Radar da Economia: As perspectivas para as eleições americanas

As eleições americanas são o evento político mais importante em termos globais. Em 2020, elas aconteceram no dia 3 de novembro, terça-feira. No entanto, até a tarde do dia 6, ainda não havia uma definição sobre quem seria o presidente dos Estados Unidos durante os próximos quatro anos.

A relevância do tema ganha ainda mais expressividade, porque os dois candidatos são completamente antagônicos em diversos temas, tanto em assuntos internos e externos quanto na esperada relação com os parceiros comerciais. Todo esse cenário gera bastante ansiedade nos agentes econômicos e políticos ao redor do mundo.

Afinal, as diferenças entre o cenário de reeleição de Donald Trump e de vitória de Joe Biden são muito significativas. Com isso, usaremos este Radar da Economia para discutir a apuração dos votos e algumas implicações para o contexto internacional, caso haja o retorno dos democratas à Casa Branca.

Qual é o contexto das eleições americanas?

Muito em função da pandemia e da polarização política, as eleições já começaram batendo recorde. Mais de 100 milhões de votos foram dados de forma antecipada, sendo que aproximadamente 2/3 foram feitos via correios.

Esse dado superou o dobro do registrado de modo adiantado em 2016. Naquela época, atingiu pouco mais de 70% do total de votos da eleição.

Primeiro momento

Durante a primeira noite de apuração dos resultados, o desempenho do presidente Trump surpreendeu. Ele teve vantagens relevantes em estados que tendiam a apresentar vitória para Biden, conforme as pesquisas.

A performance de Trump na Flórida gerou otimismo entre seus apoiadores e a sensação de que as pesquisas, novamente, não captaram a efetiva preferência dos eleitores. Inclusive, um dos motivos levantados para o desempenho positivo nesse estado foi sua estratégia de campanha.

Em alguns aspectos, ela foi semelhante à de caudilhos latino-americanos, que usam artifícios retóricos para disseminar o perigo atrelado à eleição do adversário. De fato, há indícios de que as tentativas de Trump de ligar a imagem de Biden ao socialismo tiveram impacto entre os latinos, especialmente cubanos e venezuelanos.

Também foi alegado que a vice democrata, Kamala Harris, seria comunista e tomaria o poder, caso a chapa republicana perdesse a eleição. Mais uma vez, o discurso surtiu efeito e contribuiu para que Trump tivesse o melhor desempenho de um candidato à presidência desde a eleição de George W. Bush, em 2004.

Em relação ao apontado pelas pesquisas, analistas políticos chamaram a atenção para a possibilidade de ter ocorrido o fenômeno do viés de desejabilidade social. Ele acontece quando membros de algum grupo social escolhem não revelar sua verdadeira preferência para um pesquisador a fim de contrariar o senso daquele grupo.

Segundo momento

Assim que passou a Flórida, muitas atenções se voltaram para três estados do chamado Cinturão da Ferrugem: Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. Um candidato republicano não vencia nessas três regiões desde os anos 1980.

No entanto, em 2016, os eleitores desses estados surpreenderam ao darem vitória a Trump. As pesquisas apontavam vantagem para Biden. Já as primeiras apurações mostravam o republicano à frente, o que poderia tornar mais tortuoso o caminho para a reeleição.

As expectativas dos republicanos acabaram sendo frustradas. Com isso, ficou configurada uma “miragem vermelha”, devido à cor característica do Partido Republicano. Isso porque o candidato democrata assumiu a liderança conforme os votos pelo correio foram contabilizados.

A eclosão de diversos protestos e manifestações foi uma das consequências dos excessos da polícia contra afro-americanos. Isso acirrou a polarização política e pode ter sido um fator determinante para angariar votos para os democratas.

Aqui, é importante lembrar-se de dois episódios de grande repercussão nacional, que ocorreram em Wisconsin — caso Jacob Blake — e na Pensilvânia — caso Walter Wallace Jr. Ao prever a possibilidade de virada de Biden nesses estados, a campanha de Trump entrou com ações na Justiça para interromper a contagem de votos. No entanto, não obteve sucesso.

O risco de judicialização do processo eleitoral ainda existe. Na hipótese de contestação que impossibilite a declaração de um vencedor nos próximos dias, devemos ter uma definição até o dia 14 de dezembro. Essa é a data-limite para que os estados enviem os resultados ao Congresso. Ainda é possível haver uma extensão até o dia 23 de dezembro.

Como ficou a configuração do Congresso americano?

Esse foi outro ponto bastante relevante dessas eleições. Uma “onda azul” — com Presidência, Câmara e Senado de domínio democrata — poderia levar ao aumento da intervenção do Estado na economia. Por exemplo, por meio da elevação de impostos ou por regulações, com potencial de prejudicar empresas, principalmente do setor de tecnologia.

Os democratas conseguiram manter a maioria na Câmara. No Senado, as sinalizações são de que os republicanos seguirão com maior número de cadeiras. O cenário da vitória de Biden com o Congresso dividido foi bem-visto pelos mercados.

A reação foi positiva em relação ao aumento dessa perspectiva. Isso porque haveria a combinação de expectativa por algum estímulo fiscal com a maior dificuldade de intervenções prejudiciais ao ambiente de negócios.

Vale ressaltar que o Congresso dividido gera também um desafio maior para a governabilidades. Os analistas se preocupam com uma possível situação de gridlock, em que a falta de consenso dificulta a aprovação de mais estímulos. Em médio prazo, essa situação pode ser negativa para os mercados devido ao menor potencial de liquidez adicional.

No que se refere aos estímulos, o presidente do FED (Federal Reserve Board), Jerome Powell, afirmou que houve a discussão sobre a possibilidade de aumentar o programa de compra de títulos. O debate ocorreu entre os membros do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) na última reunião de política monetária.

Dessa forma, o Banco Central americano (FED) poderia ajudar a compensar um eventual estímulo fiscal menor, caso o Senado mantenha sua maioria republicana. Assim, haveria dificuldade para aprovar um pacote fiscal mais robusto, como defendem os democratas.

Ainda na semana terminada em 6 de novembro, o Banco da Inglaterra aumentou o tamanho do seu programa de compra de títulos em 150 bilhões de libras. Isso ocorreu ao manter a taxa de juros em 0,1%.

Esse montante ficou acima do esperado, já que a expectativa era de 100 bilhões de dólares. Na semana anterior, o Banco Central Europeu sinalizou agir no mesmo sentido na reunião de dezembro.

Em relação ao cenário interno, as projeções são:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,3% em 2020, 3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5,40 em 2020, R$ 5,30 em 2021 e R$ 5,20 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, – 5,8% em 2020, 3% em 2021 e 3% em 2022.

Por fim, quanto ao ambiente externo, a expectativa é que a presidência de Biden deva gerar menos ruído. Deverá exigir uma redução do nível de tensão com a China — um fator positivo para o comércio internacional, que tende a se tornar um vetor de crescimento para a economia global nos próximos anos.

E você, quais são suas expectativas para as eleições dos Estados Unidos e seus desdobramentos? Deixe seu comentário!

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