Radar da Economia: Eleições nos EUA e os possíveis riscos

Se você perguntar a qualquer economista o que ele pensa sobre determinado cenário, certamente ele começará sua resposta com a palavra “depende”. Em seguida, ele trará algum evento decisivo para definir sua chance de ocorrência.

Nos Radares da Economia recentes, focamos o “depende” interno, com mais personificação na questão do teto dos gastos. Para evitar que o cenário de previsão fique incompleto, usaremos esta análise para chamar a atenção ao aspecto externo. Mais precisamente, a eleição presidencial dos Estados Unidos.

O que é mais relevante na eleição americana?

Quando pensamos em riscos associados a uma eleição, a primeira coisa que vem à mente é “quem” vai ganhar. No caso da eleição americana, esse não é exatamente o ponto. O mais importante, aqui, é o “como” vai ganhar.

Apesar de muitas análises afirmarem que a vitória do democrata Joe Binden poderia levar à queda das bolsas, uma simples contextualização histórica mostra que a realidade é um pouco diferente. A alegação de que os republicanos são mais pró-mercado do que os democratas é uma grande falácia.

Isso pode ser confirmado ao avaliar os resultados do Standard & Poor’s (S&P) desde o primeiro governo de Richard Nixon (1969) até hoje. Ao fazer essa análise, notamos que a bolsa americana subiu, em média, 17,5% nos governos republicanos e 57,5% nos democratas.

Com certeza, os dois governos de George W. Bush prejudicam a média republicana, já que ocorreram os atentados de 11 de setembro e a crise da Lehman Brothers. No entanto, como diria Nelson Rodrigues, “com sorte, você atravessa o mundo, sem sorte, você não atravessa a rua”.

Portanto, queda nas bolsas devido à vitória democrata pode ser um ótimo momento de compra. Ainda assim, é impossível dizer o “como” ele pode ganhar.

Funcionamento do processo eleitoral nos EUA

Antes de entrar nos perigos que o evento citado pode representar para o cenário de final de ano, vamos entender um pouco o caótico processo eleitoral americano. A turbulência, já existente, será agravada pela COVID-19 e o aumento expressivo dos votos pelos correios.

Como já bastante reconhecido, o sistema eleitoral americano é bastante antiquado, uma vez que eles levam muito a sério o nome do país. Ou seja, o federalismo por trás da denominação “Estados Unidos” concede autonomia para que cada estado determine a forma de votação.

Desse modo, são utilizadas desde cédulas de papel até urnas eletrônicas, sem unificação dos padrões, como ocorre no Brasil. Isso faz com que todo o processo seja mais demorado e sujeito a contestações. Além disso, também é reflexo do apego dos americanos pelo federalismo.

Com isso, o vencedor nem sempre é aquele com mais voto popular, mas quem tem mais delegados no Colégio Eleitoral. Eles são definidos por eleições locais, normalmente no sistema “quem vence leva tudo”.

Por exemplo, se o candidato ganhar a votação na Califórnia, levará para a eleição indireta o total de delegados do estado, ou seja, 55. Por sua vez, aquele que ganhar no Arkansas, levará os 6 representantes de lá. Para ser eleito, é preciso chegar ao mínimo de 270 votos do total de 538 do Colégio Eleitoral.

Como afirmamos, nem sempre o eleito pelo voto popular se torna presidente. Foi assim com Hillary Clinton, em 2016. Ela teve 2,8 milhões de votos a mais do que Donald Trump, mas apenas 232 delegados, contra 306 do concorrente.

Outro episódio ainda mais controverso foi em 2000. Na época, George W. Bush perdeu para Al Gore no voto popular, mas ganhou no Colégio Eleitoral devido aos votos decisivos dos 25 delegados da Flórida. Nesse estado, ele ganhou por apenas 537 votos, com direito a recontagem e resultado decidido na Suprema Corte — equivalente ao Supremo Tribunal Federal — mais de um mês após a votação.

Quais são os riscos da eleição americana?

O principal perigo relacionado às eleições é justamente a possibilidade do resultado seguir para os tribunais. Quando isso acontece, o mercado fica em suspense por mais de um mês. Ainda existe um agravante: enquanto em 2000 o presidente em exercício Bill Clinton não participava do pleito, agora é diferente.

Em outras palavras, em 2000 não havia um vácuo de poder. Isso pode acontecer em 2020 — e a chance é muito grande. Afinal, uma das peculiaridades do processo eleitoral americano é a possibilidade de votar pelo correio. Alguns estados pedem uma justificativa, outros não. No entanto, todos permitem.

Em 2016, por volta de 25% dos eleitores usaram esse meio para votar, inclusive o atual presidente Donald Trump, que tem domicílio eleitoral na Flórida. Aqui, começa a confusão. Apesar dele parecer ser um entusiasta do voto pelo correio, tem colocado muitas dúvidas relacionadas à sua confiabilidade.

Trump tem incentivado os estados a não aceitá-lo e/ou aumentar as exigências para fazê-lo, especialmente nos locais governados por republicanos. Nas últimas semanas, inclusive, o presidente dos correios, aliado de Trump, chegou a cogitar a hipótese de reduzir as verbas para a logística das eleições. Porém, o movimento foi barrado no Congresso pelos democratas.

Além disso, se nas últimas eleições cerca de 1/4 dos eleitores votou pelo correio, agora a expectativa é que mais de 50% faça isso devido à pandemia da COVID-19. Para complicar ainda mais a situação, é esperado que a maioria desses eleitores seja de democratas — e isso é confirmado pelos dados.

Isso deve acontecer porque os democratas se mostram mais preocupados com a doença do que os republicanos. Tanto é que, ao fazer um cruzamento dos números da pesquisa da Pew Research Center sobre o percentual dos eleitores por estado que desejam votar pelo correio, percebe-se que 71,6% dos eleitores pretendem usar esse meio nos estados em que Joe Biden é favorito.

Por sua vez, nos estados em que Trump é favorito, apenas 53,6% pretendem usar o correio para votar. Portanto, unindo o fato de que haverá um grande aumento de votos pelo correio e que eles devem ser, em boa parte, para Biden, há o caminho aberto para confusão. Isso porque Trump já avisou que não aceitará a derrota se esse tipo de voto prevalecer.

Quais são os possíveis cenários?

Não precisa ter muita criatividade para traçar o seguinte contexto: a maioria dos votos “normais” vai para Donald Trump, que declara vitória antes da contagem dos votos pelos correios. O exército virtual do presidente americano começa a denunciar fraudes na votação a distância.

Com o avanço da contagem dos votos pelos correios, Joe Biden toma a dianteira e vence as eleições. Trump não aceita o resultado e entra na justiça para contestar a vitória dos democratas. Manifestações pró e contra ocorrem em todo o país e o processo chega à Suprema Corte, como em 2000.

Assim, temos uma probabilidade que deve ser considerada de chegarmos próximo ao final do ano sem saber quem será o novo mandatário da maior economia do mundo. Se traçarmos cenários menos pessimistas, vemos duas situações sem essa “tempestade perfeita”.

A primeira e mais óbvia seria a vitória de Donald Trump. Apesar de alardear que ganhou mesmo com a fraude, ele não contestaria o resultado. A segunda seria uma vitória esmagadora de Biden. Nesse caso, mesmo as denúncias de fraude por parte dos republicanos, o ganho não poderia ser contestado.

Olhando o cenário atual, apesar de nenhum dos dois ser o cenário-base, o primeiro parece ser mais crível do que o segundo. Ao olhar os dados do Real Clear Politics, Joe Biden tem uma vantagem de 7,6 pontos percentuais sobre Donald Trump na média das pesquisas nacionais de intenção de voto.

Parece bastante, mas a candidata Hillary Clinton tinha uma vantagem de 5,5 pontos percentuais sobre Trump, em 2016. Isso foi insuficiente para levá-la à vitória no Colégio Eleitoral, apesar de ganhar na votação nacional por 2,1 pontos percentuais.

Levando a análise para o voto indireto, a situação é ainda mais incerta. Apesar da Real Clear Politics indicar que o democrata teria 212 votos no Colégio Eleitoral contra 115 de Trump, ainda assim haveria 211 votos totalmente incertos. Essa análise considera a soma dos estados garantidos.

Portanto, parece claro que a eleição americana será apertada. Como consequência, poderá ser contestada. A única garantia é a volatilidade dos mercados nos últimos dois meses do ano. Seguindo a piada que o tenor de uma ópera conta ao ser vaiado, ele se volta para a plateia e diz: “esperem pelo barítono”. Assim, se as coisas já estão complicadas com a COVID-19, “esperem a eleição americana”.

No Brasil, as projeções econômicas são:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5% em 2020, 3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020, R$ 5,20 em 2021 e R$ 5,30 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, –5,3% em 2020, 3% em 2021 e 3% em 2022.

O que achou da análise sobre a eleição americana? Deixe seu comentário e explique se concorda com algumas das opções apresentadas.

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