Radar da Economia: Os dados de desemprego e outros indicadores para o restante de 2020

O mercado de trabalho será um assunto ainda mais relevante daqui para a frente devido ao contexto de retomada da economia brasileira e mundial. Os programas de sustentação de renda foram implementados de forma vasta em diferentes países, sempre com o propósito de reduzir o choque adverso da pandemia sobre a demanda agregada.

Com o término gradual e programado desses estímulos, a atividade econômica tende a convergir para um ritmo “normal” de expansão à frente, alinhado à dinâmica de renda e emprego. Nesse sentido, este Radar da Economia busca investigar os indicadores do mercado de trabalho divulgados na semana terminada em 2 de outubro.

Em especial, vamos abordar o forte ritmo de criação de vagas em agosto, conforme o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Veremos que os dados mostram que há um acompanhamento da retomada projetada para o Produto Interno Bruto (PIB) do 3º trimestre de 2020.

Por outro lado, essa criação de vagas terá que aumentar ainda mais nos próximos trimestres, de modo a absorver o elevado contingente projetado de mão de obra desocupada. Esse é o ponto-chave da análise da taxa de desemprego referente a julho, publicada pelo IBGE. Acompanhe!

CAGED

Em agosto, a criação líquida de vagas de emprego, de acordo com os dados do CAGED, surpreendeu para melhor pela quarta vez consecutiva. Foram 249,4 mil postos de trabalho gerados no mês. O resultado superou o consenso de mercado, que era de 149,6 mil, e o verificado em julho, que foi de 131 mil.

Feito o ajuste sazonal, o número passou de 118 mil para 178 mil empregos criados na margem. Com isso, a média móvel trimestral subiu para 99,3 mil em agosto. Antes, o índice tinha sido de –55 mil.

O levantamento oficial mostra que sete dos nove setores que compõem o CAGED tiveram resultados positivos em agosto. Os destaques foram:

  • indústria: 90,2 mil;
  • construção civil: 50,5 mil;
  • comércio: 49,4 mil.

Na abertura geográfica, todos os estados exibiram saldos positivos. Os principais foram:

  • São Paulo: 65 mil;
  • Minas Gerais: 28 mil;
  • Santa Catarina: 18 mil.

Ainda que tenham sido criadas 380,4 mil vagas no último bimestre, o acumulado no ano até agora segue negativo, com retração de 775 mil. A soma em 12 meses também está negativa em 755 mil. Isso porque o encerramento de vagas observado no pico da pandemia — março, abril e maio —foi significativo: chegou a aproximadamente 1,4 milhão. Veja nos gráficos.

Mais importante do que isso, é importante associar o ritmo trimestral da criação de vagas com o PIB calculado pelo IBGE. A partir dos gráficos anteriores, avaliamos que o CAGED de agosto é compatível com o Produto Interno Bruto oficial, com uma margem de quase 10% no 3º trimestre de 2020.

Portanto, existe algum viés de alta para o nosso número projetado para o PIB do 3º trimestre, que está em 7%. Esse dado incorpora vários outros indicadores além do emprego, vale a pena ressaltar.

Expectativas

Em nossa visão, os dados do CAGED continuarão em tendência de melhora no curto prazo. Um dos motivos é a retomada/normalização das atividades. No entanto, também é preciso ressaltar os programas de auxílio.

No Brasil, as medidas governamentais de sustentação do emprego —em conjunto com outros estímulos — têm sido eficazes em seu propósito. Programas desse tipo têm sido implementados em vários outros países, como Tailândia, África do Sul, Reino Unido, Japão e Estados Unidos. Em todos eles, os graus de eficácia são distintos.

Esse foi um dos motivos, portanto, que o Ministério da Economia decidiu prorrogar por mais dois meses os acordos de suspensão do contrato de trabalho e redução salarial. Assim, a iniciativa permitida pela Medida Provisória 936 vale até o final de 2020.

Conforme o próprio ministro Paulo Guedes disse, “já são 18 milhões de contratos assinados (e renovados) no âmbito da MP 936”. O custo fiscal estimado até agora é de R$ 25,5 bilhões. Para entender o impacto no CAGED, observe os gráficos a seguir.

Levando em consideração essas informações, nossa expectativa é que o saldo total do CAGED mostre fechamento líquido de 1,2 milhão de postos ao final de 2020. Esse número está alinhado à queda de 5,8% projetada para o PIB no ano.

Na abertura setorial, apresentada na tabela anterior, as performances negativas esperadas para o emprego serão apenas marginalmente compensadas pelos ritmos positivos de outros setores. Os valores em recuo foram nos segmentos de:

  • serviços: –582 mil;
  • comércio: –534 mil;
  • indústria: –189 mil.

Por sua vez, os positivos — que compensam essas retrações — são:

  • construção civil: 86 mil;
  • extrativa mineral: 6 mil.

Para 2021, nossa estimativa preliminar é de criação espalhada de 900 mil vagas ao longo do ano. Com isso, o PIB deverá ficar em torno de 3%.

PNAD Contínua

No quadro desenhado para os próximos trimestres, a grande dúvida é como a economia reagirá quando as medidas expansionistas fiscais e monetárias forem exaurindo. No contexto do mercado de mão de obra, especificamente, o ritmo “natural” e mais comedido da atividade doméstica após os estímulos deve ser suficiente para:

  • absorver o estoque de desocupados;
  • aqueles que voltarão a procurar oportunidades após a melhoria do ambiente econômico na margem.

Nesse sentido, cabe investigar os dados de desemprego da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (PNAD Contínua) divulgados na mesma semana pelo IBGE. O levantamento indicou que a taxa de desocupação cresceu para 13,8% nos três meses encerrados em julho de 2020.

O índice veio de 13,3% em junho e ficou levemente acima do consenso de mercado, que era de 13,7%. Configurou também o alto da série histórica, iniciada em 2012. Nosso ajuste sazonal acusa crescimento da taxa para 13,6% em julho, após 13,1% em junho.

Quanto aos detalhes do levantamento, eles também foram inquietantes. A população ocupada — equivalente a 82 milhões de pessoas — alcançou o menor contingente da série e caiu 12,3% na base interanual.

Essa queda ocorreu de forma generalizada e afetou os segmentos formal e informal, além de trabalhadores domésticos e empregadores. Como adicional, na comparação anual, nove dos dez grupamentos de atividade tiveram redução na ocupação. Os destaques de baixa foram para comércio, serviços domésticos e alojamento/alimentação.

Taxa de participação

Em relação à taxa de participação — relação entre População Economicamente Ativa (PEA) e População em Idade Ativa (PIA) —, o índice ficou em 54,7% e foi a mais baixa da série. Ela caiu 7,4 pontos percentuais contra o mesmo trimestre de 2019. É um reflexo muito claro do “efeito desalento”. Atente ao gráfico a seguir.

Tanto isso é verdade que o contingente de indivíduos fora da força de trabalho subiu para o recorde de 79 milhões, ou 21,8% na comparação interanual em julho. Ou seja, o avanço do desemprego em julho — para 13,8% — só não foi maior porque parte relevante dos trabalhadores que perderam suas vagas desistiu de procurar novas oportunidades de imediato. Com isso, foram para a inatividade.

Sem essa questão, a taxa teria atingido 23,1% no mês, segundo nossos cálculos. É para esse nível que a taxa oficial de desocupação tende a convergir no médio prazo.

Taxa de desemprego

Para o índice de desemprego, é importante ressaltar que a economia reaquece conforme as rotinas se normalizam e a mobilidade pessoal aumenta. Com isso, aqueles que se encontravam fora de atividade tornam a buscar emprego e elevam a taxa. Confira o gráfico.

Em paralelo, com o término previsto do auxílio emergencial em dezembro de 2020, é de se esperar alguma ação precaucional dos agentes econômicos no sentido de buscar novas fontes de renda.

Nossas simulações indicam que a taxa média de desemprego no último trimestre de 2020 deve oscilar em torno de 16,8%. O indicador na ponta é projetado em 17,3% em dezembro. Com isso, na média do ano, a desocupação ficará em 14%. Para 2021, com o PIB rodando em 3%, a expectativa é um discreto recuo, para 13,6%. Veja.

As projeções foram embasadas na Lei de Okun, que identifica uma relação inversamente proporcional entre variações do PIB e da taxa de desemprego. Ou seja, de maneira simples, o desemprego diminui à medida que o crescimento econômico aumenta.

Ao aproximarmos a taxa “natural” de desemprego pela média de longo prazo (9,4%), observada desde 2005 na série retroagida da PNAD–C, julgamos que 2021 também será marcado pela baixa pressão inflacionária de serviços, principalmente. O peso desse grupo na cesta do IPCA total é de 37%.

Um dos motivos é o desemprego médio estimado para 2021, que supera em mais de 4 pontos percentuais a taxa “natural” estimada. Em nosso cenário para a inflação de 2021, inclusive, temos IPCA acelerando para 3%, ainda aquém do centro da meta inflacionária, que é de 3,75%. Veja os gráficos a seguir.

Nesse ambiente doméstico, o binômio atividade x inflação continua favorável à política monetária expansionista, se o resto se mantiver constante. Há um “grande se”, aqui, pois sabemos que “a política monetária é passageira da fiscal”, na conjuntura atual. Isso tem sido alertado pelo próprio presidente da autoridade monetária.

Nosso call é de Selic estável para 2020, fechada em 2%, com aumento discreto para 3% no último trimestre de 2020. Os outros indicadores devem ficar:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 2,2% em 2020, 3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5,40 em 2020, R$ 5,30 em 2021 e R$ 5,20 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, –5,8% em 2020, 3% em 2021 e 2022 em 3%.

Ficou alguma dúvida sobre quais são as perspectivas dos indicadores para o restante de 2020? Concorda com essa análise? Deixe seu comentário!

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