Radar da Economia: O possível aumento da taxa de juros nos EUA e suas implicações

Os membros do Federal Reserve (FED) têm assegurado aos mercados que avisarão qualquer alteração futura da política monetária dos Estados Unidos. O Banco Central do país afirmou que fará esse procedimento com antecedência e clareza.

Evidentemente, a intenção é evitar a repetição da experiência do taper tantrum, ocorrida em 2013. Na época, o então presidente da instituição, Ben Bernanke, surpreendeu os agentes econômicos ao sinalizar a diminuição na compra de títulos.

Atualmente, as compras mensais de ativos rodam em 120 bilhões de dólares (MBS e Treasuries). Desde dezembro de 2020, a autoridade monetária tem reiterado que manterá esse ritmo até verificar “progresso substancial” em direção às suas metas de máximo emprego e inflação média (2%).

Além disso, recentes discursos de dirigentes do FED sugerem que parte da instituição já se encontra propensa a discutir o tapering, ou seja, a desaceleração na compra de ativos. Essa afirmação foi feita na ata da reunião de política monetária ocorrida em 27 e 28 de abril de 2021. Também deve permanecer de maneira mais explícita nos próximos encontros.

Por isso, neste Radar da Economia, ressaltamos as diferentes visões dos membros do FED a respeito da estratégia de retirada dos estímulos quantitativos vigentes atualmente. Também traçamos nosso cenário-base para essa estratégia no curto prazo. Entenda!

Os discursos de membros do FED

O elemento-chave a monitorar diante do contexto atual do FED é a reação do mercado de trabalho face ao ciclo econômico. Em especial, os presidentes das regionais de Dallas, Robert Kaplan, e da Filadélfia, Patrick Harker, disseram em público que a discussão sobre o tapering deveria começar em breve, se não imediatamente.

A preocupação maior de ambos é com o “efeito colateral” do Quantitative Easing (QE) nos preços dos ativos, como os imóveis. Isso provoca valorizações além dos fundamentos de mercado.

Na semana terminada em 28 de maio, Kaplan enfatizou que o mercado de trabalho também está mais apertado do que aparenta. Isso porque os fatores que, atualmente, inibem a procura por trabalho — saúde, filhos, aposentadorias ou seguro-desemprego — tendem a ser insensíveis em relação à política monetária.

Mesmo que tais fatores diminuam ao longo do ano, a oferta de trabalho pode aumentar menos do que o esperado, em última análise. Na mesma linha, o vice-presidente de supervisão do FED, Randal Quarles, observou que os riscos de alta para a inflação podem estar se acumulando. Ele fez essa afirmação em evento no dia 26 de maio de 2020.

Assim, o Banco Central precisaria começar a suavizar o caminho para eventual mudança de política. Quarles disse que embora “precisemos ser pacientes, se as minhas expectativas sobre crescimento, emprego e inflação nos próximos meses se confirmarem e, especialmente, se vierem mais fortes, será importante que o FOMC (Federal Open Market Committee) comece a discutir os planos para ajustar o ritmo de compras de ativos nas próximas reuniões”.

Mais posições

O viés de alta para a inflação decorre dos salários, segundo a visão de Quarles. Ele teme sua aceleração rápida, com repasse para os demais preços. Isso acontece em um contexto de mais gastos federais, normalização das atividades, elevado volume de recursos poupados e gargalos na cadeia de suprimentos — elementos que podem consolidar a persistência inflacionária.

Outro membro de alto escalão do FED a se posicionar recentemente foi o vice-presidente da instituição, Richard Clarida. Ele citou a possibilidade de o Banco Central “fazer menos”, em algum momento. De acordo com ele, “chegará um momento nas próximas reuniões em que estaremos no ponto em que podemos começar a discutir a redução do ritmo de compras de ativos”.

Clarida ainda destacou ao Yahoo Finance que “esse não foi o foco da reunião de abril. Vai depender do fluxo de dados”. Essas indicações por parte de alguns membros do board indicam que o tapering pode se tornar apropriado em breve. Isso representa uma rápida mudança de leitura na comparação com abril.

Naquele momento, o presidente do FED, Jerome Powell, disse que “ainda não era a hora de sequer pensar em ter essa conversa”. Contudo, não há um consenso claro dentro do FOMC a esse respeito.

A maioria dos dirigentes segue reafirmando que ainda são necessários todos os estímulos extraordinários para impulsionar a recuperação da economia e o emprego nos Estados Unidos. A recente alta da inflação é vista como transitória devido às suas origens na oferta e nos gargalos do mercado de trabalho, que devem ser resolvidos com o tempo.

“Quero ter a certeza de que todos saibam que não se trata de fazer nada agora”, comentou a presidente do FED de São Francisco, Mary Daly, em entrevista à CNBC no dia 25 de maio. Ela observou que, embora esteja otimista, a economia ainda tem mais de 8 milhões de empregos a menos, quando comparado com os dados de antes da pandemia.

Daly ainda destacou que “nesse momento, a política está em um lugar muito bom. Precisamos ser pacientes”. Por sua vez, o presidente da regional de St. Louis, James Bullard, disse que “ainda é cedo para abrir essa discussão”, dado que o mercado de trabalho está muito aquém das metas perseguidas pelo FED, e a pandemia continua em curso.

Bullard acrescentou que a instituição deve considerar a redução de seu apoio à economia. No entanto, isso só deve acontecer depois que a crise sanitária for controlada.

Melhoria econômica

As divergências de opinião remetem à ata do FOMC. Ele revelou que, para alguns participantes, pode ser apropriado começar a discutir um plano para ajustar o ritmo de compras de ativos. A medida seria tomada se a economia continuasse a progredir rapidamente em direção às metas, e os debates aconteceriam nas próximas reuniões.

Com base nos pronunciamentos da última semana de maio, já é possível inferir quem seriam esses participantes. A minoria está propensa a discutir o tapering. Por outro lado, “vários outros membros” julgaram que ainda levará algum tempo até que seja alcançado um progresso suficiente em direção às metas.

Enquanto isso, a maior parte do board segue comprometida com a postura acomodatícia no curto prazo, inclusive Powell. Adicionalmente, a criação de apenas 266 mil empregos em abril proporcionou pouco progresso em direção aos esforços do FED para conduzir a economia de volta ao pleno emprego. Isso porque o número efetivo foi 1/4 do projetado pelos economistas.

Mantido o ritmo médio de criação de vagas dos últimos quatro meses até abril, seriam necessários mais 18 meses até ser alcançado o patamar de ocupação de antes da pandemia. O Departamento do Trabalho também informou, no início de maio, que as vagas de emprego criadas (JOLTS) atingiram recorde histórico.

Por sua vez, a inflação do Core PCE subiu mais rápido do que o antecipado em abril, ficando em 3,1% contra 2,9%. Nesse contexto, para resolver o dilema apresentado pelo FED na reunião de abril, os números do payroll referentes a maio serão muito esclarecedores. Vale citar que indicadores antecedentes do mercado de trabalho, calculados pelo Dallas FED, sugerem que a procura por emprego se manteve baixa em maio.

Expectativas

A próxima reunião do FOMC será em 15 e 16 de junho. Nessa ocasião, além da decisão da política monetária em si, também serão atualizadas as projeções oficiais de crescimento, inflação e desemprego. Da mesma forma, as expectativas individuais dos membros do FED para a taxa de juros — atualmente, próxima a zero.

Talvez sejam verificadas mudanças nos dot plots devido ao teor das discussões recentes. Mais à frente, em 26 e 28 de agosto, durante o Simpósio Anual de Jackson Hole, Jerome Powell provavelmente dará uma orientação mais clara a respeito das compras de títulos.

Então, ele terá um conjunto mais consistente de informações sobre a dinâmica do mercado de trabalho e dos preços. Em nossa avaliação, a tendência da economia americana é bastante positiva. Com isso, o emprego refletirá esse movimento com alguma defasagem.

Assim, nossa expectativa é que o ritmo das compras de ativos pelo FED começará a ser reduzido no início de 2022. A comunicação desse movimento pela autoridade será bem clara e antecipada dessa vez, ajustando-se de modo a evitar qualquer movimento abrupto nos mercados quando começar o tapering de fato.

Quanto ao aumento da taxa de juros nos Estados Unidos, isso permanece em um futuro ainda distante e virá apenas depois que o balanço do FED alcançar o patamar desejado pela autoridade monetária. No Brasil, as projeções são as seguintes:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 5,4% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,5% em 2021, 5% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,30 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,10 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 5% em 2021, 6% em 2022 e 6,25% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 4,3% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Com um cenário de incertezas, é preciso se precaver. Veja o que pode ser feito para diminuir os riscos dos investimentos.

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