Radar da Economia: Eventos econômicos influenciam a alta da Selic

A semana terminada no dia 12 de março foi bastante rica em termos de eventos econômicos e políticos relevantes, com impacto a construção de cenários futuros.

Um desses eventos é a aprovação da proposta de ajuste fiscal no Congresso como contrapartida ao auxílio emergencial. Vale lembrar que a votação da PEC Emergencial foi concluída na madrugada do dia 12.

Ela permitirá o pagamento do auxílio de renda a vulneráveis e também cria instrumentos de ajustes nas despesas em situações de emergência fiscal ou calamidade nacional. Após as negociações no Congresso, foram preservados:

  • O limite de R$ 44 bilhões para o pagamento total do auxílio;
  • O plano de redução de subsídios e incentivos tributários;
  • A possibilidade de usar recursos do caixa do governo para abater mais de R$ 100 bilhões da dívida pública.

Agora, o próximo passo é a promulgação do texto pelas mesas diretoras do Congresso. Além desse aspecto, o quadro eleitoral doméstico de 2022 também ganhou contornos de mais polarização.

Isso porque o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, declarou a incompetência da 13.ª Vara Federal de Curitiba para o processo e o julgamento das ações da Operação Lava Jato contra o ex-presidente Lula. Isso anulou as condenações do petista.

Em paralelo, os indicadores locais de atividade seguem apontando para um início de ano mais fraco — conforme analisamos no Radar da Economia “Dados de atividade doméstica mudam projeções econômicas”. Ao mesmo tempo, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro veio bem acima do esperado e exibe taxas ainda “desconfortáveis” de núcleos de inflação.

Nos Estados Unidos, os impulsos fiscais adicionais — quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) — já começam a se materializar. Em nossa avaliação, a resultante dessas forças, no âmbito da política monetária, referenda o início do ciclo de ajuste da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). É o que discutiremos melhor neste Radar da Economia.

Cenário amplo

Começando a discussão pelo front global, a abertura dos juros das treasuries ganhou ainda mais força após a sanção do pacote fiscal de 1,9 trilhão de dólares pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. A medida já estava aprovada em ambas as Casas do Congresso do país.

Biden também tem assegurado que a vacinação de adultos contra a COVID-19 será antecipada em todo o território nacional e ganhará mais velocidade no curto prazo. Isso porque o ritmo verificado na segunda semana de março é de aproximadamente 0,65% da população por dia.

Enquanto isso, as principais autoridades monetárias do mundo têm reafirmado a permanência de políticas acomodatícias por um longo período. Isso com a manutenção dos juros básicos nas mínimas históricas e os respectivos programas de compras de ativos (QE), que poderiam até ser intensificados, se necessário.

Tanto é que, na semana terminada em 12 de março, o Banco Central Europeu (BCE) emitiu um comunicado pós-reunião afirmando que as aquisições do Programa Emergencial de Compras na Pandemia (PEPP) ocorrerão em ritmo significativamente mais rápido no próximo trimestre.

Membros do BCE afirmaram também que, caso necessário, o programa será “recalibrado”, de forma a garantir condições financeiras favoráveis. No caso do FED — o Banco Central americano —, a linha seguida é similar.

Esse quadro global, de melhor perspectiva para vacinação/economia nos Estados Unidos e ampla liquidez, impulsiona o preço relativo do dólar (DXY) e as cotações de commodities, que já são favorecidas pela perenidade da expansão econômica chinesa.

Na China, aliás, a meta para o crescimento do PIB de 2021 é de 6% ou mais. Essa perspectiva sinaliza uma ambição um tanto modesta por parte das autoridades, dado que será facilmente superada apenas pelo efeito do carregamento estatístico estimado.

De forma resumida, o contexto mundial agora é de:

  • Retomada econômica, que é diferente entre os países em função do ritmo de vacinação;
  • Dólar DXY forte, contra pares e emergentes também;
  • Preços mais altos de commodities.

Esses são fatores que impactam a “inflação importada” (preços externos convertidos em reais) no IPCA. Por isso, incentivam uma postura mais conservadora por parte do Banco Central (BC), conforme discutiremos adiante.

Projeções atualizadas para o IPCA

Para fazer essa análise, vamos começar com o curto prazo. Em fevereiro de 2021, o IPCA acelerou para 0,86% e superou nossa projeção de, 0,73%. Além disso, ultrapassou o teto das estimativas de mercado, de 0,80%. O resultado do mês anterior foi de 0,25%.

Com isso, o IPCA acumulado em 12 meses passou de 4,56% para 5,20%. Agora, situa-se próximo do limite superior do intervalo da meta para 2021, que é de 3,75%, com banda de 1,5% para mais ou para menos.

Em fevereiro, o destaque de alta no mês veio dos preços administrados, que foram de – 0,29% para 1,69%. Eles foram puxados pela forte alta da gasolina, que passou de 2,17% para 7,11%. Esse item foi o maior responsável pela contribuição positiva ao IPCA, de 0,36 ponto percentual (p.p.).

Na margem, o índice de difusão recuou de 65,5% para 63,4%. Isso sugere que as pressões de alta foram concentradas em algumas categorias de preços, notadamente administrados.

Em termos de tendências inflacionárias, vale notar que a média dos núcleos de inflação subiu de 3% para 3,2% na comparação anual. Por outro lado, a inflação cheia de serviços recuou de 1,5% para 1,4%. Já a medida subjacente do setor, correlacionada às demais métricas de core inflation, subiu de 2,7% para 2,8%.

Os bens industriais, em 12 meses, cresceram de 4% para 4,6% e a alta dos preços de alimentos em domicílio passou de 19,2% para 19,4%, nessa métrica. Ou seja, a maioria dos grupos de preços exibe ritmo expressivo de alta, especialmente aqueles associados às commodities agrícolas e industriais.

Em função dessa conjuntura, além do real depreciado (ante os fundamentos) e dos desequilíbrios setoriais entre oferta e demanda na indústria, há sinais de pressões mais persistentes ao longo da cadeia. Com isso, projetamos agora que o IPCA deve encerrar 2021 em 4,7% e 2022 em 3,7%.

Com isso, superará a meta central perseguida pelo BC nesses dois anos. Em 2021, ela é de 3,75% e, em 2022, de 3,5%. Em nossa avaliação, as expectativas Focus tendem a ser ajustadas também nessa direção. A rigor, isso já ocorre desde o final de 2020, em relação às projeções para 2021. Agora, deve começar a afetar muito em breve as expectativas para 2022.

Expectativas para a Selic

A respeito das finanças públicas, julgamos que o contexto é de flexibilização temporária do arcabouço fiscal vigente. A pandemia é a justificativa. Ela tende a ser acompanhada por contrapartidas de compromisso fiscal mais duradouro, porém bastante incertas, no médio prazo.

No que se refere à política fiscal, conforme argumentamos no Radar da Economia “Dados de atividade econômica sinalizam alta dos juros”, o BC reage aos fatos. Esses também parecem exigir uma postura mais cautelosa.

Dessa forma, mantemos nossa expectativa de que o BC iniciará o ciclo de ajuste da Selic ainda em março, com uma alta de 50 pontos-base (bps). A justificativa são as projeções para o IPCA no horizonte relevante, que estão cada vez mais distantes da meta e a presença das incertezas fiscais, ainda que atenuadas após a aprovação da PEC Emergencial no Congresso.

O propósito do aumento da Selic é o de ancorar as expectativas de inflação no médio prazo face aos choques correntes, já que sua persistência tem sido maior do que a antecipada. Afinal, há o peso do fortalecimento da pandemia, com impacto negativo na atividade econômica. Em relação aos outros indicadores, as projeções são:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 4,7% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,10 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 5% em 2021, 5,75% em 2022 e 5,75% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, – 4,1% em 2020, 3,5% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Assim, projetamos que a taxa Selic será elevada para 2,5% ao ano na reunião de março do Copom. Esse ajuste será seguido por 5 movimentos de mesma magnitude em maio, junho, agosto, setembro e outubro.

Inclusive, eles podem ser mais acelerados do que isso, a depender da reação inicial e do comunicado do BC. Então, esperamos uma pausa ao final do ano, em paralelo à diminuição esperada das pressões inflacionárias no IPCA.

Isso conduziria a taxa básica de juros para 5% em fins de 2021. No médio prazo, a tendência é que os juros retornem ainda mais rápido ao seu nível neutro (5,75%) em 2022, conforme prevê nosso cenário básico.

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