Radar da Economia: Expectativas para o IBC-Br e outros indicadores econômicos

Diversos indicadores efetivos — também chamados de hard data — de atividade econômica foram divulgados na semana finalizada em 13 de novembro de 2020. Comércio, serviços e PIB mensal do Banco Central — o IBC-Br — foram os principais.

Todos se referem ao mês de setembro e trouxeram informações sobre o nível de atividade no terceiro trimestre do ano. Além disso, demonstram uma base de partida para o quarto trimestre.

Unindo esses indicadores com a produção industrial (PIM) da semana anterior, traçamos neste Radar da Economia uma análise mais detalhada das nossas projeções do PIB nacional para 2020 e 2021.

IBC-Br

Para iniciar essa discussão, usamos o IBC-Br, divulgado no dia 13 de novembro. Ele ficou levemente acima do esperado na margem: 1,3% contra 1%.

Considerando as revisões para cima ocorridas nos meses anteriores, esse índice acumulou expansão de 9,5% no terceiro trimestre de 2020. Convém ressaltar que o IBC-Br é uma aproximação do PIB oficial calculado pelo IBGE.

Nossos modelos, que consideram o ajuste sazonal utilizado nas Contas Nacionais (IBGE), sugerem que este resultado é compatível com a alta de 8,7% para o PIB oficial no 3º trimestre. Essa taxa encontra-se próxima do nosso cenário-base, que é de 8,5%.

Isso sugere um discreto viés de alta, conforme mostra o gráfico abaixo.

Expectativas para 4T20

Com o quarto trimestre de 2020 chegando, o sinal é de desaceleração para 1,3% na comparação trimestral. Essa taxa também está alinhada ao 1,2% que projetamos para o PIB (IBGE). Confira no gráfico.

Essa perda de ritmo entre o terceiro e o quarto trimestre de 2020, em nossa visão, reflete as menores transferências de renda no período, com impacto direto no consumo de bens. Além do mais, existem três outros fatores:

  • mercado de trabalho mais fraco;
  • inflação de alimentos elevada, o que reduz a renda disponível;
  • efeito estatístico da maior base de comparação.

O ritmo “normal” do PIB pré-COVID-19 estava ao redor de 0,5% ao trimestre. Devemos retornar para esse nível na ausência de novos choques. Essa é, inclusive, nossa hipótese para o comportamento (médio) do PIB trimestral ao longo de 2021.

Expectativas para 2021

Em mais detalhes, nosso cenário para 2021 prevê recuperação em todos os setores econômicos. Contudo, o ritmo de cada um será diferente — característica também observada em outros países na conjuntura atual, após o choque da pandemia.

Projetamos uma queda de 5,9% e alta de 3,2% para o PIB de serviços em 2020 e 2021, respectivamente. Por sua vez, o PIB Industrial terá variações de – 4,7% e 3,6%. Assim, recuará menos em 2020 e recuperará de forma mais rápida na comparação com os serviços.

O PIB Agrícola manterá sua tendência positiva recente. O crescimento deverá ficar em torno de 2% no mesmo período. Como resultado, o PIB total deve encerrar 2020 com uma retração de 5%. Em seguida, a projeção é de uma expansão ao redor de 3,5% em 2021.

Em suma, nesse quadro de recuperação gradual da economia doméstica, as divergências setoriais continuam chamando a atenção. Elas derivam do efeito diferenciado que o choque da COVID-19 exerceu sobre cada segmento, a depender do seu caráter presencial.

Ao mesmo tempo, explicam o cenário de retomada desigual e incompleta que antecipamos. Afinal, esse contexto é marcado pela lenta melhoria do PIB de serviços ao longo do tempo — setor que responde por cerca de 2/3 do PIB total.

Resultados por setores

Observando as diferentes atividades que compõem o comércio varejista (ampliado), as melhores performances durante a pandemia vieram das vendas de:

  • materiais de construção: 22%;
  • móveis: 21%;
  • supermercados: 5%.

Todas já se encontram em grau acima do fechamento de 2019 e do resultado verificado em fevereiro de 2020 (pré-COVID-19). Por sua vez, alguns setores seguem em nível mais contido. Eles são o comércio de:

  • vestuário: – 9%;
  • automóveis: – 1%;
  • combustíveis: – 6%.

Essas são atividades bastante impactadas pelas restrições de mobilidade social, de forma direta ou indireta. Entenda mais no gráfico a seguir.

A abertura dos dados de produção industrial também conta história parecida. Os segmentos de intermediários e de duráveis lideram o processo de aceleração econômica observado até agora. Por outro lado, os bens de capital ainda mostram reação atrasada.

Quanto aos subsetores mais expressivos, a categoria de intermediários vem sendo puxada pelos alimentos processados. Os duráveis refletem o ganho de força dos bens de consumo ex-automóveis. Ainda existem os equipamentos de transporte industrial, que inibem a dinâmica dos bens de capital.

Esse comportamento heterogêneo também é visto nos serviços. Considerando a Pesquisa Mensal do setor (PMS–IBGE), a atividade “outros serviços” — que abrange financeiros, corretagem, condomínio, imobiliário etc. — desponta com alta de 7% na comparação entre anos.

Os segmentos de informática e de telecomunicação estão praticamente estáveis e exibem certa resistência ao choque da COVID-19. O efeito negativo foi mais intenso nos serviços a:

  • famílias: – 45%;
  • profissionais: – 14%;
  • transportes: – 7%.

Aqui, fica muito claro o caráter aglomerativo ligado às atividades mais afetadas pela pandemia. Portanto, sua melhora parece bastante dependente do curso da doença e das vacinas.

Conclusão

Verificando os dados apresentados acima, percebe-se a sugestão de que as vendas e a produção de bens duráveis — como mobiliário e materiais de construção — e não duráveis — por exemplo, os alimentos processados — se sobressaíram neste ano atípico.

Os serviços financeiros e de informática também foram relativamente favorecidos. Os movimentos podem ser associados à mudança de comportamento dos consumidores em meio ao isolamento social devido ao home office, bem como à virtualização e à digitalização das atividades.

No entanto, também estão relacionados aos estímulos de renda e de crédito implementados no Brasil. As restrições à mobilidade pessoal, em particular, explicam bastante as limitações sofridas pelos serviços prestados às famílias, como mostrado na PMS. Esse é o caso de restaurantes, hotéis e atividades culturais e esportivas.

No médio prazo, o panorama para o setor de serviços segue desafiador. Os recursos do auxílio emergencial tiveram menor impacto, pois foram direcionados para a compra de bens, principalmente.

Mesmo que o isolamento social e a mobilidade melhorem ainda mais, a dinâmica do mercado de trabalho tende a conter a retomada dos serviços. Ela também não será tão veloz quanto à da indústria ou estável e positiva como a da agricultura.

Nosso cenário projeta lento recuo da taxa (média) de desemprego entre 2020 e 2021. Ela deve sair de 14% para 13,6% no biênio. No entanto, esses níveis ainda estão superiores à sua taxa natural, que é de 9% a 9,5%.

Por fim, apesar de sua baixa participação nas Contas Nacionais do IBGE (6%), o segmento agrícola chama a atenção pela sua tendência positiva e persistente. Ela foi preservada na pandemia e também deve vigorar nos próximos anos, como prevê nosso cenário-base.

Nesse quadro, a estimativa mais atual do IBGE para a safra de grãos em 2020 aponta para 252 milhões de toneladas. O dado foi divulgado na semana finalizada em 13 de novembro de 2020 e representa uma alta de 4,4% sobre 2019.

Os três principais produtos representam 92,6% do total. Eles continuam sendo:

  • arroz: 7,8%;
  • milho: 0,3%;
  • soja: 7,1%.

Esses três itens registram expansão em 2020. Quanto à safra 2021, a primeira previsão do IBGE indica crescimento adicional de 0,5%, chegando a 253,2 milhões de toneladas. O motivo é o aumento da safra esperada para a soja, que deve chegar a 127,1 milhões de toneladas, com uma alta de 4,6%.

Ao mesmo tempo, a expectativa é de queda na de arroz — 10,8 milhões de toneladas ou retração de 2,4% — e algodão — 6,2 milhões de toneladas ou diminuição de 11,9%. Em termos regionais, o Centro-Oeste segue na liderança da produção de grãos, com 47,5% do total. Os outros dados são:

  • Sul: 29,1%;
  • Sudeste: 10,1%;
  • Nordeste: 8,9%;
  • Norte: 4,4%.

Em relação aos indicadores econômicos, mantivemos as projeções. Elas devem ficar da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,3% em 2020, 3,3% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5,40 em 2020, R$ 5,30 em 2021 e R$ 5,20 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, – 5% em 2020, 3,5% em 2021 e 3% em 2022.

Quer saber mais por que os dados vistos neste Radar da Economia são relevantes? Entenda o que é o IBC-Br e qual a importância desse índice.

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