Radar da Economia: O aumento da Selic e as projeções para 2021 e 2022

Os mais recentes dados de inflação e seu impacto sobre as expectativas inflacionárias e as projeções oficiais nos fazem pensar sobre a perspectiva para a política monetária do Brasil. Em nossa visão, inovações relevantes tendem a ser incorporadas ao cenário do Comitê de Política Monetária (COPOM).

Isso porque, nos dias 15 e 16 de junho, haverá a reunião da entidade para deliberar sobre a taxa básica de juros. Desde o encontro anterior, em 5 de maio, os dados domésticos de atividade surpreenderam positivamente, conforme discutimos nos Radares da Economia “A melhoria dos resultados econômicos e as projeções para o PIB“, “Indicadores de março/21 mostram melhora da economia” e “As expectativas para a vacinação e a recuperação da economia“.

Além disso, as expectativas inflacionárias para 2022 desgarraram ainda mais do centro da meta, em 3,7% versus 3,5%, e a inflação subjacente acelerou muito além do teto da banda de 2021, em 6,30% contra 5,25%. Por fim, as cotações de commodities, em dólares, seguiram em alta.

Por outro lado, a apreciação do real atuou em sentido inverso, em decorrência do menor risco fiscal e da perspectiva de continuidade dos estímulos quantitativos do FED, o Banco Central dos Estados Unidos. Contudo, o resultado líquido dessa atualização de cenário será uma postura mais hawkish por parte do BC, tanto em termos de linguagem do comunicado como de indicações sobre os próximos passos do ajuste de juros.

Nesse novo ambiente, avaliamos que a referência ao processo de normalização parcial da taxa Selic não faz mais sentido, pois não está sendo efetiva. Neste Radar da Economia, vamos entender melhor todo esse contexto.

Postura do Banco Central

Em sua comunicação, o Comitê de Política Monetária tem enfatizado que não há um compromisso estrito com a postura parcial. O foco é o alcance da meta inflacionária no horizonte relevante.

Diante desse cenário, nossas simulações sugerem que as expectativas Focus para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022 tendem a subir ainda mais nos próximos dias. Elas devem impactar também as projeções oficiais da autoridade monetária e levar a inflação para 3,6% em 2022, mesmo com o real em R$ 5,10.

Com o propósito de conter esse ímpeto, julgamos que o BC deve elevar os juros em 75 bps na reunião de junho e sinalizar um novo ajuste de 75 bps para agosto. Além do mais, deve deixar espaço para a continuidade desse processo. Isso reforça bastante o compromisso com a meta para 2022.

Assim, projetamos duas altas adicionais de 75 bps em agosto e em setembro, seguidas por mais um ajuste de 50 bps em outubro. Esse movimento trará a taxa Selic para 6,25%, nível em que deve permanecer até o final de 2022. Esse patamar também está alinhado as nossas estimativas para o juro nominal neutro de médio prazo, que fica entre 6% e 6,5%.

IPCA

Para reforçar esse cenário, temos o IPCA de maio, que exibiu um quadro de dinâmica inflacionária pouco favorável, o que requer uma atuação mais incisiva pelo BC.

O índice surpreendeu as expectativas ao registrar alta de 0,83%. Com isso, superou a mediana de 0,71% e até mesmo o teto das projeções do mercado, que era de 0,77% na Bloomberg e 0,76% no Broadcast.

A leitura do mês foi desfavorável tanto pelo índice cheio pressionado quanto pela abertura, sinalizando altas disseminadas. O indicador de difusão atingiu 64,5% e ficou acima da média para o mesmo mês nos últimos 10 anos, que é de 59,2%.

Além disso, houve aceleração mais acentuada nos núcleos, que procuram excluir da conta itens voláteis ou reduzir seu peso de forma a captar a tendência estrutural da inflação.

Sendo assim, na nossa avaliação, o quadro inflacionário tem apresentado deterioração relevante, com a taxa acumulada do IPCA em 12 meses avançando de 6,76% para 8,06%. Essa piora da inflação corrente tem gerado uma perspectiva negativa para o futuro, o que resulta em revisões de alta nas expectativas para 2021 e também para 2022, devido a uma maior inércia inflacionária.

Novos riscos têm surgido, como em energia elétrica, por conta das condições hídricas desfavoráveis e outros focos de pressão se mostram recorrentes, por exemplo, em combustíveis. Além disso, as pressões de custos na cadeia de bens industriais ainda persistem e sinalizam que o reequilíbrio entre oferta e demanda deve ocorrer de forma gradual.

Para o segundo semestre, consideramos a dinâmica da inflação de serviços como um risco de alta para nossa projeção, em função do aquecimento da atividade econômica com a reabertura da economia.

Tendo em vista o novo conjunto de informações, revisamos nossa projeção para o IPCA de 5,4% para 6,0% em 2021 e de 3,7% para 3,9% em 2022 e, quanto à reação do Banco Central neste contexto, avaliamos agora que a autoridade monetária buscará a normalização total dos juros já neste ciclo de 2021.

Veja outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 6,0% em 2021, 3,9% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,1% em 2021, 5% em 2022 e 4% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5,15 em 2021, R$ 5,25 em 2022 e R$ 5,15 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 6,25% em 2021, 6,5% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Quer entender melhor como esses movimentos influenciam a rentabilidade dos seus investimentos? Veja como Selic e inflação impactam a renda fixa.

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