Radar da Economia: Dados de atividade doméstica mudam projeções econômicas

Neste Radar da Economia, abordamos a atividade doméstica. Nosso objetivo é investigar os indicadores publicados recentemente — Produto Interno Bruto (PIB) e produção industrial — e os fatores exógenos com impacto relevante, como o agravamento da COVID-19 no Brasil.

Ainda que os dados divulgados tenham vindo positivos, são indicadores que não incorporam todo o conjunto relevante de informações a respeito de 2021. A massa de renda disponível é menor atualmente devido ao fim provisório dos benefícios emergenciais do governo.

A inflação tende a acelerar até alcançar o seu pico na relação percentual anual, o que deve ocorrer em meados de 2021. Ao mesmo tempo, o desemprego seguirá alto. Todos esses elementos, em paralelo com a pandemia, sugerem um ambiente econômico ainda difícil na primeira metade do ano.

Por outro lado, no segundo semestre, o PIB tende a ganhar força. Isso se a vacinação tiver um avanço disseminado e houver um reflexo positivo nos índices de mobilidade.

Desenvolvimentos recentes têm sido mais favoráveis nesse sentido, como a ampliação do leque de vacinas a serem adquiridas pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), agora próximas de 475 milhões de doses. Para 2021, mantemos nossa projeção de crescimento de 3,5% — basicamente, o efeito estatístico do carry.

Para explicar melhor esse cenário que apresentamos de forma resumida, vamos esmiuçar os assuntos a partir de agora. Confira.

Indicadores econômicos

O PIB brasileiro registrou expansão trimestral de 3,2% no 4.º trimestre de 2020. Na época, ele veio de uma alta de 7,7% no 3.º trimestre e superou o consenso de mercado, que era de 2,8%. Na ótica da oferta, os destaques positivos foram:

  • Serviços, com alta de 2,7%;
  • Indústria, com crescimento de 1,9%.

Esses setores se mostraram ligeiramente acima do esperado na margem. O segmento agropecuário — com peso relativo menor, de 4% — teve uma modesta queda, de 0,5%. Por sua vez, o PIB industrial foi bastante puxado pela manufatura, em processo de recomposição de estoques frente à demanda sustentada de então.

Em relação aos serviços, houve, principalmente, o reflexo do relaxamento das medidas de isolamento social no 4.º trimestre de 2020. Ainda assim, seguem bem abaixo do nível pré-pandêmico em sua totalidade. Tanto é que apresentava uma queda de 2,2% na comparação anual. Isso ainda evidencia o impacto heterogêneo da crise sanitária.

Atividades como lazer e turismo exibem quedas perto de 10% em relação ao 4.º trimestre de 2019. Enquanto isso, serviços financeiros se situam cerca de 3% acima.

Do lado da demanda, o ritmo dos investimentos (20% na comparação trimestral) chamou atenção na margem, tal como antevisto na indústria de bens de capital (20%). O consumo das famílias, incluindo bens e serviços, também veio positivo, com alta de 3,4%. Ainda assim, foi menor do que o observado no 3.º trimestre de 2020, quando o crescimento foi de 7,7%.

O consumo do governo desacelerou para 1,1%. Isso representou uma queda na comparação anual de 4,1%. Por fim, as exportações líquidas exerceram contribuição negativa para o crescimento no período. O motivo foi o grande aumento das importações (22%) junto a uma queda de 1,4% nas exportações.

PIB

A variação do PIB total no 4.º trimestre de 2020 foi de – 1,1%, quando comparado ao mesmo trimestre de 2019. Ou seja, ficou abaixo do nível pré-pandêmico. Com isso, o PIB de 2020 teve uma retração de 4,1%, fazendo o PIB per capita cair 4,8% em termos reais e chegar em R$ 35.172.

Essas foram as menores taxas da série histórica, iniciada em 1996 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O motivo foi o reflexo dos efeitos adversos da pandemia de COVID-19. Nesse ambiente de mais incerteza, as famílias tendem a poupar mais em vez de consumir.

Com o declínio na demanda por serviços devido ao isolamento social e contando com o efeito positivo dos auxílios emergenciais — que somaram cerca de R$ 300 bilhões em 2020 —, a taxa de poupança bruta subiu para 15% do PIB em 2020. Em 2019, era de 12,5%.

Por sua vez, a taxa de investimento foi de 16,4% do PIB em 2020. Esse resultado ficou acima de 2019, quando foi de 15,4%.

O carregamento estatístico do PIB de 2020 para o de 2021 veio forte, com 3,6%. É sobre esse nível de PIB que se materializará o impacto adverso das medidas mais recentes de isolamento social. Elas foram reimplementadas nas últimas semanas em caráter regionalizado.

Diversos estados, além de São Paulo, adotaram medidas mais restritivas à circulação de pessoas. Entre eles estão Bahia, Paraná, Ceará, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Rio Grande do Sul.

Nossas estimativas apontam para um impacto negativo da ordem de 0,8 ponto percentual no PIB do 1.º trimestre de 2021. A projeção está na tabela a seguir, baseada nas contas nacionais (IBGE).

Projeções

Com o impacto negativo mais expressivo dos lockdowns locais, projetamos agora uma queda de 0,6% para o PIB no 1.º trimestre de 2021. Antes, era de – 0,2%. Algum fôlego deve vir da nova rodada de auxílio emergencial (0,4% do PIB), prevista para março. Com isso, tende a colaborar para alguma melhoria no 2.º trimestre de 2021, com previsão de 0,3%.

Esse cenário deve se confirmar, desde que não seja acompanhada por deterioração da incerteza econômica/condições financeiras, que levam a maior risco fiscal. No segundo semestre, o PIB tende a ganhar força, desde que a vacinação avance e os índices de mobilidade melhorem.

Conforme destacamos no início, os desenvolvimentos recentes mostram que há melhorias nesse sentido. Uma delas é o aumento das vacinas adquiridas pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), que deverá comprar cerca de 475 milhões de doses.

Por isso, há a projeção de crescimento de 3,5%, que é praticamente o efeito estatístico do carry. Ou seja, dada a persistência dos choques recentes, especialmente a dinâmica da pandemia, a economia deve rodar de lado ao longo do ano.

Produção industrial

Ante o resultado de janeiro de 2021, percebe-se que ele veio totalmente alinhado ao esperado, com 0,4% na margem e 2% na comparação interanual. Isso marcou também o 9.º resultado positivo consecutivo, ainda influenciado pela recomposição dos estoques.

Contudo, a perspectiva é de desaceleração à frente, tal como espelhado no PIB. O exercício de carry para a indústria no 1.º trimestre de 2021 indica crescimento de apenas 1,3%, vindo de uma alta de 5% no 4.º trimestre de 2020.

O newsflow setorial sugere que a perda de força pode ser ainda mais expressiva em função das frequentes interrupções na produção de alguns setores por falta de insumos. Veja o gráfico a seguir.

Diante de todo esse cenário, as estimativas para os indicadores econômicos ficam da seguinte forma:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 3,8% em 2021, 3,5% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,10 em 2021, R$ 5,00 em 2022 e R$ 4,90 em 2023;
  • Selic: 4,50% em 2019, 2,00% em 2020, 4,25% em 2021, 5,00% em 2022 e 5,75% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, – 4,1% em 2020, 3,5% em 2021, 3,0% em 2022 e 3,0% em 2023.

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