Radar da Economia: Análise sobre a reunião do Copom e sua relação com a inflação

Após o Banco Central (BC) elevar a taxa básica de juros pela primeira vez desde julho de 2015, ficou clara a visão da entidade em relação ao cenário econômico e seu plano de voo na condução da política monetária. Para relembrar, a Selic passou da mínima histórica de 2% para 2,75%.

Esse resultado surpreendeu parte do mercado. A expectativa era de uma alta para 2,5%. Na semana terminada em 26 de março, a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e o relatório de inflação indicaram o que deve acontecer nos próximos meses.

Com esse novo conjunto de informações, vamos aprofundar alguns pontos neste Radar da Economia. Abordaremos os aspectos que consideramos relevantes e discutiremos nossas expectativas para juros e inflação.

Informações do Copom

A ata da última reunião do Copom foi divulgada no dia 23 de março. Seu tom foi considerado mais duro do que o comunicado publicado após o encontro da semana anterior. Nesse contexto, o que chama a atenção é o parágrafo 15:

“O Comitê discutiu ainda que a demora na normalização das cadeias produtivas, pressionando custos de produção e inflação em setores específicos, sugere que há também um choque positivo de demanda atuando. Diversos membros também ressaltaram que as pressões inflacionárias observadas em 2021 podem contaminar as expectativas de inflação para 2022, gerando risco de uma desancoragem das expectativas no horizonte relevante de política monetária. Finalmente, acerca da dinâmica recente da inflação, o Comitê apontou que, apesar do diagnóstico de que os choques atuais são temporários, o modelo de metas prevalente no país considera a inflação cheia no ano-calendário. Todos esses fatores contribuíram para uma postura mais assertiva na condução da política monetária”.

Ainda precisamos destacar a visão construtiva do BC para a atividade econômica. A avaliação é de que o Produto Interno Bruto (PIB) do 4.º trimestre de 2020 e os dados de janeiro e fevereiro de 2021 continuam indicando recuperação consistente da economia.

Em conjunto com as informações do mercado de trabalho formal, os números sugerem que a ociosidade de toda a economia se reduziu de forma mais rápida do que a prevista, apesar do aumento da taxa do desemprego. Essa é a visão do Copom. Sendo assim, o parágrafo 11 traz que o diagnóstico é que:

“(…) a despeito da redução parcial dos programas governamentais de recomposição de renda, a retomada econômica surpreendeu positivamente”.

Logo em seguida, ainda está descrito:

“(…) prospectivamente, o Comitê avaliou que uma possível reversão econômica devido ao agravamento da pandemia seria bem menos profunda do que a observada no ano passado, e provavelmente seria seguida por outra recuperação rápida. Para o Comitê, o segundo semestre do ano pode mostrar uma retomada robusta da atividade, na medida em que os efeitos da vacinação sejam sentidos de forma mais abrangente”.

Inflação

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que a entidade monetária reconhece a inflação recente mais alta. A informação foi destacada na apresentação do relatório de inflação divulgado no dia 25 de março. Ele ainda afirmou que a persistência desse movimento é, em grande parte, gerada por commodities e tem contaminado outros itens.

De fato, o gráfico a seguir mostra que o indicador de difusão — que computa a parcela de subitens do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) com variação positiva no mês — tem oscilado desde setembro acima da média para os mesmos meses dos cinco anos anteriores. Veja.

Apesar desse maior espalhamento das altas dentro da cesta do IPCA, o BC segue com o diagnóstico de que as pressões são temporárias. Aqui, é interessante observar o próximo gráfico, que apresenta a evolução das taxas mensais de alimentação no domicílio e gasolina.

A aceleração dos preços de alimentos ao longo do segundo semestre de 2020 perdeu força, de fato. No entanto, a descompressão ocorreu de modo mais gradual que o anteriormente imaginado. Durante esse processo, um novo foco de pressão surgiu — dessa vez, nos combustíveis.

Observamos também que, no início da pandemia, esses dois subitens se moveram em sentidos opostos. Houve forte queda nos preços da gasolina devido ao declínio nas cotações do petróleo e de derivados no mercado internacional. Enquanto isso, a alimentação em domicílio disparou por conta da maior demanda e de restrições de oferta.

Combustíveis e embalagens

Os combustíveis já sofreram uma acomodação dos preços no atacado. A Petrobras cortou em 5% o preço da gasolina na refinaria, e houve outra redução de 4% na semana terminada em 26 de março.

Quanto ao diesel, a companhia também fez, na mesma semana, o primeiro reajuste para baixo desde outubro de 2020. A retração foi de 4%. O risco de não continuidade dessa dinâmica é o retorno das pressões sobre o petróleo no mercado internacional e a depreciação do real perante o dólar.

Além desse gráfico, precisamos chamar a atenção para essa dinâmica.

A inflação de embalagens no atacado pode atingir tanto a indústria de alimentos e bebidas quanto outras cadeias de bens industriais, como higiene e limpeza, produtos eletroeletrônicos e diversos outros bens de consumo. Além disso, a disparada dos preços de suprimentos oferece risco de encarecimento de custos para o processo produtivo no setor agropecuário.

Essa elevação acontece, em grande parte, devido aos adubos e fertilizantes. Como consequência, há pressão nos preços de grãos, que podem impactar a cadeia de proteínas. Portanto, esse é um risco a observar.

Política monetária

Com relação a esse aspecto, um dos pontos mais relevantes da apresentação do relatório de inflação apareceu durante a sessão de perguntas e respostas. Campos Neto esclareceu o que significa normalização parcial:

“Normalização está relacionada à taxa neutra. Então, se a normalização é parcial, isso significa que nós não entendemos que esse movimento deve acontecer agora”.

A taxa real neutra de juros, estimada pelo BC, é de 3%. O presidente da autoridade monetária também falou sobre o plano de voo a ser seguido. Ele afirmou que “o ajuste mais célere nos faz crer que, na verdade, fazer [o movimento de alta de juros] mais rápido faz com que a intensidade total deva ser menor”.

Além do mais, ele mencionou que esse ajuste mais forte no começo tem um efeito importante na ancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. A partir desse conjunto de informações, mantemos nossa expectativa de mais de três altas de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros. Elas devem ocorrer nas reuniões de maio, junho e agosto. Com isso, a Selic deve ser mantida em 5% até o final de 2021.

Para a inflação, revisamos nossa expectativa de IPCA para 2021 de 4,7% para 4,9%. O motivo é o risco de pressões mais persistentes na cadeia de bens industriais, algo relevante no nosso cenário de inflação. Confira outras projeções:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 4,9% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,10 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 5% em 2021, 5,75% em 2022, 5,75% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, – 4,1% em 2020, 3,5% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

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