Radar da Economia: Inflação 2021 – Projeções por setores

Atualmente, um dos temas mais debatidos nos mercados é o retorno da inflação a nível global após o choque da pandemia e o avanço da vacinação contra a COVID-19 nos países. Esse cenário leva à reabertura das economias de forma paralela. No entanto, a grande questão está relacionada a como será a dinâmica do processo inflacionário e se isso acarretará alterações na administração da política monetária adotada pelos Bancos Centrais.

Essa discussão ganha ainda mais relevância devido às dificuldades para a normalização das cadeias de insumos industriais e a outros fatores exógenos, como a alta das commodities e os riscos climáticos. Com esse pano de fundo, apresentamos nosso cenário doméstico de inflação e o respectivo balanço de riscos. Veja quais são as perspectivas neste Radar da Economia.

Inflação

Em relação à inflação dos alimentos, a alta das commodities agrícolas — como soja e milho — gera riscos de novos focos de pressão à cadeia de proteínas. Isso ocorre por conta do aumento dos custos de produção.

A forte demanda global, especialmente da China, tem sido um fator relevante para a sustentação de preços elevados. Além disso, há restrições de oferta devido ao atraso no plantio e pela seca em importantes regiões produtoras, por exemplo, em áreas do Centro-Sul do Brasil.

Por sua vez, o preço da carne bovina no atacado retomou, recentemente, um movimento de aceleração relevante. Com isso, há aumento dos riscos de repasses maiores ao varejo.

Combustíveis

No segmento de combustíveis, após uma acomodação dos preços na bomba durante o mês de abril, voltamos a observar altas nas últimas semanas. O destaque foi o etanol. Por conta da seca, a quebra da safra da cana-de-açúcar reduz a produção e pressiona os preços. Além disso, o avanço das cotações do etanol anidro — que compõe 27% da gasolina — atua como vetor de pressão também para o combustível fóssil.

Por outro lado, o petróleo recuou na semana terminada em 21 de maio no mercado internacional. O motivo foi a perspectiva de maior oferta pelo Irã com o avanço nas tratativas para o retorno do acordo nuclear de 2015.

Isso poderia levar a uma retirada das sanções dos Estados Unidos ao país do Golfo Pérsico. Assim, a perspectiva de novos reajustes de combustíveis na refinaria pela Petrobras é reduzida.

Energia elétrica

Em relação às tarifas de energia elétrica, há um ponto de atenção. O nível médio dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste segue bastante baixo, se comparado ao mesmo período de anos anteriores. Vale lembrar que esse é o principal sistema do país.

A falta de chuvas tem gerado uma perspectiva desfavorável para o cenário de bandeiras tarifárias. A tendência é que passemos da atual bandeira vermelha 1 para a vermelha 2, o nível máximo, no mês de junho.

A expectativa é que a bandeira tarifária siga na classificação vermelha 2 até outubro. Em novembro, deverá retornar para vermelha 1 e encerrar o ano nesse nível.

Caso as condições hidrológicas se tornem mais favoráveis após o período seco e o ano termine com bandeira amarela o impacto no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) é de -0,27 ponto percentual (p.p.). A nossa projeção para a inflação é de 5,4%.

Por outro lado, caso a situação dos reservatórios se agrave e o ano termine com bandeira vermelha 2 o impacto é de 0,21 p.p. Isso deverá puxar o IPCA para 5,6%.

Administrados

Com relação aos itens da categoria de administrados, vale pontuar a questão dos reajustes de plano de saúde e medicamentos. A imprensa relatou na semana de 21 de maio que a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) se reuniu para estabelecer o índice de reajuste de planos individuais, que será negativo, de acordo com fontes ouvidas pelos repórteres. Segundo cálculos que levam em conta a variação das despesas das operadoras com assistência médica em 2020, o reajuste pode ser estimado em -6,5%.

No entanto, nosso cenário considera queda de 3%. Isso gera margem para abater na revisão de valores de 2022. Caso a quantia estabelecida seja efetivamente de -6,5%, o impacto em nossa projeção de IPCA é de -0,09 p.p. Isso aumenta o risco de um reajuste mais pesado em 2022.

No que se refere aos medicamentos, o governo autorizou um reajuste de até 10,08%. A medida começou a valer em 1.º de abril. Porém, há um projeto de lei (PL 939/2021) na Câmara para suspender o aumento devido à pandemia. O texto já foi aprovado pelo Senado.

As sinalizações recentes indicam que a tendência é o reajuste ser mantido. Ao mesmo tempo, esperamos uma taxa bastante inferior ao autorizado pelo governo, em 5,3%. Essa variação deve ser diluída entre os meses de abril, maio e junho.

Análise

Desagregando o IPCA por categorias, esperamos aceleração de itens administrados de 2,6% em 2020 para 8,8% em 2021. O pico será em junho, quando deve chegar a 13,2%. A inflação de serviços também deve aumentar, passando de 1,7% para 2,9%, com máximo de 3,5% em setembro.

No mesmo sentido, a categoria de bens industriais deve subir de 3,2% para 5,3%, com valor máximo em 7,6% em junho. Esperamos que a normalização nos desequilíbrios entre oferta e demanda ocorra ao longo do segundo semestre.

Por fim, esperamos que a inflação de alimentação no domicílio ceda de 18,2% para 5,9%. No entanto, destacamos que o balanço de riscos aponta assimetria de alta.

No nosso cenário, o IPCA atinge em junho o pico na taxa acumulada em 12 meses, em 8,2%, e deve oscilar ao redor desse nível até agosto. A partir disso, deverá perder força para encerrar o ano em 5,4%.

Vale destacar que a média dos núcleos deve seguir em tendência de alta até agosto, atingindo 5%. Em seguida, tenderá a arrefecer e finalizar o ano em 4,1%.

Nesse contexto de maior pressão inflacionária em 2021, avaliamos que o processo de ajuste nos juros tende a prosseguir. Nossa expectativa de desaceleração do IPCA no 2.º semestre reforça nosso call de Selic em 5% ao final de 2021.

Veja como ficarão os outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 5,4% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,5% em 2021, 5% em 2022 e 4% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,10 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 5% em 2021, 6% em 2022 e 6,25% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,3% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.