Radar da Economia: Selic deve chegar a 5,25% ao ano

A dinâmica recente da inflação e das expectativas tem elevado a percepção de que o Banco Central (BC) acelerará o ritmo de alta nas taxas de juros. O movimento acontecerá na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) no dia 4 de agosto.

O horizonte relevante de atuação da política monetária sinaliza que o foco é o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2022. No entanto, é impossível negligenciar a evolução dos preços em 2021. Afinal, as pressões na inflação de um ano podem contaminar a do período seguinte via inércia e indexação.

Nesse sentido, neste Radar da Economia, elencamos os pontos de atenção em nosso balanço de riscos para a inflação. Além disso, discutimos a respeito da nossa perspectiva para os próximos passos do Banco Central no ajuste da taxa Selic, que deve encerrar o ano em 7%.

Dados do IPCA

A abertura do IPCA-15 de julho, divulgado no dia 23 desse mês, mostra um quadro qualitativo desfavorável. O cenário conta com núcleos pressionados e serviços acima do esperado, ainda que puxados por itens voláteis, como passagem aérea, com alta de 35,64% no mês.

Vale destacar que as métricas dessazonalizadas e anualizadas em média móvel de três meses (MM3M SAAR) sinalizam continuidade da trajetória de alta dos núcleos e de serviços nas próximas leituras.

Na nossa avaliação, o balanço de riscos apresenta assimetria de alta para as projeções tanto para 2021 (6,8%) quanto para 2022 (3,7%). O motivo é a possibilidade de aceleração mais acentuada no componente de serviços, conforme a reabertura da economia avança e os consumidores demandam mais dessa categoria.

A característica mais inercial da inflação de serviços eleva os riscos de efeitos de segunda ordem sobre a inflação corrente e prospectiva. Com isso, pode exigir uma postura mais firme da política monetária para o cumprimento da meta em 2022. Ela está estabelecida em 3,5%, recuando para 3,25% em 2023 e 3% em 2024.

No curto prazo, a inflação tende a seguir pressionada em decorrência das geadas nas regiões Sul e Sudeste. Elas já afetam a oferta de produtos in natura. Também impactam negativamente na disposição de commodities, como milho e soja. Por isso, futuramente, pode gerar pressões sobre a cadeia de proteínas.

Crise hídrica

A situação crítica do cenário hídrico deve resultar em novas pressões na conta de energia elétrica. O ano deve encerrar com a vigência da bandeira vermelha 2, com custo de R$ 11,50 a cada 100 kWh consumidos. Atualmente, o valor cobrado nesse nível é de R$ 9,49 a cada 100 kWh.

Esperamos bandeira vermelha 1 em dezembro de 2022, gerando vetor de baixa para a inflação de preços administrados. É importante destacar que a neutralidade de bandeiras tarifárias entre 2021 e 2022 dificultaria de forma relevante o cumprimento da meta.

Impacto da defasagem nos preços

A possibilidade de repasses defasados na cadeia de bens industriais é outro ponto considerado importante em nosso balanço de riscos para a inflação. Os preços desse componente no atacado (IPA-M industrial) tem alta acumulada de 43,37% nos 12 meses encerrados em julho.

Isso geraria outro vetor de sustentação da inflação em um contexto de normalização dos preços de serviços. Confira no gráfico a seguir.

Projeções para a Selic

Dado esse quadro de pressões inflacionárias mais persistentes e disseminadas que o antevisto, avaliamos que a resposta de política monetária na reunião do Copom será um tanto incisiva. Nossa expectativa é que a taxa Selic seja aumentada em 100 pontos-base (bps). Com isso, chegará a 5,25% ao ano.

Isso deve acontecer porque os fatores condicionantes para um ajuste de juros superior aos 75 bps praticados desde março de 2021 ficaram mais evidentes agora. As pressões nos núcleos — em qualquer métrica analisada — estão maiores na margem e seguem incompatíveis com as metas inflacionárias perseguidas pelo BC.

Adicionalmente, as expectativas inflacionárias para 2022 — já superiores a 3,5% — estão em alta desde a reunião de junho. Inclusive, esse movimento parece refletir os efeitos secundários dos persistentes choques observados no IPCA de 2021.

As inflações implícitas exibiram trajetória altista similar desde junho. Por menor que seja, essa contaminação da inflação esperada pela corrente demanda uma reação mais tempestiva da política monetária. Especialmente, dado o contexto econômico de retomada da atividade em conjunto com expressivas pressões de alta no IPCA corrente, tal como discutimos acima.

Nesse contexto, avaliamos que o BC tende a sinalizar outro “ajuste de igual magnitude” — ou seja, de 100 bps — para a reunião de setembro. Ainda deve retirar a menção ao juro neutro no statement da reunião de agosto.

Projetamos, também, alta adicional de 75 bps em outubro. Assim, a taxa básica será elevada para 7% ao final do atual ciclo de ajuste. A permanência da Selic nesse patamar, daí em diante, parece ser o cenário mais provável.

Nossas simulações são baseadas nos modelos do BC e sugerem que elevações adicionais dos juros poderiam gerar projeções de IPCA “consideravelmente abaixo” do centro da meta em 2022. Isso no cenário básico simulado pela autoridade monetária.

Ou seja, para confirmar um budget maior de ajuste — acima de 7% —, tudo mais constante, o BC precisaria trabalhar com um cenário alternativo de choques altistas sobre o IPCA. No entanto, isso nos parece pouco provável.

Avaliamos que essa discussão sobre os resultados das simulações para a inflação deve ser bem detalhada na próxima ata. Entenda melhor a perspectiva no gráfico.

COLOCAR GRÁFICO TAXA SELIC

Agora veja as perspectivas de IPCA, Selic e outros indicadores:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 6,8% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,5% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5 em 2021, R$ 5,15 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 7% em 2021, 7% em 2022 e 7% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 3% em 2022 e 3% em 2023.

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