Radar da Economia:  O cenário de curto prazo para IPCA e atividade econômica

Como ficam a atividade econômica e a inflação brasileira no curto prazo? Este Radar da Economia tem como objetivo traçar alguns fatores de risco presentes no quadro atual. Nosso cenário-base para o Produto Interno Bruto (PIB) no 1º trimestre de 2021 já prevê variação de 0,1%. No 4º trimestre de 2020, a alta é projetada em 2%.

Ainda assim, em um quadro extremo — com aumento da indefinição sobre vacinas e piora da pandemia — avaliamos que as taxas devem ficar em torno de – 0,5%. Quanto à inflação, reafirmamos nossa projeção de 3,4% para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021.

Contudo, destacamos o risco fiscal, que pode implicar desancoragem de expectativas e depreciação cambial. Ao mesmo tempo, acelera a inflação acima da meta central. Então, como esses indicadores devem ficar? Leia a análise e confira.

Nível de atividade econômica

Os principais pontos de incerteza no cenário de curto prazo residem em:

  • fim dos estímulos de renda e crédito, que estavam vigentes até o final de 2020;
  • início concreto da vacinação em âmbito nacional e das próprias curvas de infecções e óbitos, cuja dinâmica altista poderia motivar novos lockdown locais. Dois exemplos foram aqueles anunciados em Belo Horizonte e os implementados em São Paulo no final de dezembro.

O pano de fundo disso tudo, no médio prazo, continua sendo a agenda de ajustes e de reformas econômicas. Esse fator depende bastante do Congresso.

Ao nosso ver, o término das medidas de auxílio já deve exercer algum impacto negativo nos índices de atividade ao final de 2020. Também implica efeito estatístico pouco favorável para o início de 2021, como mostra o gráfico a seguir.

Um dos motivos para esse cenário ocorrer é a expectativa dos próprios beneficiários do programa emergencial de renda, que sabiam que ele se encerraria em dezembro. Tal perspectiva parece ter sido suficiente para conter parte do seu ímpeto de consumo.

Traduzindo isso para as contas nacionais, estimamos que o fim do auxílio emergencial em 2020 e seu “afunilamento” para o Bolsa Família — com abrangência mais restrita e menores pagamentos mensais — tende a retirar aproximadamente R$ 12 bilhões do consumo das famílias medido no PIB, já neste início de 2021. O valor representa cerca de 1%.

Além disso, nosso acompanhamento de mobilidade social sugere que as medidas restritivas implementadas em São Paulo colaboraram para ampliar o isolamento ao final de 2020. Ou seja, mais pessoas ficaram em casa. Com isso, as vendas do Natal mostraram desempenho abaixo do esperado. Isso também foi confirmado por entidades de classe.

Vacinação

Sobre a vacinação em território nacional, tivemos avanços importantes na semana finalizada em 8 de janeiro de 2021. Os dados que retratam a eficácia de um dos principais imunizantes a serem utilizados no Brasil foram bem recebidos pelos especialistas e pela mídia em geral.

Segundo os estudos, a CoronaVac ficou com um nível de eficácia entre 78% e 100%. Ainda assim, o início efetivo da imunização em âmbito nacional está indefinido. O Ministério da Saúde trabalha com três hipóteses.

Elas oscilam entre 20 de janeiro (cenário otimista) e meados/fim de fevereiro (pessimista). Por sua vez, o plano específico do governo paulista traz a data de 25 de janeiro. Portanto, nos contextos mais positivos, ainda estaríamos defasados em cerca de um mês quando comparados a países emergentes, como:

  • México e Chile, que iniciaram a vacinação em 24 de dezembro;
  • Argentina, que começou em 29 de dezembro.

Enquanto a vacinação não for difundida por aqui, é pouco provável enxergamos melhora consistente na confiança econômica de empresários e de consumidores, que afetados pelo fim das medidas de auxílio e pelo isolamento social. Isso ocorre especialmente no setor de serviços, que representa aproximadamente 60% do PIB.

Dados da pandemia

Com as informações atuais, percebe-se que a pandemia segue em expansão, tanto no que se refere a novas ocorrências quando no que é relativo a óbitos. Isso está amplamente divulgado pela imprensa.

As médias semanais, que estão mais próximas da tendência dos dados, também já mostram certa aceleração. Elas devem se deslocar ainda mais para cima nos próximos dias devido ao “efeito férias”. Ou seja, esse elemento adicional de incerteza econômica (evolução da doença) não deve colaborar para a melhoria da confiança no curto prazo, enquanto a vacinação não se materializar.

Análise dos dados

Em resumo, os fatores de risco citados acima pendem para o negativo em termos de impacto de curto prazo sobre a atividade econômica neste início de 2021. Como informamos, já partimos de uma variação de 2% no 4º trimestre de 2020 e 0,1% no 1º trimestre de 2021.

No caso de um contexto extremo, as taxas devem cair 0,5% no 1º trimestre de 2021. Não é o nosso base case. Julgamos que as taxas sequenciais de crescimento devem mostrar aceleração, especialmente após o início esperado da vacinação, ao final de janeiro.

Com relação à inflação, esperamos um recuo relevante neste início de ano. Ele deve vir após a aceleração observada desde setembro de 2020, puxada em grande medida pela alimentação no domicílio.

Um dos fatores que contribuem para esse movimento é a alteração da bandeira tarifária de energia elétrica de “vermelha 2”, em dezembro, para “amarela”, em janeiro. Essa mudança deve retirar cerca de 32 basis points (bps) do IPCA.

Também há a expectativa por um abatimento das altas nos preços dos alimentos. Isso deve acontecer apesar dos sinais recentes de pressões em produtos in natura, como o tomate — um item bastante sensível a alterações nas condições climáticas.

Riscos

Entre os principais riscos para o cenário de inflação, consideramos uma dissipação das altas em alimentos de modo mais gradual do que a antecipada. Isso poderia enfraquecer o argumento de que as pressões nesse grupo são temporárias.

Nesse sentido, vale destacar que a deflação em produtos agropecuários no atacado — verificada em dezembro de 2020 — deve ser revertida ao longo desse mês. O motivo principal são as elevações de preços da soja e do milho, com restrições de oferta na Argentina contribuindo para sustentar esse motivo.

Outro fator de risco está relacionado à dinâmica dos preços do petróleo. O tipo BRENT encerrou 2020 em $ 51,80, com oscilações acima de $ 55 bps. Esse contexto e o real mais depreciado aumentam a probabilidade de novos reajustes de preços de combustíveis pela Petrobras.

Por outro lado, como risco de baixa, o endurecimento de medidas de restrição e mobilidade social pode levar a uma retomada mais gradual da inflação de serviços. Além disso, existe o fato de que a piora do quadro da pandemia no Brasil pode reduzir a confiança do consumidor, deixando-o mais cauteloso.

Esse movimento pode ser gerado mesmo com a expectativa de início das campanhas de vacinação nas próximas semanas. Com tudo isso, reafirmamos nossa expectativa de IPCA em 3,4% em 2021.

Destacamos que, no nosso balanço de riscos, a assimetria é para cima. Eventual desfecho negativo no campo fiscal, como a sinalização de não comprometimento com o ajuste fiscal e a regra do teto de gastos, pode implicar desancoragem de expectativas e depreciação cambial.

Ainda há a aceleração da inflação para próximo de 5% e a exigência de uma reação mais firme do Banco Central, em comparação à antevista do nosso cenário-base. Com isso, as projeções dos indicadores são:

  • IPCA: 4,3% em 2019, 4,4% em 2020, 3,4% em 2021 e 3,5% em 2022;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,10 em 2021 e R$ 5 em 2022;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 3% em 2021 e 4% em 2022;
  • PIB: 1,4% em 2019, – 4,6% em 2020, 3,5% em 2021 e 3% em 2022.

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