Radar da Economia: Choques de preços e os impactos na inflação

A última semana do primeiro semestre de 2021 trouxe informações relevantes para a avaliação do cenário prospectivo para a inflação. Por um lado, a falta de chuvas e a situação crítica dos reservatórios já resultam em pressões adicionais na conta de energia elétrica em julho. A perspectiva é de uma nova alta, levando a um quadro mais desfavorável para o IPCA de 2021.

Por outro lado, a mudança nos valores de cobrança do sistema de bandeiras tarifárias pode gerar um alívio maior para a inflação em 2022. A premissa é que o próximo ano não termine com a bandeira vermelha 2.

Isso deve contribuir para os esforços do Banco Central (BC) na ancoragem das expectativas de inflação em torno do centro da meta. Ainda não devem ser verificados efeitos relevantes de disseminação de altas para outros preços, especialmente os relacionados a serviços.

Com esse pano de fundo, discutimos neste Radar da Economia os impactos das informações recentes e a revisão de nossas projeções para a inflação de 2021 e 2022. Confira.

Panorama

A economia tem passado por sucessivos choques de preços. Percebemos isso pela análise em retrospectiva. De certa forma, isso dificulta a defesa do argumento de que a alta na inflação é temporária, com a população vendo seu poder de compra sendo corroído por diversas frentes.

1.º choque de preços

O primeiro choque ocorreu em 2020, com os preços dos alimentos consumidos no domicílio. A taxa mensal passou de 0,14% em julho até o pico de 3,33% em novembro. Os itens que puxaram esse resultado foram a cadeia de proteínas e o óleo de soja.

É importante ressaltar que a descompressão aconteceu de forma mais gradual do que o esperado pelo mercado e pelo Banco Central. Justamente quando a alta nos alimentos estava em processo de normalização, verificou-se um novo choque.

2.º choque de preços

O segundo choque foi verificado na energia elétrica. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) alterou no final de novembro de 2020 a bandeira tarifária. Ela foi de verde, que não cobra taxa extra, para vermelha 2, a mais cara do sistema.

Com isso, o IPCA de dezembro registrou alta de 1,35%. Essa foi a maior taxa mensal desde fevereiro de 2003, quando foi verificado um índice de 1,57%. Também foi a maior variação para o mês desde 2002, época em que a oscilação foi de 2,1%.

Apesar disso, esse choque foi temporário. A bandeira tarifária recuou para amarela em janeiro de 2021 e contrabalançou, ainda que não integralmente, a forte alta de dezembro.

3.º choque de preços

O terceiro choque ocorreu em fevereiro de 2021. Dessa vez, nos combustíveis. Os preços foram puxados pela alta do dólar e do preço do petróleo no mercado internacional. O item — que engloba gasolina, etanol, diesel e gás veicular — acelerou para níveis pouco acima de 11% em março. Em seguida, perdeu a força.

A partir de maio, observamos uma retomada de preços dos combustíveis, puxada pelo etanol. Isso ocorreu em função da quebra de safra da cana-de-açúcar. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão sobre a gasolina devido ao encarecimento do:

  • etanol hidratado, que consiste no bem substituto;
  • etanol anidro, que é adicionado à mistura.

Com essa aceleração nos combustíveis, observamos a deterioração dos preços na energia elétrica. Assim, foi acionada novamente a bandeira vermelha 1, em maio, e a 2, em junho. Esse contexto pode ser visualizado no gráfico a seguir.

Energia elétrica

Nesse contexto, é preciso ressaltar a situação crítica dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que já estão em níveis abaixo de 30%. Esse cenário está próximo ao observado em 2001, ano da “crise do apagão”.

Em função disso, a Aneel alterou os valores do sistema de bandeiras tarifárias de energia elétrica. Pela estrutura vigente até o mês de junho, o custo adicional a cada 100 kWh consumidos variava de R$ 1,34 (bandeira amarela) a R$ 6,24 (bandeira vermelha 2).

A estrutura proposta em audiência pública estabelecia uma redução de 25% e 26% no valor extra da bandeira amarela. Assim, ficaria em R$ 1 a cada 100 kWh consumidos. No entanto, haveria acréscimo de 10,3% e 21,3% nas bandeiras vermelhas 1 e 2, respectivamente.

Na última terça-feira de junho, contudo, foram decididos novos valores. A bandeira amarela teve uma alta de 39,2%, passando para R$ 1,87. A vermelha 1 teve queda de 4,8% e ficou em R$ 3,97. Por sua vez, a vermelha 2 registrou aumento de 52%, chegando a R$ 9,49. Podemos observar as alterações nas tabelas a seguir.

Outro ponto importante é a expectativa de que o valor extra cobrado sob bandeira vermelha 2 suba novamente e alcance R$ 11,50. Esse cenário poderá entrar em vigor em agosto ou setembro após uma nova consulta pública para mudança da metodologia de cálculo das bandeiras.

Inflação

Incorporando o valor de R$ 11,50 em nossa conta, o IPCA de 2021 foi revisado de 6,4% para 6,5%. Para 2022, nossa premissa é de bandeira vermelha 1 ao final do ano. Com isso, o encarecimento da bandeira vermelha 2 em 2021 resulta em um impacto negativo de 12 bps ante o cenário de custo adicional equivalente a R$ 9,49.

Unindo esse efeito a uma revisão de baixa em bens industriais, revisamos nossa projeção de 3,9% para 3,7%. O motivo para essa atualização é o benefício desse item com o alívio na energia elétrica.

Esse alívio das pressões sobre a inflação de 2022 deve contribuir para os esforços do Banco Central na ancoragem das expectativas em torno do centro da meta, que é de 3,5%. Isso deve ser refletido nos próximos relatórios Focus, que já têm mostrado alguma melhora bem incipiente na média das projeções e deve puxar a mediana em breve.

Com as atualizações recentes, esperamos que o IPCA siga em trajetória de alta no acumulado em 12 meses. Assim, acreditamos que atingirá o pico de 8,9% em agosto. A partir daí, deverá diminuir para até 6,5%.

Diante desse contexto, veja quais são as projeções para os diferentes indicadores.

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 6,5% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 17,5% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5 em 2021, R$ 5,15 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 6,5% em 2021, 6,5% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

Gostou da análise do Radar da Economia? Agora veja por que investir e saiba como melhor aplicar o seu dinheiro.

O Banco ABC não interpreta o conteúdo desta publicação como consultoria jurídica, contábil, fiscal ou de investimento ou como uma recomendação, portanto, nenhum investimento, desinvestimento ou outras ações ou decisões financeiras devem se basear apenas nas informações contidas nesta publicação.

O Banco ABC não faz qualquer representação ou garantia, expressa ou implícita, quanto à exatidão, plenitude e confiabilidade das informações, estimativas ou projeções quanto a eventos que possam ocorrer no futuro. Não há garantia de que quaisquer dessas estimativas ou projeções serão alcançadas. Nada aqui contido é, ou deve ser entendido como, uma promessa ou representação do passado ou do futuro.
O Banco ABC se exonera, expressamente, de toda e qualquer responsabilidade relacionada ou resultante da utilização desta publicação.

Quer receber mais conteúdos como esse gratuitamente?

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.