforma Tributária. Se conseguirmos, pelo menos, a unificação dos ICMS estaduais, as projeções para o crescimento futuro da economia brasileira mudam de patamar.

A combinação da alta com o comportamento do câmbio será válida para outra variável importante para o mercado: a taxa de juros. A meta do Banco Central do Brasil (BCB) é a inflação. No entanto, com os juros em níveis nunca antes vistos, o que está no seu radar são os mecanismos de transmissão.

Discutimos isso na coluna anterior. Portanto, vale a pena ressaltar que o espaço para novos cortes e/ou o período no qual os juros poderão ficar nos níveis atuais será fornecido pelo crescimento da economia.

Choques, como o que aconteceu no complexo de carnes, e/ou depreciações fortes do real só serão vistos como um problema para o BCB, se a economia crescer mais forte. Tanto que temos ressaltado que, a despeito dos números da inflação estarem mais fortes do que o esperado no final de 2019.

Isso sustenta a nossa projeção de que os juros ficarão estáveis em 4,5% ao ano durante 2020 e baseia mais a nossa previsão de crescimento de 1,1% no quarto trimestre de 2019 e de 2,5% para o próximo. Portanto, o que poderá fazer com que os juros sejam reduzidos ainda mais no início de 2020, ou elevados antes de 2021, será alguma alteração nas projeções de elevação, muito mais do que choques na inflação.

Com esses dados, o resultado para os indicadores devem ser os que apresentamos a seguir. Veja:

  • IPCA: 4,25% em 2019 e 3,7% em 2020;
  • câmbio (eop R$/US$): R$ 4,05 em 2019 e R$ 4,21 em 2020;
  • Selic: 4,5% em 2019 e em 2020;
  • PIB: 1,2% em 2019 e 2,5% em 2020.

Parece que, finalmente, a economia brasileira apresentará uma alta “decente” em 2020. As perspectivas mundiais, se não ajudarem, também não tendem a atrapalhar. A própria recuperação mais lenta do crescimento vai garantir o controle da inflação, mesmo na ocorrência de alguns choques. Tudo isso permitirá que os juros se mantenham em 4,5% ao ano durante todo 2020.

Segundo o famoso jogador de beisebol, Yogi Berra, “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”. Aqui, tentamos realizá-las mais de uma vez e estamos confiantes nas projeções.

E você, concorda com as tendências para 2020 ou tem alguma consideração a fazer? Deixe seu comentário e compartilhe sua visão!

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