Radar da Economia: As expectativas para a vacinação e a recuperação da economia

Em suas comunicações mais recentes, o Federal Reserve (FED) — Banco Central dos Estados Unidos — tem enfatizado que a trajetória econômica do país dependerá significativamente do curso do vírus. Nesse processo, também está incluído o progresso das vacinações.

Apesar desse cenário ser relativo aos norte-americanos, esse é um fato incontestável, inclusive para outras nações do mundo. O Brasil, emergindo do choque da COVID-19, é um deles.

Nesse contexto, detalhamos neste Radar da Economia as nossas simulações para a vacinação nacional ao longo dos próximos trimestres. Ainda destacamos o efeito positivo que a progressão da imunização tende a exercer sobre a confiança econômica e a atividade doméstica na segunda metade de 2021.

Por fim, analisamos também os dados de atividade divulgados na semana terminada em 16 de abril, que se referem ao mês de fevereiro. Como você verá, eles trouxeram surpresas positivas, mas ainda retratam o período anterior às medidas restritivas implementadas localmente — e que impactarão os indicadores de atividade a partir de março.

Outro ponto é a conclusão de que a nossa projeção de alta de 3,5% para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2021 continua justa. Isso acontece devido ao balanço de riscos em torno do número central e ao grau de incerteza da atual conjuntura. Portanto, o foco total está no progresso da imunização nacional. Diante de todo esse contexto, vamos à análise.

Vacinação no Brasil

O nosso exercício parte de premissas conservadoras para a produção de imunizantes pelos dois laboratórios nacionais já autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A suposição é de uma capacidade produtiva de 35 milhões de doses por mês, após o alcance do “ritmo de cruzeiro” vindo dos ganhos de escala/escopo iniciais. Esses dados estão apresentados na tabela a seguir.

O Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) são os dois fornecedores da campanha nacional de vacinação contra a COVID-19. Em março, a primeira instituição entregou 22,7 milhões de doses da CoronaVac, que é produzida em parceria com o laboratório chinês Sinovac.

Para chegar a esse resultado, o Butantan conta com 1,6 mil funcionários trabalhando em quatro turnos. Por outro lado, em abril, o ritmo foi menor devido à produção de vacinas contra a gripe comum.

Por sua vez, a Fiocruz manufatura a vacina Oxford/AstraZeneca e produz entre 5 e 6 milhões de doses por semana em duas linhas de produção. Ambas no Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos). Aqui, um escalonamento adicional da produção já está sendo feito.

Por isso, espera-se um segundo turno de trabalho em breve. Com isso, será viabilizada a produção de até 1,2 milhão de doses diárias. Dessa forma, o ritmo atual de ambos os laboratórios aponta para uma capacidade produtiva 30% superior àquela usada em nossas simulações.

Outra hipótese adotada é a de que o fluxo dos insumos farmacêuticos (IFAs) requeridos, tanto importados quanto nacionais, não tenha descontinuidade. Em especial, o Butantan se depara com problemas de atraso na chegada de insumos vindos da China. Ainda que a situação seja contornável, requer atenção.

Vacinação da população

A suposição é de que a taxa de engajamento seja de 75% com a campanha nacional de vacinação. Levantamentos recentes de consultorias e institutos de pesquisa sugerem que esse índice é razoável.

Segundo a Oliver Wyman, 76% dos brasileiros estão dispostos a tomar a vacina, sendo que 60% querem muito e 16% desejam tomar o imunizante. Na outra ponta, 9% são neutros e 15% ainda mostram resistência.

Por sua vez, o Datafolha apura que a parcela de brasileiros adultos com pretensão a se vacinar tem crescido ao longo de 2021. Em março, estava em 84%. Enquanto isso, nos meses anteriores estava menor. Veja:

  • janeiro: 79%;
  • dezembro de 2020: 73%.

Enquanto isso, a parcela dos que não pretendem se vacinar tem diminuído e registrou 9% no mês passado. Nas pesquisas anteriores, estava em 17%, 22% e 9%. Partindo das premissas citadas de oferta e demanda, chegamos na curva de vacinação a seguir.

As estimativas apontam que, uma vez iniciada a vacinação em massa, teríamos aproximadamente 60% da população-alvo imunizada com a primeira dose em 3,3 meses. O ratio de 100% seria atingido em cinco meses.

Assim, considerando o início efetivo da campanha nacional em fins de janeiro, os grupos prioritários devem estar vacinados até fins de maio. Considerando o período até outubro, toda a população acima de 18 anos estaria na mesma situação.

Contém notar que o ritmo da imunização no país rodou em torno de 0,5% da população por dia na semana terminada em 9 de março. Por vezes, alcança 1 milhão de vacinas diárias na margem. Esses ritmos tendem a mostrar alguma constância, conforme sugerido pelas nossas simulações.

Outros dados

Os dados sobre internações, novos casos e óbitos têm declinado recentemente. Na segunda metade de abril, ao que tudo indica, a tendência é de baixa nesses indicadores, em especial por conta dos lockdown implementados em algumas cidades e pelo andamento da vacinação nos grupos prioritários.

Quanto à atividade econômica, a tendência positiva da imunização deve fazer com os agentes fiquem mais confiantes em retomar práticas que requerem presença física. Isso deve acontecer especialmente a partir do terceiro trimestre de 2021.

Tal mudança significa que serviços de alojamento, alimentação e compras fora de casa, atividades esportivas e culturais etc. seriam favorecidos nesse cenário, ou seja, durante a segunda metade do ano. Os dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) referentes a fevereiro mostraram certa melhora na margem desses serviços prestados às famílias, com alta de 8,8%.

A rigor, todos os cinco agrupamentos de atividades pesquisados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) tiveram variações positivas no mês. A receita total do setor subiu 3,7% na comparação mensal e teve uma queda de 2% na anual. Esses resultados superaram o consenso, que previa alta de 1,3% e retração de 3,7%, respectivamente. Também mostraram o nono avanço consecutivo na margem.

Porém, o inverso deve ser observado em março devido ao impacto negativo das restrições sociais no período. A projeção preliminar indica redução de 5% na comparação mensal. No médio prazo, com a ampliação da vacinação e a normalização da economia, um payback positivo deve ser observado nesses dados. Esse processo já foi observado em 2020, mas em menores proporções.

Varejo

O mesmo raciocínio se aplica ao comércio varejista. Em fevereiro, as vendas do setor ampliado — que têm mais correlação com o consumo das famílias no PIB — tiveram alta de 4,1% na comparação mensal e retração de 1,9% na anual. Esses resultados vêm de duas quedas na margem e superam o consenso, que era de 1,8%.

Agora, situam-se 2,4% acima do primeiro bimestre de 2020, que foi o período pré-COVID. Esse movimento será bruscamente interrompido em março por conta do fechamento dos pontos físicos de venda. Projetamos um recuo de 10% na comparação mensal.

A partir de abril, alguns segmentos podem voltar a ser impulsionados pelo novo auxílio emergencial, assim como visto em 2020. Ainda assim, apenas a normalização das atividades no segundo semestre, devido à vacinação, será capaz de proporcionar um ambiente normal de alta consistência desses indicadores.

Com essas oscilações nos dados de curto prazo, em função dos movimentos de fechamento e abertura da economia, avaliamos que o PIB do primeiro trimestre de 2021 deve orbitar em torno de zero. Esse índice é resultado do primeiro bimestre ainda positivo e é melhor do que a queda de 0,6% projetada anteriormente.

O impacto maior dos lockdown regionais deve vir no PIB do segundo trimestre, em 2021, com uma retração de 0,7% em comparação com a alta de 0,3% anterior. Esses dados devem surgir mesmo com o efeito benigno das transferências de renda.

Para o segundo semestre, ser confirmada a trajetória favorável da vacinação, o crescimento trimestral médio foi mantido entre 0,5% e 0,6%. Agora, veja as projeções anuais:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 4,9% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,10 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 5% em 2021, 5,75% em 2022 e 6% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 3,5% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Para complementar, observe o gráfico do PIB para o período entre 2019 e 2021.

Com isso, a taxa projetada para o PIB de 2021, de 3,5%, ainda parece justa. Ainda precisamos lembrar de que a natureza one-off do choque observado em 2021 é a mesma de 2020, apenas em proporções distintas.

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