Radar da Economia: Dados econômicos sinalizam melhora do PIB brasileiro

Nossa análise dos principais indicadores de atividade publicados na semana finalizada em 4 de setembro traz uma mensagem construtiva: a retomada da economia brasileira na segunda metade de 2020 ganhou mais consistência.

Isso aconteceu apesar da surpresa trazida pelo Produto Interno Bruto (PIB) do 2º trimestre de 2020 e das incertezas em torna da eficaz contenção epidêmica, que ainda pairam no ar. Aqui, as políticas expansionistas — tanto monetária quanto no fiscal — e as medidas macroprudenciais exercem papéis relevantes.

Essa importância é verificada em termos de alento à economia e no que se refere à estabilidade financeira. Como resultado, há grande contribuição para a melhoria da confiança. Para entender melhor o cenário, vamos explicar sobre os dados mais recentes neste Radar da Economia.

Como ficaram os dados da semana?

Antes de começar, é importante lembrar de que, no que se refere à pandemia, os agentes econômicos têm reassumido as suas rotinas diárias após o fim das restrições sociais. Isso acontece apesar da incerteza e de forma gradual.

Tanto é que os dados de mobilidade individual têm, efetivamente, melhorado na margem dos principais países, inclusive o Brasil, desde a baixa verificada em abril. Dessa maneira, o real impacto contracionista das políticas de isolamento sobre a atividade também ficou concentrado nesse mês, como já havíamos previsto.

Unindo as peças desse quebra-cabeça, nossa expectativa para o PIB do 3º trimestre de 2020 é de crescimento de 7%. Em seguida, deverá ocorrer uma expansão média de 0,7% nos períodos sequenciais. Assim, a economia brasileira deverá aumentar 3% em 2021.

A análise de mobilidade das pessoas

Quando analisamos o que o Big Data informa em termos de mobilidade das pessoas ao redor do mundo, precisamos associar os dados em alta frequência com os diferentes PIBs já divulgados e projetados. Assim, teremos uma boa “régua” para as contas nacionais, com base no distanciamento individual.

De acordo com a base do Google Mobility Trends, verificamos que a categoria de locais pesquisados que mais traz informação em termos de variação do PIB é a que retrata o movimento no entorno de suas respectivas residências. Sua correlação é negativa com o crescimento.

Portanto, quanto mais se fica em casa, menos valor adicionado é gerado. Como consequência, o PIB tende a retrair. Isso está desenhado nos gráficos a seguir, nos quais apresentamos o deslocamento das pessoas em áreas residenciais (eixo X) contra as variações do PIB de cada país (observadas ou projetadas) no 2º e no 3º trimestres de 2020 (eixo Y).

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Os fortes recuos de PIB no 2º trimestre de 2020 estiveram associados ao aumento da mobilidade em áreas residenciais, representadas em pontos azuis no gráfico. Contudo, essa movimentação já é menor no 3º trimestre de 2020, como é possível ver nos pontos alaranjados.

A mudança foi verificada por conta do afrouxamento dos lockdowns regionais, que foram adotados de maneira abrangente a partir do final de maio. Com isso, a maioria das variações projetadas para a atividade econômica nesse trimestre se situam no terreno positivo.

A linha de tendência (verde) entre X e Y é negativamente inclinada, conforme esperado. Partindo dessa relação linear, uma simulação simples aponta para o PIB do Brasil uma variação próxima de zero no 3º trimestre de 2020. Para isso, foram usados dados do Google até 30 de agosto.

Nossas projeções já estão bem acima disso, conforme abordaremos de imediato com o detalhamento do PIB do 2º trimestre de 2020.

As avaliações do PIB

Aqui, é preciso olhar o IBGE e os dados do 2º trimestre de 2020. Foram registradas quedas de 9,7% na margem e de 11,4% na comparação interanual. Ambas as retrações foram mais fortes do que aquelas observadas no 1º trimestre de 2020. Nesse período, as diminuições foram de 2,5% e 0,3%, respectivamente.

Os dados do 2º trimestre de 2020 também vieram abaixo do consenso, que era uma retração de 9,1% e 10,5%. A nossa projeção também foi diferente. Acreditamos que a redução seria de 8,6% e 10,3%. Com isso, o resultado acumulado no ano é de –5,9%. Os últimos 4 trimestres apuram queda de 2,2%.

No que se refere a desvios de projeção, o destaque são os recuos mais fortes em:

  • gastos do governo: –8,8% na comparação trimestral;
  • consumo das famílias: –12,5%.

No 1º trimestre de 2020, os resultados haviam sido de –1,9% e 0,2%. Em especial, alguns serviços públicos ou prestados a famílias tiveram tratamentos estatísticos específicos para os impactos da COVID-19, de acordo com o IBGE.

Com isso, algumas atividades — como as de saúde, educação, administração pública etc. — que ficaram paralisadas e sem atendimento online geraram perdas relevantes em relação ao Valor Adicionado, do PIB oficial. Essa inovação metodológica explica a redução de 1,8 ponto percentual da nossa surpresa.

Em nossa avaliação, deve haver alguma devolução desse efeito — ou payback — nas próximas apurações do PIB pelo IBGE. Isso conforme os serviços paralisados — educação, parques e museus, por exemplo — retornarem ao “normal”, seja presencial, seja virtual.

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Ainda do lado da demanda, os investimentos tiveram queda de 15,4% na comparação trimestral. As importações apresentaram redução de 13,2%. Por sua vez, as exportações aumentaram 1,8% no 1º trimestre de 2020 puxadas pelo agronegócio.

Em resumo, a absorção doméstica cedeu bastante no 2º trimestre de 2020. Isso foi um reflexo direto do combate à COVID-19. Com isso, o gap entre as taxas de poupança — 15,5% do PIB — e investimentos — 15% — votou para o lado positivo, de 0,5%. Isso não era visto desde 2008.

Quanto à composição do PIB do 2º trimestre de 2020 pela oferta, conforme os gráficos acima, as maiores influências negativas vieram de serviços e indústria, com queda de 9,7% e 12,3% no trimestre, respectivamente. Esses setores aceleraram seu ritmo de queda contra o 1º trimestre de 2020.

Suas atividades tiveram funcionamento paralisado total ou parcialmente ao longo do 2º trimestre de 2020 devido às medidas de restrição social implementadas. Essas tiveram seu “pico” no mês de abril. Desde fins de maio, foram gradualmente relaxadas em praticamente todas as regiões do País.

Como deve ficar o PIB de 2020?

Com as medidas de sustentação da demanda vindas do lado fiscal e monetário, ajuda a explicar os ganhos de confiança vistos até agora no 3º trimestre de 2020 e a dinâmica menos negativa do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Esses dados antecedentes também continuam apontando para a expansão entre 3% e 7,4% do PIB no 3º trimestre. É importante notar que a agricultura continua no terreno positivo, sendo “carregada” pela alta produtividade dos grãos. Os resultados foram alta de 0,4% na comparação trimestral e 1,2% na anual.

Essa trajetória positiva não será alterada ao longo do ano. Seu peso no PIB, contudo, é pouco expressivo, de 5%.

Ainda assim, considerando o PIB do 1º trimestre de 2020 revisado para menor — de –1,5% para –2,5% — e a surpresa para baixo no número do 2º trimestre de 2020, o PIB de 2020 deve retrair perto de 5,8%. Antes estava estimado em uma queda de 5,3%. Isso mesmo com a forte aceleração esperada para o 3º trimestre de 2020 e eventual payback das inovações metodológicas citadas.

Em especial, no que se refere ao 3º trimestre, os dados da indústria em julho surpreenderam para melhor. Isso reforça a boa perspectiva para o PIB. Nesse sentido, analisamos a seguir a dinâmica da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) nesse início de trimestre.

Resultados da PIM

De acordo com o IBGE, a produção industrial no Brasil subiu 8% em julho de 2020. A taxa ficou acima do consenso de mercado (5,9%) e da nossa projeção (4,5%). As leituras de junho e maio foram revisadas para cima, com resultado de altas de 9,7% e 8,7%, respectivamente.

Em mais detalhes, houve altas difusas entre os diferentes componentes da PIM. Todas as categorias pesquisadas subiram no mês, especialmente a de bens duráveis, que cresceu 42%. Essa foi puxada pelos automóveis, com aumento de 44%. Além disso, 25 dos 26 ramos de atividade expandiram nessa base de comparação.

Esse movimento positivo, segundo o IBGE, veio basicamente do retorno das atividades produtivas após as interrupções devido à COVID-19. Em relação ao nível de produção, tanto a indústria geral, com queda de 6%, quanto seus subsetores estão abaixo do patamar de fevereiro de 2020.

Essa diferença, segundo nossas simulações, deve ser menor no início do 4º trimestre e ficar flat ao final do ano. Confirmado esse quadro, a indústria em 2020 deve recuar 6,6%.

Carregamento estatístico da PIM

Ao levar em conta os dados divulgados, o simples exercício de carregamento estatístico da PIM para o 3º trimestre de 2020 já indica 17,8% contra o trimestre anterior. Para o PIB da indústria, o ritmo já é compatível com expansão na faixa de 14% na comparação trimestral, usando como base o 3º trimestre de 2020. Ainda há 3 pontos percentuais de alta de contribuição ao PIB total.

As informações setoriais da indústria em julho, inclusive, sugerem que o agregado de investimentos no PIB (FBKF) deve ficar em 21% no 3º trimestre de 2020. Do lado das importações, assim como nas medidas das contas nacionais, o segmento de bens intermediários aponta para um crescimento de 20% na comparação trimestral.

Ou seja, todos esses são indícios robustos de retomada nesse 3º trimestre, tanto do lado da oferta quanto da demanda. Esse cenário é verificado mesmo em cima da surpresa para baixo do PIB do 2º trimestre de 2020.

Resultados em outros setores

Por fim, outra característica comum e de âmbito mundial da retomada pós-coronavírus diz respeito à divergência entre os setores da economia. O índice PMI Composto do Brasil, calculado pela IHS–Markit, trouxe informações interessantes.

Ele atingiu 53,9 pontos em agosto, vindo de 47,3 em julho. Isso indica o primeiro mês em território expansionista (>50) desde fevereiro. O setor industrial liderou a retomada com 64,7 e exibiu a alta mais forte já mensurada pela pesquisa, impulsionado por fortes altas nos volumes produzidos e nas novas encomendas.

Por outro lado, o setor de serviços continuou no terreno contracionista, ainda que apenas levemente abaixo de 50 pontos. Os resultados foram de 49,5 em agosto e 42,5 em julho. Os efeitos adversos da COVID-19 continuam pesando sobre o setor, que contou apenas com modesta melhoria no índice de novos negócios.

Como consequência, o nível de empregos seguiu em queda no mês com os provedores de serviços. Ao mesmo tempo, o quadro de funcionários na indústria aumentou em um ritmo mais robusto do que o verificado em mais de 10 anos.

Ao traduzirmos essa divergência setorial para os índices de atividade no Brasil, nossa expectativa é que isso persista enquanto uma solução definitiva (vacina) para a doença não surgir. Até então, a maior aversão às aglomerações e às atividades sociais tendem a pesar mais nas atividades de serviços.

Outros dados da economia devem ficar da seguinte forma, conforme nossas projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 1,5$ em 2020, 3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5 em 2020, R$ 5,20 em 2021 e R$ 5,30 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, –5,8% em 2020, 3% em 2021 e 3% em 2022.

Assim, reforçamos aqui a nossa expectativa de retomada da economia nacional a partir da segunda metade de 2020. O PIB deve mostrar forte rebound no 3º trimestre, uma vez que o “pior da crise” foi em abril e o dia a dia dos agentes econômicos segue voltando ao normal desde então.

Além disso, os estímulos à economia devem continuar exercendo seus efeitos, ainda que em menor grau, no decorrer dos próximos trimestres. Com isso, após o 3º trimestre de 2020, o ritmo “normal” da economia deve ceder para 0,7% na comparação trimestral, em média, conduzindo à expansão de 3% em 2021.

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