Radar da Economia: Como ficará a Selic? A continuidade das projeções

Este Radar da Economia é o nosso terceiro relatório consecutivo a abordar os rumos da política monetária doméstica. Nas semanas anteriores, tratamos do aumento da Selic e as projeções para 2021 e 2022 e das novas perspectivas para o cenário brasileiro.

A recorrência do tema se deve ao saudável aumento da transparência promovido pelo Banco Central (BC) em sua comunicação oficial recente. Atas, comunicados e apresentações têm trazido o debate entre os membros do Comitê de Política Monetária (COPOM) com bastante clareza.

Além disso, apresentam os detalhamentos e os vieses das projeções oficiais para a inflação, vindas dos modelos econométricos usados pela autoridade. Trata-se de um avanço institucional relevante dentro do regime brasileiro de metas inflacionárias.

Assim, colabora para incrementar ainda mais a credibilidade do BC no médio prazo. Contudo, ao avaliarmos um período mais curto, percebemos existir um trade-off: a maior transparência pode implicar ruídos de comunicação, capazes de aumentar a incerteza e a volatilidade na precificação de ativos ou na elaboração de cenários.

Portanto, exigirá mais esforço de pesquisa e data mining. Este Radar da Economia aborda esse contexto para podermos fazer nossa análise. Acompanhe.

Expectativas para 2021

Para começar e considerando todo o cenário citado, reafirmamos nossa expectativa de que a taxa Selic será elevada ao ritmo de 75 bps nas próximas três reuniões do COPOM (agosto, setembro e outubro) até o patamar julgado neutro pelo BC, em 6,5%.

A abertura do IPCA-15 de junho, publicado no dia 25 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), também reforçou essa perspectiva. Isso porque mostrou mais pressão inflacionária nos serviços, núcleos e difusão. Avaliamos que essas influências tendem a diminuir de forma mais relevante no 4.º trimestre de 2021, motivando uma postura wait and see por parte do BC no período.

Selic

No parágrafo 13 da ata do COPOM relativa à reunião de junho de 2021, a entidade admite que as projeções de inflação estão alinhadas à meta para 2022, ou seja, 3,5%. Essa consideração leva em conta o cenário básico, com a taxa de juros terminal em 6,25% em 2021 e 6,5% em 2022.

Nossa argumentação começa por aí. Afinal, o Comitê pondera que “… os riscos fiscais continuam implicando um viés de alta nas projeções. Essa assimetria no balanço de riscos afeta o grau apropriado de estímulo monetário, justificando assim uma trajetória para a política monetária menos estimulativa do que a utilizada no cenário básico”.

Esse importante disclosure tratando da resposta de política monetária e nos sugere que cenários alternativos de risco fiscal seriam novamente publicados pelo BC no Relatório de Inflação de junho. Com esses números, seria possível deduzirmos a inflação efetivamente esperada pelo BC, em vez de fazer uma mera projeção pontual do contexto básico.

Esse cálculo da inflação é resultante da ponderação de diferentes cenários. Dessa forma, a reação monetária mais tempestiva ficaria mais clara, conforme descrita nos parágrafos 15 e 20 da ata. A aceleração do ritmo de ajuste na Selic para 100 bps em agosto seria plenamente justificável nesse caso.

Em conjunto, o orçamento total de juros maior seria exigido para corrigir as projeções inflacionárias frente ao base case oficial. Segundo nossas simulações, a Selic terminal sob tais condições (maior risco fiscal) ficaria mais próxima de 7,25%.

Análise do Copom

Contudo, esses cenários adversos para as contas públicas, bem como seu impacto inflacionário, não foram simulados pela autoridade. Sequer foram enfatizados durante a exposição do Relatório Trimestral de Inflação (RTI).

Ao contrário, o boxe trazido pelo BC tratou dos riscos para o IPCA derivados da normalização da política monetária nos Estados Unidos e da reversão dos preços de commodities. O segundo evento, com viés baixista sobre a inflação, foi considerado o de maior probabilidade.

Esse foi o julgamento dos próprios membros do BC. Essa leitura mais branda a respeito da assimetria nas projeções centrais de inflação também nos chamou a atenção. Dessa vez, pelo lado dovish.

Ao nosso ver, ela foi estrategicamente traçada de modo a prevalecer sobre o conteúdo mais duro apresentado no balanço de riscos escrito na ata. O próprio parágrafo 13 do documento, aliás, não foi reproduzido no RTI. Isso tem um significado bem relevante.

Como resultado, nesse contexto de mais transparência na comunicação oficial, avaliamos que a sinalização mais recente da autoridade monetária segue em linha com o nosso call de normalização integral da taxa básica de juros nesse ciclo. Portanto, em agosto, julgamos que o BC deve elevar a taxa Selic em 75 bps.

Mais do que isso, o Banco Central deve “telegrafar” novamente uma alta de mesma magnitude para setembro. Será seguida por mais um ajuste de igual tamanho em outubro. Assim, a taxa Selic passará para 6,5%. Esse é o nível em que deve permanecer até o final do ano, de forma alinhada ao juro nominal neutro estimado pelo BC. Outros indicadores são:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 6,4% em 2021, 3,9% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,1% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • Câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5 em 2021, R$ 5,15 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 6,5% em 2021, 6,5% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Ao longo desse processo, lembramos que a autoridade reforçará bastante (“whatever it takes”) o seu compromisso com a meta para 2022 de modo a conter efetivamente qualquer ímpeto altista das expectativas de mercado e/ou projeções oficiais.

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O Banco ABC não interpreta o conteúdo desta publicação como consultoria jurídica, contábil, fiscal ou de investimento ou como uma recomendação, portanto, nenhum investimento, desinvestimento ou outras ações ou decisões financeiras devem se basear apenas nas informações contidas nesta publicação.

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