Radar da Economia: Os impactos do conflito entre EUA e Irã

No governo Donald Trump, tudo pode mudar de uma hora para outra. A monotonia passa longe, inclusive em períodos considerados calmos, como o início de ano. O ataque americano ao general iraniano Qassem Soleimani mostrou bem isso.

No dia 3 de janeiro de 2020, a morte do general pelos Estados Unidos trouxe incertezas para os mercados —uma má notícia, já que tudo se encaminhava para a tranquilidade, após a assinatura da fase 1 do acordo entre China e Estados Unidos.

Como essa confusão no Oriente Médio vai mudar o cenário externo benigno? E como os últimos números do crescimento e inflação brasileiros podem mudar as projeções para o começo de 2020? Esses serão os temas discutidos nesta coluna.

Os motivos da morte do general Soleimani

A surpresa do mundo com o assassinato do general Soleimani fez com que a seguinte frase de Shakespeare se tornasse atual: “é uma infelicidade da época que os doidos guiem os cegos”.

Afinal, o general podia ser o que Trump afirmou. No entanto, se esteve na mira de outros presidentes americanos — como George W. Bush e Barack Obama —, um bom motivo existia para nunca ter acontecido nada.

Além do próprio fato de atacar um dirigente importante, de um país geopoliticamente relevante, em uma região problemática e no território de um terceiro estado, o momento pareceu ainda mais contraproducente.

As sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos ao Irã estavam asfixiando a economia do país do Oriente Médio. Em 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) do país persa caiu 4,8%.

Ainda é provável que seja confirmada uma retração de 9,5% em 2019. O desempenho ruim da economia e a necessidade de cortar os subsídios dos preços dos combustíveis para equilibrar as contas públicas geraram um clima de insatisfação na população iraniana.

Com isso, milhares de pessoas foram às ruas contra o governo local. Segundo dados da Anistia Internacional, a repressão das manifestações deixou, pelo menos, 106 mortos.

Isso significa que, com um pouco de paciência e apertando o torniquete econômico, Trump poderia forçar mudanças no regime iraniano sem apelar para atitudes bélicas.

Então, o que levou Trump a tomar essa decisão de matar Soleimani? O motivo poderia ser a união da nação em torno de um inimigo externo em um momento particularmente delicado para o presidente americano.

Ele enfrenta um processo de impeachment no Congresso e as eleições presidenciais estão à frente. Entretanto, isso não faria sentido, porque o pleito ainda está distante e a probabilidade do Senado, dominado por republicanos, tirá-lo do cargo é remota.

Mais que isso, o principal ativo para um presidente americano se reeleger é a situação econômica. Com certeza, uma guerra generalizada com o Irã prejudicaria a performance mundial e dos Estados Unidos em particular.

Desse modo, como não existe um motivo racional para essa decisão do presidente americano, todos atribuem ao seu comportamento impetuoso. Isso, porém, prejudica a redução das incertezas para o cenário econômico em 2020.

Os impactos mundiais do confronto EUA x Irã

Esse problema, que poderia ter consequências desastrosas para o mundo, foi resolvido de modo mais positivo que o esperado. Houve a convergência de dois fatores para esse resultado:

  • o comportamento dos dois lados nos dias logo após a morte de Soleimani;
  • a queda do avião ucraniano.

A principal preocupação do mundo após a morte do general Soleimani era a reação do Irã. O medo de que ela pudesse gerar uma guerra aberta com os Estados Unidos era real, principalmente no caso de algum americano morrer.

Portanto, o lançamento limitado de mísseis em uma base americana no Iraque — que parece ter sido feito para não causar danos irreparáveis — abriu espaço para Trump sinalizar o caso como encerrado, pelo menos, aparentemente, já que são aplicadas novas sanções econômicas.

Em outras palavras, isso significa que, se ninguém der um passo em falso daqui para frente, há chance de retornar para as disputas indiretas habituais na relação entre os dois países. Algo com que o mercado já está acostumado.

Talvez essa primeira rodada de retaliações pudesse ser percebida como um aquecimento, especialmente por parte do Irã. Entretanto, a queda do avião ucraniano em espaço aéreo iraniano, horas após o ataque à base americana, pode ter limitado o espaço para o Irã dar um passo adiante nessa confusão.

Afinal, a suspeita de que a queda foi provocada por um erro da bateria antiaérea iraniana — que foi confirmada dias depois — fez com que o país passasse de vítima a algoz e tenha que sair do ataque e ir para a defesa. Com isso, o ímpeto para escalar mais rusgas com os americanos foi reduzido.

Por coincidência, um acidente desse tipo já aconteceu com um avião iraniano. Em 1988, período do final da guerra entre Irã e Iraque — e na qual o primeiro fazia operações de ataque contra petroleiros no Estreito de Ormuz —, um navio da 5ª frota americana confundiu um avião da Iran Air com um F-14. Assim, a aeronave foi abatida e levou 290 pessoas à morte.

A conclusão é que o evento do assassinato de Soleimani já está superado — basta ver o retorno dos preços do petróleo aos níveis pré-general. Dessa forma, os mercados esperarão se algo vai acontecer. Caso contrário, no dia 13 de janeiro de 2020, segunda-feira, tudo volta ao normal e o foco passa a ser o acordo com a China.

A assinatura da fase 1 entre Estados Unidos e o país asiático deve reforçar o otimismo do mercado. Ou seja, o arroubo de Trump com relação ao Irã gerou instabilidades e incertezas, mas não traz consequências de longo prazo. De toda forma, esse episódio lembra a falta de equilíbrio do presidente americano, que sempre será uma fonte de volatilidade para os ativos.

A manutenção das expectativas para o Brasil

A manutenção do otimismo no cenário externo e os poucos “sustos” no interno fazem as previsões para o Brasil permanecerem iguais. O primeiro deles foi o resultado da Produção Industrial mensal (PIM) de novembro.

Apesar de a nossa expectativa ter sido de uma queda de 1,4% na comparação mensal, o mercado esperava uma retração menor, de 0,7%. Por isso, a divulgação de que a PIM recuou 1,2% em novembro gerou a ideia entre os analistas de que a recuperação da economia está menos robusta do que se considerava.

Apesar de nossas projeções estarem mais próximas do resultado final do que a expectativa do mercado, achamos que a visão de perda de vigor do crescimento brasileiro é exagerada. O problema é o mercado ter se acostumado com a recente trajetória da PIM.

Nos meses de agosto, setembro e outubro, o índice engatou três altas seguidas, com um crescimento acumulado de 2,2% no período. Com isso, acreditamos que o mercado esqueceu que o desempenho do setor foi errático durante todo o ano de 2019.

Como exemplo, lembramos de que, nos três meses anteriores a essa sequência de altas, houve um trimestre de quedas. No período, a retração acumulada chegou a 0,9%. No ano de 2019, o desempenho da indústria foi bastante fraco e chegou a uma queda de 1,1% até outubro.

Assim, antes mesmo do resultado de novembro, nada indicava que a indústria poderia ser a salvação do crescimento brasileiro. Os motivos são conhecidos: guerra comercial, redução das exportações de manufaturas para a Argentina e ociosidade elevada, que limita o aumento dos bens de capital.

Portanto, apesar desse “susto” — e como acreditamos que o motor da alta da economia virá do consumo das famílias —, será mais importante avaliar os dadas das Pesquisas Mensais de Serviços (PMS) e de Comércio (PMC). Eles serão divulgados nos dias 14 e 15 de janeiro de 2020, respectivamente.

O segundo receio surgido foi a inflação. Mais uma vez, o mercado subestimou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O indicador fechou dezembro em 1,15%, contra a mediana das projeções de 1,08%.

Porém, o que foi mais emblemático no resultado foi a inflação oficial ter fechado 2019 em 4,31%. O indicador ficou acima da meta de 4,25% para o ano, o que era impensável até outubro, aproximadamente.

Ainda assim, é possível minimizar a preocupação. O resultado veio acima do esperado em novembro e em dezembro — e isso aconteceu pelo mesmo motivo: a alta das carnes. A alta foi de 8,09% e 18,06%, respectivamente.

A considerar o peso desse grupo no IPCA, a contribuição foi de 0,22 ponto percentual em novembro e de 0,52 ponto percentual em dezembro. Se excluirmos a carne bovina do cálculo, o IPCA do primeiro mês teria sido de 0,29% e no segundo mês de 0,63%. Nesse caso,o índice fecharia 2019 em 3,57%, abaixo da meta.

Outra prova de que esses números mais altos foram reflexo de um movimento pontual, e não de uma mudança estrutural, são os dados que mostram a inflação “real”. Os serviços subjacentes fecharam o ano em 3,55% e a média dos núcleos em 3,1%, índices muito mais próximos do IPCA sem a carne bovina do que dele completo.

A união do arrefecimento da crise entre Estados Unidos e Irã aos números de atividade e inflação divulgados manteve a linha mestre do nosso cenário para o início de 2020. Assim, a economia brasileira continua a se recuperar com base no consumo das famílias.

A expectativa é que o Produto Interno Bruto (PIB) cresça 1,2% em 2019 e 2,5% em 2020. Afinal, a inflação contínua sob controle, mesmo com esse choque da carne bovina, de modo que o resultado acima da meta de 2019 não deve ser ampliado para 2020.

Nesse caso, o IPCA deve permanecer em 3,7%, mesma projeção anterior e abaixo da meta de 4% para o período. Veja como ficam as previsões:

  • IPCA: 4,31% em 2019 e 3,7% em 2020;
  • câmbio: R$ 4,02 em 2019 e R$ 4,21 em 2020;
  • Selic: 4,5% em 2019 e 2020;
  • PIB: 1,2% em 2019 e 2,5% em 2020.

A consequência da manutenção das nossas projeções para o cenário externo, crescimento e inflação é a ausência de mudança do cenário para a política monetária.

Ou seja, mantemos a expectativa de manutenção dos juros do Banco Central do Brasil (BCB) em 4,5% ao ano na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que deve ocorrer em 5 de fevereiro de 2020. Além disso, acreditamos que esse patamar deve permanecer até o final do ano.

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