Radar da Economia: Análise das atividades econômicas: o cenário do Brasil

No Brasil, o “PIB mensal” medido pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central – Brasil (IBC–Br) registrou alta de apenas 1,3% em maio de 2020. O resultado veio depois de quedas de 9,9% em abril e de 6,3% em março. E ainda veio abaixo do consenso de mercado e do nosso número, que era de aumento de 4,4%.

Além disso, surpreendeu ao descolar dos aumentos mensais de quase 20% no varejo amplo e de 7% na indústria. Por outro lado, ficou próximo à variação de –0,9% na receita real de serviços no mês. Com isso, o IBC–Br ainda não recuperou o nível perdido desde fevereiro de 2020.

A rigor, encontra-se 15% abaixo do patamar pré-COVID-19. No entanto, a perspectiva para junho é de nova alta mensal. Nossa projeção indica aumento de 7% devido à melhora da confiança econômica e do afrouxamento, desde finais de maio, das políticas de isolamento nas principais cidades do País.

Dados em alta frequência, como o consumo diário de energia, apontam nessa direção positiva. Ainda assim, vamos discutir essa perspectiva neste Radar da Economia em mais detalhes.

Os índices econômicos

Para entender o cenário que estamos apresentando, veja os dois gráficos a seguir.

     

Essa primeira alta, em princípio, sugere uma expectativa de retomada da economia em “V” depois da pandemia do novo coronavírus. Os principais componentes da demanda doméstica ficaram “trancafiados”, ou seja, sob lockdown durante alguns meses.

Agora, essas decisões represadas afloram conforme as restrições sociais diminuem. Além dessa demanda reprimida, estímulos nos âmbitos fiscal e monetário foram colocados em prática tanto aqui como mundialmente.

O Banco Central destaca, no estudo Facing the Economic Crisis of COVID-19, que as ações destinadas à provisão de crédito e ampliação de liquidez somam 17,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em termos de impacto potencial. Pelo menos, até agora.

Do lado dos gastos públicos, o impulso fiscal (discricionário), focado no combate aos efeitos da COVID-19, é de 7,3% do PIB. Essas medidas de política fiscal e monetária foram de magnitude relevante por aqui, quando comparadas em âmbito global.

     

Essa conjunção de fatores ajuda a explicar a melhora nos dados correntes de atividade, após o “pico” do isolamento social, que ocorreu em abril. No entanto, também sinaliza os ganhos consecutivos dos índices de confiança nos últimos três meses.

Os índices antecipam movimentos de curto prazo da economia e apontam, nessa metade de julho, para a continuidade da retomada à frente. O interessante é que alguma desigualdade setorial também é perceptível.

Índice de confiança

Antes de ver os resultados do Índice de Confiança Empresarial (ICE), observe o gráfico a seguir. O indicador é calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e consolida os índices de confiança dos quatro setores cobertos pelas sondagens empresariais com indústria, serviços, comércio e construção.

Considerando a coleta até 14 de julho, o Índice de Confiança Empresarial (ICE) já recompôs 79% da perda sofrida em março e abril. Em julho, especificamente, todos os setores apresentaram melhoria.

O destaque da alta foi da Confiança Industrial (ICI), com acréscimo de 17 pontos. Isso fez o setor apresentar a maior recuperação desde abril, chegando a 85%. Em segundo lugar, veio o Comércio (ICom), que teve recomposição de 62%.

Nos índices de Serviços (ICS) e Construção (ICst), a devolução das quedas foi de 59%. Por fim, a Confiança dos Consumidores (ICC) mostra cautela, mas aproximadamente 60% do declínio observado até abril já foi restituído.

O ICE e o ICC, contudo, ainda se situam entre 9% e 15%, abaixo dos níveis pré-COVID-19. Ou seja, as altas recentes não repõem a perda acumulada no bimestre março e abril, com queda de 54% e 41%, nessa ordem.

Isso acontece porque o impacto adverso foi expressivo, com interrupção forçada das atividades produtivas e do consumo, bem como da circulação de pessoas para conter a disseminação do vírus. Ainda assim, com o fim dos lockdown regionais e a normalização gradual da situação econômica, os efeitos negativos tendem a reduzir, em porcentagem anual.

Índices de atividade

No que se refere aos índices de atividade, a volta integral aos níveis anteriores ao novo coronavírus é vislumbrada apenas em fins de 2021, no nosso cenário. A expectativa de crescimento é por volta de 3% em 2021 e 2022, após uma queda de 6% em 2020.

Com base nessa discussão setorial, detalhar o “formato em V” projetado para o IBC-Br pode trazer insights interessantes a respeito das características do choque corrente, bem como do padrão futuro da recuperação. Algumas perguntas que surgem são as seguintes.

  • Será setorialmente desigual?
  • Terá um desempenho mais fraco em serviços?

Nesse cenário, parece oportuno analisar as pesquisas conjunturais do IBGE — ou seja, Pesquisas Mensais de Comércio (PMC), Serviços (PMS) e Indústria (PIM) —, de acordo com os respectivos grupamentos de atividade. Afinal, esses levantamentos são insumos relevantes para o cálculo do IBC–Br e do PIB.

PMS

Ao detalharmos os serviços, segundo as atividades pesquisadas pelo IBGE, o destaque positivo é “informação e comunicação”. Essa categoria também engloba a área audiovisual e de notícias e recuou apenas 9% até maio de 2020. Ao mesmo tempo, já repôs 56% das perdas verificadas entre fevereiro e abril.

Em segundo lugar, ainda do lado menos negativo, temos também a categoria “outros serviços”. Ela inclui atividades de reparação/manutenção de bens duráveis, como computadores, além de intermediação financeira, gestão de recursos e até descontaminação de locais/resíduos.

O agregado dessa classificação cedeu 12% do começo de 2020 até maio. Ainda retomou 51% do nível perdido no período mais baixo da crise. Esses movimentos dentro da PMS já parecem refletir alguma mudança no “novo normal”, como:

  • trabalho remoto;
  • uso maior de dados;
  • utilização de novas tecnologias para compensar o distanciamento social;
  • higienização de ambientes.

É importante ressaltar que o setor de serviços responde por aproximadamente 60% do PIB nacional, sob a ótica da oferta. No entanto, do lado negativo, temos aqueles “prestados às famílias”. Esse subgrupo compreende atividades de alojamento, alimentação, recreação, esportes, educação e mais.

Essas são atividades que foram “forçadas” a parar devido à necessidade do isolamento social. Com isso, a retração foi de 84% no ano até maio. A restituição foi de 9% das perdas decorrentes da COVID-19. A alta no mês de maio, de 15% após ajuste sazonal, coincidiu com o fim das medidas restritivas em algumas capitais.

Po fim, com um comportamento semelhante ao da PMS total, os “serviços de transportes” mostram perda de 21% até maio, com reposição de 14% da baixa. São atividades que guardam maior correlação com a indústria e o comércio, especialmente devido ao transporte de cargas. Esses dois setores reagiram de maneira positiva em maio.

Ao mesmo tempo, os serviços de transportes também refletem a circulação de pessoas. Isso significa que, com a reabertura da economia, sua tendência positiva se intensificará no curto prazo.

PMC

No comércio também há insights interessantes. Veja o gráfico.

As vendas em supermercados impulsionaram o varejo total de forma positiva, mesmo durante a crise do coronavírus. Em 2020, esse segmento cresceu 8% até maio. Na margem, sua expansão foi de 7%, conforme o IBGE.

Parece haver algum “efeito de substituição” entre as vendas de alimentos para consumo doméstico (supermercados) e de alimentação fora do domicílio (serviço prestado às famílias, que foi captar na PMS). Isso porque os trabalhadores em home office deixam de fazer suas refeições em bares e restaurantes.

Essa característica pode dificultar a retomada desse tipo de serviço no processo de recuperação. Outro setor positivo no varejo amplo foi o de materiais de construção, com queda de 1% até maio, já que foi considerado atividade essencial no âmbito das políticas de isolamento aqui implementadas.

As vendas de vestuário, por sua vez, perderam quase 100% no ano até maio. Em seguida, vieram os automóveis, com retração de 41%, e combustíveis, com queda de 23%. Essas atividades exerceram as maiores influências negativas no varejo até essa metade de 2020 e refletem paralisação total ou parcial das lojas consideradas não essenciais. Além disso, mostram a redução do fluxo de pessoas em respeito ao isolamento social.

O programa de auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal também pode explicar parte do descolamento entre varejo e serviços. Segundo os dados oficiais, esses benefícios ajudam 65 milhões de trabalhadores, com uma injeção esperada de R$ 250 bilhões na economia.

Por isso, esse benefício é parte relevante dos estímulos fiscais anticíclicos aqui adotados. Com essa renda extra, foi elevado o consumo de bens da parcela mais vulnerável da população, pelo menos, temporariamente. Essas pessoas têm maior propensão à compra de itens básicos, em detrimento dos serviços.

PIM

Por fim, a produção industrial também é importante. Veja o gráfico:

A indústria representa cerca de 20% do PIB total. A abertura por categorias de uso evidencia que a produção de bens duráveis foi o que mais sentiu o “baque” da COVID-19. No acumulado do ano até maio, esse segmento recuou 113%, sendo que apenas 17% das perdas até abril foram repostas.

Em seguida, vêm os bens de capital, com retração de 31% e recomposição de 28%. Na outra ponta, os setores menos afetados negativamente foram os das categorias de intermediários, com redução de 13%, e bens de consumo semi/não duráveis, com queda de 18%.

No primeiro caso, são atividades intensivas em capital, como mineração, químicos, cimentos, extrativas e mais. Elas foram pouco impactadas pelo isolamento social. No segundo, são essenciais, por exemplo, produtos farmacêuticos e alimentícios, que não sofreram bloqueio expressivo.

Os resultados por estados

A crise do novo coronavírus também atingiu de maneira desigual os estados brasileiros, ainda que a queda tenha sido generalizada. Das diferentes regiões do País, a Centro-Oeste apresentou o melhor desempenho, com retração de atividade de 3% no ano até maio.

Isso porque ela é a maior produtora brasileira de commodities agrícolas, como soja e carne. Esses produtos tiveram alta nas vendas domésticas e externas durante a pandemia.

Além do Centro-Oeste, existem as outras regiões, com quedas mais expressivas. O Sul teve redução de 6%, o Sudeste de 8%, o Norte de 10% e o Nordeste de 11%. Veja no gráfico.

O bottom line, aqui, é a heterogeneidade da recuperação da atividade no Brasil nos últimos meses, tanto em nível setorial quanto regional. Os supermercados, a construção civil e as indústrias de alimentos e bens intermediários foram os que menos sofreram na pandemia até o momento.

Em âmbito regional, a produção agrícola recorde tem favorecido o descolamento para melhor do ciclo econômico do Centro-Oeste e até do Sul, perante o nacional. Por outro lado, outras atividades foram bastante atingidas pelo isolamento social, entre elas:

  • os serviços de alimentação fora de casa;
  • o comércio de roupas, automóveis e combustíveis;
  • a manufatura de bens duráveis e de capital.

Os dados de atividade em junho e julho indicam retomada mais espraiada, principalmente após as reaberturas graduais de Rio de Janeiro e São Paulo. Com isso, mantemos nossas projeções de queda de 10% na relação trimestral para o PIB do segundo trimestre de 2020.

O crescimento médio trimestral deve ficar ao redor de 3% na segunda metade do ano, contando com impacto positivo dos subsídios emergenciais do governo. Dessa maneira, o PIB de 2020 deve encerrar com variação negativa de 6%. Veja outros dados:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020 e 3% em 2021;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020 e R$ 5,20 em 2021;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020 e 3% em 2021;
  • Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP): 5,57% em 2019, 4,65% em 2020 e 4,81% em 2021;
  • PIB: 1,1% em 2019, –6% em 2020 e 3% em 2021.

Quanto aos fatores de risco em torno desse cenário, destacamos a evolução da COVID-19 em território nacional, além da velocidade da economia após os estímulos temporários. Ainda pode haver uma eventual mudança nos hábitos das famílias, com perda de importância dos serviços prestados.

Por outro lado, há aumento das compras de alimentos e outros produtos em domicílio. Isso porque o nosso crescimento econômico e a geração de empregos são bastante atrelados aos serviços.

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