Radar da Economia: A pressão da cotação do boi gordo e o impacto na economia

A alta nos preços do complexo de carnes no atacado — especialmente, o avanço significativo da cotação do boi gordo — chama a atenção no noticiário econômico. Apesar de parecer um movimento disperso, pode gerar implicações no balanço de riscos para a inflação e para a condução da política monetária.

Para ter uma ideia, há diversos fatores que atuam para a pressão da arroba do boi gordo. A principal é a forte demanda da China, que sofre com o surto da gripe suína africana. Esse contexto gerou uma escassez sem precedentes na cadeia de proteínas e leva a diferenças no mercado brasileiro.

Como avaliar esse cenário e quais são os aspectos positivos ou negativos na economia do Brasil? Essa é a discussão que vamos trazer neste post. Confira!

O cenário no mercado chinês

A gripe suína gerou quedas na oferta de carnes no mercado interno chinês, mas a demanda continua alta. Com isso, o país precisa importar — e um dos principais fornecedores é o Brasil.

Segundo estimativas do Ministério do Comércio da China, o rebanho de porcos recuou 41,1% em setembro, quando comparado ao mesmo mês de 2018. Por sua vez, a inflação de suínos, na mesma métrica, acelerou de 69,3% em setembro para 101,3% em outubro. Esse é o oitavo mês de alta.

Para contornar essa situação e suprir a demanda doméstica, a China autorizou 13 frigoríficos do Brasil a exportar para seu mercado. São cinco novas unidades de carne suína, cinco de bovina e três de aves.

Ao todo, já existem 100 frigoríficos habilitados a exportar para o país asiático — 46 unidades industriais de frango, 37 de boi e 16 de porcos, além de uma de jumento.

O mercado brasileiro

O Brasil é o maior exportador global de carne bovina. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), das 185,42 mil toneladas comercializadas em outubro, a China recebeu 65,83 mil toneladas. Por isso, o país asiático permanece como principal destino das exportações de proteína de boi.

O volume enviado aos chineses foi 61,2% maior em outubro, quando comparado a setembro, e 112% acima do que foi verificado no mesmo mês de 2018. Isso leva à redução da oferta doméstica. No entanto, ainda é preciso considerar o aumento do abate de fêmeas em anos recentes, com recorde nos primeiros meses de 2019.

Com isso, há a redução da oferta de animais — um dos vetores de influência. Mais que a oferta, existe a pressão sazonal por carnes devido à proximidade das festas de final de ano. O aumento de renda temporária com a liberação das contas do FGTS e o pagamento do 13º salário também impulsionam a procura por parte dos consumidores.

Os preços da cotação do boi gordo

A evolução dos valores da cotação do boi gordo é visível. Depois de se manter oscilando dentro do intervalo de R$150 e R$160 — inclusive, com a redução do piso em alguns períodos —, o preço ultrapassou o limite superior em meados de setembro. Com isso, o mês de outubro foi encerrado em R$170,70 e em novembro estão sendo alcançados patamares recordes.

AQUI, HÁ UM GRÁFICO NA COLUNA DO ECONOMISTA

No dia 21 de novembro, depois de atingir o limite de alta na negociação intraday na B3 por diversos dias, a cotação do boi gordo fechou a R$227,40 — um recorde em termos reais da série de preços do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), iniciada em 1994.

Esse valor está deflacionado pelo Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP–DI). Devido ao resultado, a preocupação com o grau de repasse da alta no atacado para o varejo aumentou. Esse processo não é linear e depende de vários fatores, como:

  • grau de aquecimento da atividade econômica;
  • elasticidade do preço da demanda;
  • margem dos produtores.

Durante os momentos de aquecimento da economia, com crescimento acima do potencial, há modelos que mostram que o grau de repasse ficava entre 85% e 90%. Em períodos de recessão, o índice cai de maneira drástica.

O motivo é que os produtores administram a margem para evitar uma queda maior nos lucros, especialmente se fosse revertida uma alta que provocasse forte baixa na demanda. Esse aspecto foi destacado na Opinião 624, de 3 de maio:

Juntando a situação econômica menos favorável aos repasses, com uma certa demora para que o impacto da ASF (African Swine Fever) chegue aos preços do complexo de carne aqui no Brasil, podemos traçar o nosso cenário para a inflação nos próximos dois anos. Por conta do atual ciclo econômico, acreditamos que o repasse será menor que no biênio 2007/2008, devendo atingir algo próximo de 1,2 p.p. (ponto percentual), sendo que 1/4 desse impacto deverá ocorrer no último trimestre de 2019, com o restante ocorrendo ao longo de 2020.

Em outras palavras, esse trecho chama a atenção para um possível impacto no complexo de carnes no último trimestre do ano. Uma análise direta pode ser feita com base nos dados de carnes do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — com exclusão de porco e carneiro. Nessa avaliação, ainda é considerado o boi gordo de janeiro até outubro de 2019.

Nesse caso, é verificado um repasse contemporâneo médio de 48,1%, sendo retirados da conta os meses em que essas duas variáveis sofreram alterações em sentidos opostos.

Por outro lado, o IPCA–15 de novembro mostrou alta de 3,08% no item carnes. Com a exclusão dos subitens de porco e carneiro, o crescimento chegou a 3,19%. No período de coleta do indicador, o boi gordo variou 5,58%. Com isso, o repasse contemporâneo é de 57,2%.

A expectativa para os próximos meses

A pressão da carne deve seguir até o Ano Novo chinês, celebrado em 25 de janeiro. Os preços devem se acomodar ainda em um patamar elevado depois desse período, com baixa probabilidade de haver uma pressão deflacionária por reversão completa da expressiva alta verificada atualmente no atacado.

Até o final de novembro, o IPCA deve seguir pressionado por esses itens. A alta deve ser superior a 5%, porque também há o impacto do acionamento da bandeira vermelha sobre as contas de energia elétrica e do reajuste em loterias.

Por isso, a projeção para 2019 foi revisada de 3,4% para 3,5%. Ainda assim, está abaixo da meta de 4,25% para 2019 e da que foi definida para 2020, que é de 4%. Em termos de política monetária, a pressão no complexo de proteínas serve como um fator limitador para apostas de cortes mais agressivos nos juros pelo Banco Central.

Por isso, a projeção de mais um corte de 50 p.p. na Selic foi mantida. O ano deve encerrar com a taxa básica de juros em 4,5% e deve permanecer nesse patamar ao longo de 2020. Vale a pena destacar que as boas práticas recomendam que o Banco Central aja para combater apenas os efeitos de segunda ordem na inflação.

No caso de não contaminação e não desancoragem das expectativas, a previsão é que o ciclo de distensão monetária seja encerrado após a reunião de 11 de dezembro, com a avaliação dos impactos dessa prática na atividade econômica dos próximos meses. Assim, a projeção deve ser a seguinte:

  • IPCA: 3,5% para 2019 e 3,7% para 2020;
  • câmbio: 4,00 eop R$/US$ para 2019 e 4,16 eop R$/US$;
  • Selic: 4,50 eop R$/US$ para 2019 e 2020;
  • Produto Interno Bruto (PIB): 1,2% para 2019 e 2,5% para 2020.

Com isso, fica claro que a cotação do boi gordo e o preço das carnes em geral deve impactar de forma significativa a economia. Cabe ao Banco Central regular os índices para manter a inflação dentro da meta e auxiliar o crescimento do País. Ainda assim, é importante atentar aos dados e às previsões para tomar decisões certas.

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