Radar da Economia: As preferências inflacionárias do FED

A semana terminada em 25 de setembro foi particularmente marcada por diferentes manifestações verbais de membros do Banco Central dos Estados Unidos, o Federal Reserve (FED). No total, foram três aparições públicas do presidente Jerome Powell e múltiplos discursos de dirigentes regionais e integrantes do conselho da autoridade monetária.

Em suas falas, foram identificados vários pontos em comum. Entre eles está a importância do apoio fiscal para sustentar a recuperação econômica. Isso porque as ferramentas do FED são reconhecidamente limitadas na atual conjuntura.

Além disso, existem incertezas em torno da própria perspectiva de retomada, que é marcada por divergências entre os setores econômicos. Por outro lado, os dirigentes mostraram certo desacordo em termos de expectativas. Inclusive, com implicações diretas na resposta “ideal” de cada um, quando se trata de política monetária.

Nesse contexto, parece oportuno investigar algumas pistas sobre a “função de reação” de cada FED speaker dentro da nova estrutura de política monetária adotada pela instituição em agosto. É o que faremos neste Radar da Economia, a partir dos discursos da semana.

Discursos relevantes

Para começar, é necessário destacar que a nova estrutura de trabalho do FED implica em vigência de juros baixos por um período prolongado (“lower for longer”). Nossa análise não altera essa perspectiva, mas traz mais detalhes sobre a leitura de cada dirigente a respeito do trade off entre inflação e atividade.

Ainda assim, como o tema fiscal foi parte relevante do debate nos Estados Unidos, faz sentido olhar para o que os membros do FED pronunciaram a respeito do tema. O presidente Jerome Powell levantou a necessidade do estímulo fiscal de maneira cuidadosa e recorrente durante suas audiências no Congresso.

Ele citou a falta de suporte fiscal adicionais, que poderia elevar os riscos baixistas para a atividade econômica. Esse discurso foi feito apesar das previsões terem melhorado na margem e em meio ao persistente impasse político em torno de um novo pacote.

Outros dirigentes foram mais enérgicos, como a presidente do FED de Cleveland, Loretta Mester. Ela comentou que o novo plano é muito necessário, especialmente devido ao “buraco profundo” do qual a economia está saindo.

O presidente da regional de Chicago, Charles Evans, expressou preocupação com a falta desse impulso adicional na atividade. Enquanto isso, o presidente do FED de Boston, Eric Rosengren, sugeriu que será necessária outra onda de infecções para uma ação mais imediata do Congresso, provavelmente, só no próximo ano.

Na mesma direção, o presidente do Reserve Bank de Atlanta, Raphael Bostic, disse temer perdas permanentes de empregos, a menos que haja apoio fiscal adicional. Com isso, ecoou comentários de Powell sobre a intensificação da desigualdade econômica.

Esse último tópico, inclusive, é novo e recorrente nos comentários oficiais. Foi enfatizada pelo presidente do NY FED, John Williams: “A desigualdade estrutural sufoca o crescimento”. Também foi comentada pelo chairman da sucursal de Atlanta, Raphael Bostic.

Ele é o primeiro presidente negro de um FED regional nos 106 anos de história do BC americano. Além disso, citou que o racismo histórico foi um empecilho para os negros americanos terem acesso a serviços financeiros.

O presidente do Chicago FED, Charles Evans, também destacou a desigualdade ao enfatizar a necessidade de apoio fiscal, na linha do indicado por Powell. “Quanto mais tempo o duplo desafio da pandemia e da recessão continuar, maior é o risco de aprofundar as já gritantes desigualdades em nossa economia”, afirmou.

Novo plano dos Democratas

Com todos esses alarmes feitos pelos policy makers do FED, os Democratas da Câmara divulgaram um novo plano de auxílio, que chega a 2,3 trilhões de dólares. O anúncio foi feito no dia 24 de setembro.

O ponto principal, aqui, é que a recuperação consistente da economia americana após o choque da COVID-19 segue um tanto incerta. Além disso, a fase crítica do período eleitoral mal começou, mas ainda deve haver mais impacto nos preços de mercado.

Do lado da atividade econômica, o presidente do Federal Reserve Bank de St. Louis, James Bullard, merece destaque devido a seus comentários otimistas durante a semana. Ele enxerga que “com o PIB possivelmente crescendo a 10% no 4º trimestre, a renda nacional no final de 2020 já estaria próxima do nível médio de 2019”.

Esse resultado seria garantido após crescer por volta de 35% ao ano no 3º trimestre, assim como projetado pelo FED St. Louis. Os comentários ainda contrastaram bastante com os de outras autoridades, que pediram por mais ajuda fiscal para manter o que consideram uma recuperação tênue.

Por sua vez, Bullard acredita que a expansão da economia seguirá seu caminho certo, mesmo sem novo impulso fiscal. Isso porque o boot fiscal verificado até agora já excedeu a “falta” efetiva de Produto Interno Bruto (PIB) no período. Assim, de maneira ampla, “há recursos consideráveis canalizados para combater a crise”, comentou em sua apresentação.

No outro extremo, o presidente do FED de Boston, Eric Rosengren, afirmou que sua perspectiva econômica é mais pessimistas do que a de seus pares. O motivo é a crença de que o ressurgimento do vírus diminuirá os gastos dos consumidores e prejudicará o mercado imobiliário comercial.

Com isso, ele acredita que “a parte mais difícil da recuperação ainda está pela frente”. Suas projeções para a trajetória do desemprego, inclusive, situam-se acima da mediana dos demais participantes, como ele próprio enfatizou.

Na visão mais cautelosa de Loretta Mester, do Federal Reserve de Cleveland, a economia dos Estados Unidos se recuperou mais fortemente do que o esperado desde o início do processo de reabertura. Contudo, esse movimento não é amplo ou sustentável.

Muitos setores — inclusive viagens, lazer e hospitalidade — terão uma retomada lenta, ela afirmou. Assim, esses pontos trazidos pelos oficiais do FED reforçam, em sua maioria, o caráter ainda tênue dessa fase de retomada econômica dos Estados Unidos.

Taxas de juros

Nesse cenário, o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês, sinalizou que as taxas de juros ficarão ao redor de zero ate 2023. Ele adaptou sua declaração pós-reunião para refletir a nova estratégia, que permite a alta da inflação acima de 2% após períodos abaixo desse patamar.

A orientação gerou algumas posições diferentes entre os dirigentes do FED, como o líder da unidade de Chicago, que mencionou recentemente que é possível aumentar os juros antes da inflação atingir 2%, em média.

Em termos de cenário para a inflação, a presidente do FED de São Francisco, Mary Daly, explicou que o foco do BC agora é eliminar o déficit de empregos — versus seu nível máximo potencial. Para isso, monitorará os preços de forma a avaliar se a meta está sendo cumprida.

“Não vamos escrever um número artificial sobre o emprego máximo e, quando chegarmos perto disso, ficaremos preocupados”, disse Daly. “Vamos deixar que a inflação seja o nosso guia… Permitiremos que a economia funcione até descobrirmos o que significa o máximo de emprego na prática — quando começarmos a vê-lo aparecer em salários e preços maiores”, reforçou.

Por outro lado, o vice-presidente do FED, Richard Clarida, disse que a autoridade não considerará subir as taxas de juros atuais até alcançar uma inflação PCE — índice de gastos com consumo pessoal — de 2% por, pelo menos, alguns meses. Também é necessário ter pleno emprego.

“Não vamos nem começar a pensar em ajustar os juros. Esperamos até que realmente se observe a inflação (medida em uma base interanual) igual a 2%”, disse Clarida. É importante destacar que o “pelo menos” implica que as taxas poderiam ser mantidas nesse nível, mesmo além disso.

Na mesma linha, o vice-presidente de supervisão do BC americano, Randal Quarles, mencionou que será ainda mais paciente ao reagir a pequenos desvios da inflação, provavelmente. O motivo é a intenção da autoridade em “se concentrar no emprego máximo em vez de desvios inflacionários”.

Em adição, ele diz que “ao fornecer acomodação adicional da política monetária por meio da orientação futura mais forte e baseada em resultados, o FED espera acelerar o ritmo da retomada”. Os riscos que permeiam o cenário, na visão do dirigente, ainda são negativos e a economia precisa de mais apoio por isso.

Por outro lado, o presidente do FED de Chicago chegou a quantificar suas “preferências inflacionárias”. Negou temer uma acomodação mais forte da inflação “(…) na busca de claramente ultrapassar 2%, mesmo ao ponto de 2,5% ou até um pouco mais”. A inflação de 2,5% por algum tempo “está nas cartas”, segundo Evans, se o FED cumprir sua tarefa.

Para o presidente do FED de Richmond, Thomas Barkin, “embora a inflação tenha ficado abaixo da meta de 2%, ela não se manteve tão distante; com algum arredondamento, inclusive, você pode até considerar que o alvo foi atingido”. Nessa direção, Barking afirmou que se sentiria confortável com uma meta inflacionária entre 1,5% e 2,5%.

Vale lembrar também que, ao longo de agosto, tanto Robert Kaplan, do Dallas FED, quanto James Bullard, do St. Louis FED, revelaram publicamente suas metas inflacionárias “ideais”. Ficariam entre 2,25% e 2,5% no primeiro caso e “algo acima” de 2,5% no segundo. Esses seriam os patamares desejáveis de inflação para cada um.

Principais pontos da discussão

As metas “ideais” sugeridas pelos membros do FED em seus pronunciamentos, dentro do novo framework de política, situam-se todas acima do comportamento “normal” da taxa inflacionária dos Estados Unidos. Isso porque desde 2012, quando o FED formalizou a meta de 2%, a inflação média do Core PCE é de 1,6% (interanual).

Taxas ao redor de 2% são pouco frequentes no período, situando-se apenas no último decil da distribuição de probabilidades. Por sua vez, alíquotas acima de 2,1% estão no último percentil. Por isso, são observações ainda menos frequentes.

No Brasil, a expectativa para os indicadores dos próximos anos é:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 2,2% em 2020, 3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021 e R$ 5,40 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, –5,8% em 2020, 3% em 2021 e 3% em 2022.

Ainda que agora tenham mais detalhes sobre as “preferências inflacionárias” de alguns membros do FED, a conclusão dos discursos acima é uma só: lower for longer. A economia norte-americana ainda está bem longe do emprego máximo ou dos 2% de inflação. Assim, as taxas de juros permanecerão baixas por vários anos, muito provavelmente, para além de 2023.

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