Radar da Economia: Dados de atividade econômica mostram aumento da Selic e retração do PIB

Recentemente, argumentamos que, no atual contexto de retomada da economia global, os países mais adiantados no ciclo e na vacinação têm apresentado movimentos bem semelhantes em dois fronts: atividade econômica e inflação. No primeiro caso, os setores antes impactados pelo isolamento social agora exibem maior crescimento relativo devido à imunização avançada.

Enxergamos isso de forma bem clara nos dados domésticos de atividade publicados na semana finalizada em 13 de agosto. Para explicar melhor, tratamos esses aspectos do cenário econômico neste Radar da Economia.

Resumo da política monetária

O volume de serviços prestados registrou expansão de 1,7% em junho de 2021. Ao mesmo tempo, as vendas varejistas recuaram 2,3% no mesmo mês. Por sua vez, o índice da produção industrial ficou de lado (0%), como já havia sido divulgado anteriormente pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Com a normalização da demanda, o reflexo desse movimento no front inflacionário é bastante direto e traduz-se em recomposição de preços. Os valores de serviços têm mostrado pressões de alta acima daquelas observadas no passado recente, tanto nos Estados Unidos (vide os “serviços médicos” no Producer Price Index de julho) quanto no Brasil.

Aqui, os subitens “passagens aéreas” e “aluguel residencial” contribuíram em 0,13 ponto percentual (p.p.) para a aceleração do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em julho, que ficou em 0,96%. Respectivamente, essas categorias apresentaram alta de 35,2% e 0,93%.

Pensando na política monetária, o efeito prático dessas mudanças é uma postura ainda mais cautelosa por parte do Comitê de Política Monetária (Copom). Especialmente, em um contexto em que as expectativas de inflação mostram dinâmica pouco favorável, como já afirmado na última ata.

Com isso, avaliamos agora que o Comitê ajustará a taxa Selic para um patamar ainda mais restritivo do que o antevisto. Ela deve chegar a 7,75% até o final de 2021. Antes a previsão era de 7%.

Por sua vez, esse maior juro real tende a manter o crescimento econômico de 2022 mais próximo de 2,5%, sendo que a projeção anterior era de 3%. Agora, é preciso avaliar outros aspectos de forma mais aprofundada.

Indicadores de atividade

Em junho, o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), também chamado de PIB mensal e calculado pelo Banco Central (BC), teve crescimento de 1,1%. Essa taxa veio acima das expectativas de mercado e da nossa projeção, que estavam em 0,5%.

Esse resultado também mostrou aceleração frente ao mês imediatamente anterior, que ficou em -0,6% revisado. Na margem, o bom desempenho do IBC-Br refletiu o crescimento da receita real dos serviços, principalmente. Esse segmento apresentou alta de 1,7%.

Por outro lado, as dinâmicas do varejo amplo (-2,3%) e da indústria geral (0%) exibiram perda de ímpeto no mês. Esse cenário também foi verificado na produção agrícola, que foi afetada por adversidades climáticas.

Análise

Na segunda metade de 2021, em nossa visão, essa mudança de composição da atividade econômica será o principal driver do crescimento. Isso porque a tendência é haver maior expansão relativa dos serviços versus manufatura/comércio de bens.

Isso já é detectável nos dados. Nosso exercício de carry para os grandes setores (indústria, comércio e serviços) no terceiro trimestre de 2021 aponta para alta de 1,6% nos serviços, crescimento de 0,5% na indústria e queda de 0,5% no varejo amplo. Esse cenário é apresentado nos gráficos a seguir.

Tal como mencionado antes, o progresso da vacinação no Brasil e a reabertura das atividades é o pano de fundo desse contexto mostrado nos gráficos. É importante lembrar ainda que, apesar da surpresa para cima no índice em junho, o IBC-Br acumulou variação modesta no segundo trimestre de 2021.

Ela ficou em 0,1% na comparação trimestral. O resultado veio após uma alta de 1,6% no primeiro trimestre do ano. Em frequência mensal, vale recordar que a retração mostrada em maio foi revida para menor. Passou de -0,4% para -0,6%. Enquanto isso, a taxa de abril subiu discretamente e foi de 0,85% para 0,9%.

Considerando as diferenças de metodologia entre o IBC-BR e o Produto Interno Bruto (PIB) oficial, essa taxa trimestral do índice do Banco Central continua um tanto compatível com a nossa expectativa de variação nula para o PIB do IBGE no segundo trimestre de 2021. Afinal, ficou em 0,1%.

Mais importante do que isso, o carregamento indicado pelo IBC-Br para o terceiro trimestre segue positivo, em 0,6%. Também está alinhado à nossa projeção para o PIB desse trimestre, que está em 0,5%. Dados antecedentes, como o Índice de Gerentes de Compras (PMI) composto, apontam na mesma direção.

Inflação

No que tange à inflação, quando analisamos os preços relativos versus o IPCA geral, notamos que existe um grande espaço para a recomposição dos preços de serviços em especial. Esse grupo tem um peso de 35% no índice cheio, mas se encontra aproximadamente 6% abaixo do ratio observado antes da pandemia.

Ao mesmo tempo, os preços de alimentos têm força de recomposição em sentido inverso. Eles se encontram 10% acima nessa base de comparação. Ainda assim, apresentam menor peso no IPCA geral, sendo de 15%.

Aqui, o principal problema é que a inflação de serviços mais persistente afeta as métricas de núcleo inflacionário e também as expectativas. Esses dois vetores tendem a dificultar o trabalho do Banco Central na margem.

Tanto é que esse foi um dos principais pontos ressaltados pela autoridade na última ata, em paralelo com o quadro fiscal mais incerto e a piora qualitativa da inflação corrente. Com isso, os membros do BC têm reforçado cada vez mais a mensagem de que conduzirão a política monetária para o terreno contracionista ao final desse ciclo de ajuste.

Nesse quadro, partindo do juro nominal neutro de 6,5% ainda vigente, entendemos que o BC deve ajustar a Selic em 100 pontos-base (bps) nas duas próximas reuniões do Comitê. Elas acontecem em setembro e em outubro.

Além disso, deve incrementá-la em 75 bps ao final de 2021. Com isso, ficará em 7,75% em dezembro. Ao longo de 2022, a taxa básica tende a se manter nesse patamar e voltará a ceder apenas ao longo de 2023. Assim, retornará a 6,5%.

Projeções

Em resumo, levando em conta os dados mais recentes, reafirmamos a nossa projeção para o PIB 2021, fechando em 5,2%. Nesse caso, supomos acomodação do crescimento no segundo trimestre (0%) e gradual aceleração na segunda metade do ano. Assim, o terceiro trimestre deverá apresentar crescimento de 0,5% e o quarto, de 0,6%.

Para 2022, com a política monetária mais contracionista, nossa expectativa é que o PIB fique mais próximo de 2,5%. Isso com Selic a 7,75% e juros reais em 3,9%. A depender do ambiente eleitoral mais incerto e da postura da política fiscal, com suas implicações para as condições financeiras, esse crescimento pode ficar até abaixo desse patamar.

Quanto ao IPCA, ainda que o número de julho tenha vindo próximo do esperado — 0,96% ante 0,98% —, os núcleos seguem em alta. Os preços de serviços continuam em processo de normalização, bastante pressionados na margem pelas passagens aéreas.

Dessa forma, para o IPCA de agosto, projetamos 0,63%. Para setembro, alta de 0,51%. No ano, a expectativa para o índice foi elevada para 7,1%, vindo de 6,8% antes. Essa mudança considera as maiores pressões em alimentação no domicílio e em serviços. Por outro lado, para 2022, reafirmamos a nossa projeção de 3,7%. Veja mais:

  • IPCA: 4,31% em 2019, 4,52% em 2020, 7,1% em 2021, 3,7% em 2022 e 3,25% em 2023;
  • IGP-M: 7,32% em 2019, 23,14% em 2020, 18,5% em 2021, 6,1% em 2022 e 4% em 2023;
  • câmbio: R$ 4,03 em 2019, R$ 5,20 em 2020, R$ 5 em 2021, R$ 5,15 em 2022 e R$ 5,05 em 2023;
  • Selic: 4,5% em 2019, 2% em 2020, 7,75% em 2021, 7,75% em 2022 e 6,5% em 2023;
  • PIB: 1,4% em 2019, -4,1% em 2020, 5,2% em 2021, 2,5% em 2022 e 2,5% em 2023.

Quer entender mais sobre o IBC-Br? Veja o que é esse índice e qual sua importância.

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