Radar da Economia: Comércio, indústria e serviços mostram ritmos diferentes de crescimento

O atual estágio em que a economia brasileira se encontra no ciclo de negócios já motiva uma série de questionamentos sobre o cenário que efetivamente se desenhará à frente. Com o aumento da imunização e a retomada do crescimento econômico, há ganho de confiança nos agentes econômicos e o consequente retorno pleno das atividades à normalidade.

Ainda assim, sabemos que os grandes setores econômicos — varejo, serviços, agricultura e indústria — e suas diversas atividades foram impactados de maneira diferente pela COVID-19. Dessa forma, a transição para o contexto pós-pandemia envolverá, também, distintos graus de retomada entre cada um.

A mesma lógica se aplica à inflação. Observaremos a recomposição dos preços relativos, antes afetados pelo isolamento social. Já notamos isso em países mais adiantados no ciclo de negócios (China) ou na vacinação (EUA).

Ou seja, ao que tudo indica, o retorno da economia brasileira ao normal provocará mudanças setoriais nesses dois fronts: atividade e inflação. Nesse sentido, este Radar da Economia busca avaliar indícios dessas mudanças a partir dos indicadores domésticos de atividade divulgados recentemente.

IBC-Br

Os dados referentes a maio do “PIB mensal”, ou IBC-Br, mostraram um surpreendente recuo no mês. Foi de -0,4% versus 1%, que era o projetado. Essa queda foi acompanhada também pela revisão para cima no índice de abril, que passou de 0,4% para 0,9%. Também impactou o resultado de março, que foi de -1,6% para -2%.

Com isso, o carregamento estatístico para o segundo trimestre de 2021 se situa agora em -0,3%, vindo de 1,6% no primeiro trimestre de 2021. Vale ressaltar que essa última é a taxa mais próxima da apurada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que era de 1,2%.

Assim, segue compatível com a nossa projeção de estabilidade para o PIB do mesmo período. Na comparação com o nível pré-COVID, o IBC-Br de maio fica 0,2% acima. Nesse quesito, o PIB oficial, do IBGE, alcançou patamar equivalente ao no início de 2021.

Vale notar que, ao contrário do “PIB mensal” (calculado pelo Banco Central), as pesquisas setoriais do IBGE com serviços, indústria e varejo mostraram crescimento em maio. No entanto, as intensidades foram diferentes.

Serviços

A expansão mostrada por esse segmento no mês foi de 1,2%. Ela foi puxada pelas atividades de:

  • alojamento/alimentação: 18%;
  • transporte aéreo: 60,7%.

Essas foram as atividades mais impactadas pelo isolamento social. Porém, elas agora se beneficiam do progresso da vacinação, das menores restrições e dos ganhos de confiança. Com isso, a receita real do setor está agora 0,2% superior a fevereiro de 2020, ou seja, antes da pandemia. O principal aspecto foi a influência positiva dos serviços de:

  • informática: 6,2%;
  • transporte aquaviário: 10,5%;
  • transporte terrestre: 0,9%;
  • outros: 3,2%.

Por outro lado, o segmento de serviços prestados às famílias ainda está 34,4% abaixo nessa base de comparação Essa taxa é próxima à mostrada pelos serviços de transporte aéreo, que ficaram em -34%. Esses são os setores mais defasados e tendem, de agora em diante, a mostrar taxas mais aceleradas de expansão. Assim, devem chegar ao estado usual de antes.

Além disso, a Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de maio trouxe indícios nessa direção, que tende a continuar nos próximos meses. Assim, projetamos uma expansão de 0,5% na comparação mensal e de 18,3% na anual. Esses dados são relativos à receita real do setor em junho.

Comércio

O comércio varejista ampliado, incluindo automóveis e materiais de construção, cresceu 3,8% na margem em maio. Esse resultado foi obtido após 5,4% revisados em abril. Foi um crescimento difuso, sendo que 9 das 10 atividades tiveram expansão no mês.

Ao mesmo tempo, esse setor também contou com a influência positiva do comércio de itens ligados à mobilidade. Entre eles estão o vestuário (16,8%) e os combustíveis (6,9%). Frente a fevereiro de 2020, as vendas varejistas exibem crescimento de 1,6%. O resultado foi puxado por:

  • materiais de construção: 19,8%;
  • artigos farmacêuticos: 10,3%;
  • supermercados: 3,4%;
  • móveis/eletrodomésticos: 1,6%.

Do lado negativo, destaque para o comércio de:

  • veículos: -4,7%;
  • combustíveis: -3,5%;
  • vestuário: -3,1%.

No entanto, essas três atividades registraram crescimento expressivo do volume de vendas nos últimos dois meses, mesmo com restrições de insumos, no caso dos automóveis. Como nos serviços, isso também reflete a tendência à convergência. Além disso, os setores varejistas mais atrasados estão correndo agora na frente, conforme a situação econômica volta ao normal.

Indústria

A indústria teve alta de 1,4% em maio e segue discretamente acima do nível pré-pandemia. Sua performance no mês foi influenciada pelo bom desempenho das categorias de:

  • bens de consumo semi e não duráveis, especialmente vestuário, acessórios e bebidas;
  • bens de capital, como equipamentos de informática e de transporte agrícola.

No primeiro caso, é possível notar alguma influência da maior mobilidade na margem. No segundo, os investimentos seguem guiados pelas atividades que têm sentido menos os efeitos adversos da pandemia, desde 2020.

Em sentido inverso, o setor automotivo (duráveis) continua mostrando maior fragilidade. Esse é o reflexo da escassez de componentes eletrônicos. Quando comparados ao nível de fevereiro de 2020, nota-se maior defasagem — e maior espaço para crescimento futuro, portanto — na produção de bens de consumo (-10%), tanto duráveis (-16%) quanto não duráveis (-7%).

Em resumo, a retomada econômica após o choque da COVID-19 tem sido marcada pela divergência de performance entre os setores. Isso acontece no Brasil e no mundo. Dado o progresso atual da vacinação doméstica e a tendência ao maior relaxamento nas medidas de isolamento social por aqui, é de se esperar que essas diferenças diminuam. Esse é um reflexo da volta à normalidade.

Nesse contexto, avaliamos que as atividades de serviços — que respondem por aproximadamente 2/3 do PIB total — devem mostrar maiores taxas de expansão nessa segunda metade de 2021. Nesse período, projetamos que o crescimento trimestral do PIB oscile entre 0,5% e 0,6%, alinhado à nossa expectativa de expansão de 5,2% para o PIB do ano. Veja como ficam os outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 6,5% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,5% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5 em 2021, R$ 5,15 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 6,5% em 2021, 6,5% em 2022 e 6,5% em 2023.

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