Radar da Economia: O resumo das previsões econômicas para 2021

Mais do que desejar a todos os mais sinceros votos de prosperidade em 2021, este Radar da Economia se propõe a analisar o próximo ano. O que tudo indica é que será um período de retomada da economia, tanto local quanto global.

Ainda assim, é preciso ver o que deve acontecer no cenário para 2021. É o que vamos discutir. Acompanhe.

Contexto mundial

Os testes bem-sucedidos e as aprovações regulatórias de vacinas em vários países colaboram para melhorar a perspectiva econômica futura. A efetivação e o sucesso de um programa amplo de imunização da população global são passos importantes para o lento e longo caminho de volta à normalidade.

Os países que já fizeram acordos com laboratórios devem ter uma recuperação mais rápida. Os Estados Unidos e a Europa têm o maior número de vacinas confirmadas per capita. No Brasil, de acordo com o Ministério da Saúde, são esperadas 24,5 milhões de doses disponíveis em janeiro. Esse número considera CoronaVac, Pfizer e AstraZeneca.

Além disso, deve haver outras 37,7 milhões em fevereiro e 31 milhões em março de 2021. Por outro lado, nações emergentes menos favorecidas dependerão, basicamente, de iniciativas, como a Covax facility. Essa é uma parceria público-privada coliderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que visa a desenvolver e a distribuir vacinas para países de renda baixa e média.

Com isso, esperamos que o crescimento mundial se recupere em 2021. O cenário mais recente do Fundo Monetário Internacional (FMI) nos parece, ainda, uma referência consistente. A projeção é de uma expansão de 5,2% para o Produto Interno Bruto (PIB) global em 2021, vindo de – 4,4% em 2020.

Por sua vez, as economias emergentes devem crescer 6%, vindo de – 3,3%, e as avançadas chegar a 3,9%, vindo de – 5,8%. Nesse cenário dos países em crescimento, os destaques são a China (8,2%) e a Índia (8,8%).

Em relação às desenvolvidas, a Área do Euro (5,2%) tende a crescer acima dos Estados Unidos (3,1%) em 2021. Essa tendência positiva de toda a economia global deve trazer um impulso de alta para cotações de commodities, especialmente insumos industriais e agrícolas. O motivo é a correlação positiva com o PIB mundial.

  

Por outro lado, no curto prazo, o ressurgimento de infecções por COVID-19 nos Estados Unidos, na Europa e em alguns países emergentes tende a pesar sobre a atividade. Em conjunto, está o término de medidas fiscais temporárias de apoio à economia.

Os dados de mobilidade do Google, sobretudo na Europa, já são compatíveis com a retração do PIB regional no último trimestre de 2020. Nos Estados Unidos, as projeções de mercado também incorporam alguma acomodação da atividade no início de 2021, com uma variação do PIB levemente negativa no primeiro trimestre do ano.

A partir daí, em nossa visão, a aceleração ficará mais concreta após a adoção de novas medidas de estímulo, além da difusão de programas de imunização. No front monetário, esse contexto de elevada ociosidade é cercado de incertezas e favorece políticas altamente estimulativas.

Entre os fatores que justificam essa afirmação estão as taxas de juros na baixa histórica e a expansão prolongada/aumentada de balanços. Tanto o Federal Reserve quanto o Banco Central Europeu (BCE) e o Bank of Japan (BoJ) têm adotado, recentemente, medidas nessa direção.

Contexto brasileiro

O ambiente de liquidez mundial abundante e de maiores preços de commodities deve favorecer as economias emergentes, como a brasileira. Indicadores financeiros já são compatíveis com o PIB do 4.º trimestre de 2020 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) rodando em torno de 2% na margem, acima do esperado anteriormente, que era de 1,2%.

Nesse contexto, estão incluídos o chamado PIB mensal (IBC–Br) referente a outubro ou a confiança industrial (FGV) em dezembro, ambos divulgados na semana terminada em 18 de dezembro. Confirmada essa taxa, a retração da economia em 2020 será de 4,6%. Antes era esperada uma queda de 5%.

Para 2021, prevemos alta de 3,5% para o PIB. A retomada da indústria deve ser mais acelerada do que a de serviços. A primeira deve crescer 6%, enquanto a segunda deve atingir 2,5%. Por fim, a agricultura preservará sua tendência positiva, com 1% de crescimento.

Tanto a indústria quanto a agricultura serão favorecidas pela melhora na demanda global e nos termos de troca, ou seja, no comércio exterior. Enquanto isso, as atividades de serviços, especialmente as mais intensivas em trabalho, terão expansão apenas gradual. Isso deve ocorrer conforme os índices de isolamento e os hábitos individuais voltarem ao normal.

No primeiro trimestre de 2021, esperamos algum arrefecimento dos impulsos vindos dos auxílios emergenciais (renda). Assim, nossa expectativa é que o ritmo do PIB desacelere para 0,2%. As taxas sequenciais de crescimento, daí em diante, devem mostrar crescimento.

PIB

O desempenho do PIB na virada de 2020 para 2021 também estará no foco do Banco Central (BC). Isso deve ocorrer pelo seu caráter desigual e incerto, e também por seu efeito no quadro de retomada econômica gradual antevisto pela própria autoridade.

Devido à comunicação oficial no final de 2020, deve exercer ainda alguma influência na exclusão do forward guidance (FG). Esse movimento está bastante condicionado à evolução da inflação esperada para 2022, conforme aponta o BC.

Ainda assim, avaliamos que a autoridade monetária terá as informações consistentes sobre a tendência do regime fiscal vigente apenas em março de 2021. Esse é outro condicionante do FG. Também interferem os indicadores de atividade no início do próximo ano.

Julgamos, assim, que é mais provável a supressão do guidance no Comitê de Política Monetária (Copom) de março. Contudo, o aumento efetivo da taxa Selic demorará para ocorrer, tal como advertido pelo próprio BC. Portanto, fica para agosto, em nosso cenário-base.

Nossa expectativa é de quatro aumentos sucessivos de 25 bps (basis point), começando em agosto. O orçamento de 100 bps até o fim de 2021 continua justo, tendo em vista as simulações geradas pelo modelo do BC. Essas demonstrações indicam que a Selic fica em 3% em 2021 e se mostra compatível com o IPCA de 2022, rodando em torno da meta central (3,4% projetado versus 3,5% da meta).

IPCA

O nosso cenário para 2021 considera a normalização das taxas mensais a partir de janeiro de 2021 para o IPCA. Contribuirá para esse movimento a descompressão nos preços de alimentação em domicílio, que têm exercido pressão altista relevante desde agosto de 2020. Inclusive, já foi observada a deflação em diversos produtos agropecuários no atacado.

Além disso, a melhora das condições hidrológicas aumenta a expectativa para alteração da bandeira tarifária de energia elétrica. A tendência é sair da atual “vermelha 2” para “amarela” em janeiro de 2021. Esse deve ser outro vetor de baixa no início de 2021.

Vale destacar também que a coleta extraordinária de preços de mensalidades escolares em dezembro de 2020 deve amenizar a pressão sazonal desse item em fevereiro. Com esse cenário, percebe-se que os fatores de risco no quadro inflacionário são as pressões represadas em 2020, seja devido à pandemia, seja por conta das eleições municipais.

Dois exemplos são as tarifas de ônibus e os reajustes de contratos com o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP–M) como indexador. Esse indicador deve encerrar 2020 com alta de 23,7%.

Além disso, o fenômeno climático La Niña pode afetar negativamente algumas regiões produtoras de grãos importantes para o país. Com isso, pode haver possível aceleração da inflação de alimentos.

Ainda destacamos que a evolução do processo de vacinação contra a COVID-19 ao longo de 2021 deve gerar um impulso à retomada do consumo de serviços e o reequilíbrio entre oferta e demanda no setor de bens industriais. Por sua vez, continuará exercendo pressão nessa categoria na primeira metade de 2021.

Sendo assim, esperamos que a taxa acumulada em 12 meses do IPCA acelere até o final do primeiro semestre para taxas ao redor de 6%. Deve oscilar acima de 5,25% até setembro, sendo que esse limite é superior à meta de 3,75%.

Fatores como a alta ociosidade no mercado de trabalho, as expectativas ancoradas e o fechamento gradual do hiato do produto devem conter pressões estruturais na inflação. Isso deve possibilitar a perda de força no último trimestre, a fim de encerrar o ano em 3,4%.

Setor externo

Esse quesito demonstra que nosso balanço de pagamentos está em uma posição bastante saudável. A forte performance das exportações líquidas contribui para esse resultado. Em paralelo, há o maior “apetite ao risco” por parte dos investidores globais após as eleições americanas. Esse cenário impulsiona os fluxos de hot money.

Adicionalmente, em 12 meses finalizados em novembro de 2020, o Investimento Direto no País (IDP) totalizou 36,3 bilhões de dólares, o que representou 2,44% do PIB. Esse índice é bastante superior ao deficit em transações correntes, que ficou acumulado em 12,2 bilhões de dólares no mesmo período, ou seja, 0,82% do PIB.

As reservas internacionais estão em 356 bilhões de dólares — 20% do PIB —, mais do que suficiente para preservar os índices de sustentabilidade externa em patamares confortáveis. Em resumo, esses indicadores externos são compatíveis com um câmbio (real) de equilíbrio por volta de R$ 4,80, conforme nossos modelos.

Na comparação com as moedas de outros países, o espaço relativo para apreciação do real pode ser ainda maior, por volta de R$ 4,40. O elemento principal que “bloqueia” essa convergência da taxa de câmbio para valores mais baixos é o risco fiscal, em nossa opinião.

Resumo das expectativas

Em 2020, a expansão fiscal contracíclica teve papel muito importante no Brasil e no mundo, a fim de atenuar os efeitos adversos da pandemia. Aqui, as medidas adotadas chegaram a cerca de 9% do PIB, sendo que metade desse volume decorreu de transferências de renda. Como contrapartida, os resultados fiscais seguem, desde então, em trajetória de deterioração.

Ainda assim, acreditamos que essa situação pode se mostrar contornável, desde que o direcionamento fiscal do governo permaneça o mesmo. Supomos que o regime fiscal vigente seja mantido e que a agenda de ajustes econômicos prossiga. Essa é uma hipótese fundamental no nosso cenário para os juros.

Contudo, o desafio para o cumprimento do teto de gastos em 2021 aumentou. Alguns critérios foram favoráveis a esse cenário, por exemplo, o reajuste do teto (2,13%) será bastante inferior ao de indexadores de despesas, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Esse indicador reajusta aposentadorias e pensões, e deve encerrar 2020 em cerca de 5%.

Isso comprime, obviamente, o espaço para outros gastos e reduz o grau de manejo da política fiscal. Nesse quadro de dificuldades, eventual flexibilização ou descumprimento do teto pode acarretar antecipação do ajuste de juros para o 1º semestre de 2021. Além disso, o orçamento de ajuste total também deve ser maior, de quase 7% ao fim desse eventual ciclo.

Portanto, é de fundamental importância a aprovação da PEC Emergencial e do Pacto Federativo para possibilitar a reconfiguração das contas públicas no médio prazo. Ainda ressaltamos a relevância da PEC da Reforma Administrativa, que pode aumentar o apoio popular à pauta de reformas estruturais. Veja os resultados de outros indicadores:

  • IPCA: 4,3% em 2019, 4,5% em 2020, 3,4% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,10 em 2021 e R$ 5 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,4% em 2019, – 4,6% em 2020, 3,5% em 2021 e 3% em 2022.

Com o adequado equacionamento desses temas no Congresso já no início de 2021, avaliamos que as chances de um “ciclo virtuoso” para a economia doméstica serão maiores. É com essa mensagem esperançosa que encerramos este Radar da Economia.

E você, acredita que as expectativas são positivas? Conte para a gente quais são suas avaliações deixando seu comentário.

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