Radar da Economia: Projeções para a inflação em 2020 e 2021

A divulgação do IPCA–15 de novembro de 2020 levantou questionamentos sobre o suposto caráter transitório das pressões na inflação corrente. O indicador acumulou alta de 0,81%. O resultado ficou acima do esperado pelo mercado, que era de 0,72%. Ao mesmo tempo, foi a maior leitura para o mês desde 2015.

Além disso, notícias recentes sobre reajustes de preços administrados para 2021 levaram a uma onda de revisões nas projeções para o IPCA de 2021. As taxas mais próximas da meta — que é de 3,75% — ganham espaço. Em alguns casos, surgem até estimativas de leve estouro.

Diante desse cenário, este Radar da Economia discutirá nossa percepção da dinâmica inflacionária e a revisão de expectativas. Acompanhe!

Inflação

Ao ser perguntado, em uma entrevista, se a inflação preocupa, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse que, há poucos meses, a crítica era o índice baixo demais. Segundo ele, se voltássemos no tempo, seria percebida a necessidade de que a autoridade monetária deveria reduzir mais a taxa de juros para evitar o descumprimento da meta.

Realmente, conforme se observa no gráfico abaixo, as expectativas do mercado entraram em queda livre a partir de meados de março até a segunda metade de maio. Os dados foram divulgados no Boletim Focus do BC e levam também a uma redução de menor intensidade nas projeções para 2021.

Dentre outros fatores, o motivo é uma menor inércia inflacionária derivada de 2020. Veja os dados.

Ainda segundo Campos Neto, quando o BC trouxe a discussão sobre o effective lower bound, houve mais críticas de que a autoridade monetária estaria ignorando a metade. Assim, teria que justificar em uma carta aberta ao ministro da Economia os motivos do descumprimento.

Para explicar melhor, o effective lower bound é o nível de juros abaixo do qual a política monetária perde a eficácia de estimular a economia devido à geração de desequilíbrios no mercado financeiro. Com isso, há aperto nas condições financeiras, o que gera um efeito contraproducente na atividade econômica.

Com a necessidade da carta aberta ao ministro da Economia, a mensagem a ser transmitida é a de que o horizonte do Banco Central não é de curto prazo. Há diversos outros fatores a serem considerados na condução da política monetária.

O diagnóstico do BC é o de que a inflação está sendo sustentada por três vetores. Veja a seguir.

Depreciação cambial

Ante a alta de preço das commodities, é preciso observar a correlação positiva existente nos países exportadores entre suas respectivas moedas e os preços de produtos primários. Assim, uma apreciação do dólar costuma ser acompanhada de queda nas cotações de commodities.

Em 2020, esse cenário não foi observado. Em grande parte, os motivos são uma forte demanda da China e os fatores climáticos, que prejudicaram a oferta.

Efeito substituição

Em segundo lugar, o vetor da inflação vem do efeito substituição gerado por alterações de hábitos de consumo em função da pandemia e do distanciamento social. A demanda por certos bens e, principalmente, serviços, foi redirecionada para alimentação no domicílio. Com isso, abriu espaço também para o consumo de itens mais caros.

Auxílio emergencial

Com a restrição de acesso a itens da cesta de consumo e a injeção de dinheiro na economia pela transferência de renda com o auxílio emergencial, houve a formação involuntária da poupança circunstancial.

Esses fatores contribuíram para sustentar a economia em um contexto de elevação de preços. Por consequência, o aumento da renda disponível possibilitou o repasse de pressões do atacado para o varejo.

Estimativas do BC

O Banco Central segue sinalizando tranquilidade em relação ao quadro inflacionário. O embasamento é a percepção de normalização dos três vetores de pressão dos preços. No que se refere à taxa de câmbio, a autoridade monetária considera que grande parte do ajuste já aconteceu.

Além disso, há a expectativa de que a reabertura da economia deva amenizar o efeito substituição. Ao mesmo tempo, haverá o retorno gradual da demanda para itens cujo consumo estava restrito anteriormente.

Por fim, o término do auxílio emergencial no final de 2020 deverá reduzir o potencial de consumo. A consequência é mais dificuldade na imposição de novos aumentos de preços. Em relação às estimativas, são ressaltados dois processos de geração de expectativas de inflação:

  • o mercado pode começar a entender que as pressões não são passageiras devido a uma inflação corrente alta. Isso contamina as projeções de médio e de longo prazo;
  • a deterioração das expectativas pode vir do aumento da percepção de risco fiscal. Isso gera expectativas de que a solução para o equacionamento da dívida pública será inflacionária. Como consequência, haveria depreciação cambial, inclinação da curva de juros e abertura das taxas longas de inflação implícita, contaminando a parte intermediária e curta.

Em função desse risco, ganha ainda mais importância a necessidade de disciplina fiscal para ajustar a dinâmica das contas públicas. O objetivo é voltar a atrair investimentos de forma sustentável e reduzir os entraves ao crescimento econômico.

Análise

Com relação ao nosso cenário, chamamos a atenção para a aceleração de preços administrados ao longo do primeiro semestre de 2021. A razão são os reajustes represados devido à pandemia em itens como planos de saúde.

Tanto é que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) definiu o reajuste percentual máximo de 8,14% para a modalidade individual ou familiar. Esses são considerados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para o cômputo do subitem “planos de saúde” no IPCA.

A correção se refere ao período de maio de 2020 e abril de 2020. Ficou determinado que os valores devidos relativos ao período deverão ser diluídos em 12 parcelas iguais e sucessivas. A cobrança será feita de janeiro a dezembro de 2021.

Além disso, existem os itens que passam pela mesma questão do reajuste, mas por conta de 2020 ser ano de eleições municipais. Um exemplo são as tarifas de ônibus. Somadas a eles, há as pressões nos preços de energia elétrica, já que o Brasil passa por um momento bastante delicado e pode resultar no início de período úmido muito ruim em termos hidrológicos.

Portanto, nosso cenário considera alteração de bandeira tarifária verde, em dezembro de 2020, para amarela, em janeiro de 2021. Também não descartamos a possibilidade de ser acionada a vermelha.

Nos últimos anos, observamos uma tendência de oscilações entre bons momentos de chuva e bloqueios atmosféricos no primeiro trimestre do ano. Isso interfere na plena recuperação dos armazenamentos das regiões Sudeste e Centro-Oeste.

Considerando os fatores de pressão mencionados, esperamos que os preços administrados avancem de uma taxa de apenas 0,7% em 2020 para 5,9% em 2021. Outra categoria que deve seguir em aceleração no primeiro semestre é a de bens industriais. Isso por conta da recomposição de margens e da elevação de custos de produção.

Pelas nossas contas, a alta no acumulado em 12 meses deve ocorrer até o final dos primeiros seis meses. Nesse período, deve atingir um ponto levemente acima de 4%. Em seguida, deve ocorrer um recuo no segundo semestre, passadas as pressões do reequilíbrio entre oferta e demanda e fechando o ano com alta de 2,3%.

Em relação a serviços, esperamos uma trajetória de alta nos preços em 12 meses até o final do terceiro trimestre. O fator de impulsionamento deve ser a volta gradual à normalidade e o aumento da procura por itens dessa categoria. No entanto, alguns fatores — como a alta ociosidade no mercado de trabalho e o fechamento gradual do hiato do produto — devem atuar enquanto vetores de contenção de possíveis pressões.

Completando a cesta do IPCA, temos a categoria de Alimentação no Domicílio. Ela deve acumular alta de 16,1% em 2020 e perder força ao longo de 2021. Assim, o período deve encerrar com o crescimento de 5,5%.

É provável que interfiram nesse resultado outros fatores, como o La Niña e o próprio crescimento global esperado para 2021. Eles devem sustentar os preços de commodities. No entanto, não esperamos um quadro semelhante ao que observamos em 2020.

Por fim, com esse novo conjunto de informações, revisamos nossa projeção de IPCA de 3,3% para 3,7% tanto para 2020 quanto para 2021. Concordamos com a visão do BC de que as pressões na inflação são temporárias. No entanto, o timing de descompressão começa a se mostrar mais gradual do que o anteriormente imaginado.

Isso e as pressões de reajustes represados em preços administrados diminuem a margem das projeções do mercado ante a meta de 3,75%. Observando a trajetória esperada para o IPCA ao longo de 2021, poderá haver certo desconforto com a aceleração da inflação ao longo da primeira metade do período, rodando acima do limite superior de tolerância.

Caso esse cenário se confirme, aumenta a pressão para o início da normalização da política monetária. Veja melhor no gráfico abaixo.

Confira, a seguir, as projeções para o IPCA e outros indicadores.

  • IPCA: 4,31% em 2019, 3,7% em 2020, 3,7% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019, R$ 5,40 em 2020, R$ 5,30 em 2021 e R$ 5,20 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP): 5,57% em 2019, 4,55% em 2020, 4,64% em 2021 e 5,28% em 2022;
  • PIB: 1,1% em 2019, – 5% em 2020, 3,5% em 2021 e 3% em 2022.

Concorda com essa análise do Radar da Economia? Deixe seu comentário e coloque suas percepções sobre os dados econômicos brasileiros.

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